Resumo
- Na Alemanha dos anos 1920 e 1930, o nazismo aproveitou-se do colapso económico pós-crise de 1929 e da humilhação do Tratado de Versalhes.
- Em Portugal, o Chega ascendeu em pleno ciclo de descrença nas elites políticas e mediática tradicionais, canalizando indignação perante a corrupção e as desigualdades económicas.
- A desinformação circula em torno de supostos privilégios de minorias, fraudes eleitorais, crimes imputados sem provas a imigrantes ou ciganos, e até sobre vacinação e pandemia.
Como a retórica do medo, a manipulação mediática e a construção de inimigos internos se tornam armas políticas numa democracia fatigada.
A retórica do ressentimento: entre a Alemanha dos anos 1930 e o Portugal de 2025
Em tempos distintos e sob condições históricas diversas, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) e o partido português Chega partilham traços estruturais na forma como se apresentam ao eleitorado. Ambos emergem como supostos “redentores” nacionais em momentos de descontentamento social, oferecendo respostas simples para crises complexas.
Na Alemanha dos anos 1920 e 1930, o nazismo aproveitou-se do colapso económico pós-crise de 1929 e da humilhação do Tratado de Versalhes. Em Portugal, o Chega ascendeu em pleno ciclo de descrença nas elites políticas e mediática tradicionais, canalizando indignação perante a corrupção e as desigualdades económicas. Em ambos os casos, o ponto de partida é a promessa de um “renascimento nacional”.
O Chega constrói uma narrativa de nação ameaçada, na qual os inimigos são internos: imigrantes, ciganos, feministas, professores “ideologizados”, jornalistas e “o sistema”. Esta técnica de simplificação moral do discurso ecoa a propaganda nazi, que identificava judeus, comunistas e homossexuais como traidores da pátria, canalizando o ódio de massas desorientadas para alvos definidos.
Tal como o NSDAP, o Chega não propõe um programa económico sólido ou coerente, mas antes uma identidade emocional – uma pertença radical. O nacionalismo que promove é tanto cultural como étnico, e o revisionismo histórico é prática corrente: minimiza o colonialismo português, nega o racismo estrutural e elogia o regime salazarista como exemplo de “ordem”.
Do protesto à institucionalização: cronologia de uma ascensão
1920–1933 | 2019–2025
O nazismo iniciou-se como um partido minoritário com discurso radical e simbologia agressiva. Em poucos anos, passou da marginalidade para o centro da política alemã, culminando na nomeação de Hitler como chanceler em 1933. O partido utilizou os mecanismos legais da República de Weimar para se legalizar e, depois, para a destruir por dentro.
O Chega seguiu uma trajectória acelerada, mas semelhante. Fundado em 2019, entrou no Parlamento em 2020 com um deputado. Em 2022, tornou-se a terceira força política com 12 deputados. Em 2024, após um crescimento sustentado nas redes sociais e na comunicação popular, alcançou 50 mandatos. A 2025 trouxe-lhe uma nova centralidade: coligações regionais, influência no discurso público, capacidade de veto na Assembleia.
Ambos os movimentos beneficiaram de uma estratégia de “normalização mediática”. O NSDAP foi progressivamente aceite por setores conservadores e industriais, que acreditavam poder controlá-lo. O Chega foi amplamente convidado para programas televisivos e colunas de opinião, muitas vezes sem contraditório firme, em nome de uma “pluralidade” mal compreendida. Os debates em horário nobre permitiram a André Ventura institucionalizar-se como “oposição responsável”, mesmo quando propunha medidas inconstitucionais ou xenófobas.
Armas modernas da velha propaganda: desinformação e manipulação mediática
O Terceiro Reich consolidou o seu poder através de censura total e propaganda omnipresente. Joseph Goebbels comandava uma máquina mediática centrada em rádio, imprensa e cinema, onde os opositores eram caricaturados e a realidade, distorcida a favor da narrativa oficial.
O Chega adapta essa estratégia ao século XXI. Em vez de controlar os meios, coloniza-os digitalmente. As redes sociais funcionam como laboratórios de ressentimento: vídeos virais, memes provocadores, teorias da conspiração partilhadas por “influencers” pró-Chega, frequentemente com financiamento obscuro e apoio de algoritmos opacos.
O ataque à imprensa tradicional é constante. Jornalistas são apelidados de “vermelhos”, “vendidos” ou “inimigos do povo”. Esta retórica visa desacreditar qualquer verificação factual e legitimar apenas a “verdade” veiculada pelos próprios canais do partido.
A desinformação circula em torno de supostos privilégios de minorias, fraudes eleitorais, crimes imputados sem provas a imigrantes ou ciganos, e até sobre vacinação e pandemia. Muitos destes conteúdos são desmentidos, mas o seu impacto emocional já está feito – exactamente como Goebbels previa: uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.
Conclusão: vigilância democrática ou abismo populista?
Portugal, ao contrário da Alemanha de 1933, é uma democracia consolidada, com instituições robustas e sociedade civil activa. Mas a história ensina que nenhuma democracia é invulnerável ao assédio persistente dos extremismos.
O Chega não é ainda uma força totalitária. Mas os paralelismos com o NSDAP devem alertar para os riscos de complacência. A utilização de medos identitários, a construção de bodes expiatórios, o desprezo pelo pluralismo e a manipulação digital configuram uma ameaça real ao tecido democrático.
Combater esta deriva exige mais do que indignação moral. Exige literacia mediática, exigência jornalística, responsabilidade institucional e uma reafirmação da democracia como projecto colectivo – não apenas como ritual eleitoral. Como ensinou Victor Klemperer, filólogo alemão que sobreviveu ao nazismo: “A linguagem pode ser mais perigosa do que os tanques”. A vigilância começa nas palavras.