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Resumo

  • Muito se fala da coesão territorial, mas os números mostram que Portugal continua a ser um país profundamente desigual — não apenas entre ricos e pobres, mas entre regiões inteiras.
  • A juventude foge para os centros urbanos e o que fica é uma população mais velha, mais vulnerável e mais isolada.
  • Ter um centro de saúde a 20 quilómetros, um tribunal a 40 ou uma loja do cidadão a 50 é a realidade de milhares.

Por Redacção

Muito se fala da coesão territorial, mas os números mostram que Portugal continua a ser um país profundamente desigual — não apenas entre ricos e pobres, mas entre regiões inteiras. No mapa da pobreza e da exclusão social, há zonas que praticamente desapareceram do radar político. São territórios de baixa densidade, envelhecidos, com serviços públicos mínimos e oportunidades escassas. O relatório Portugal, Balanço Social 2024 traça uma linha clara: no interior profundo, o risco de pobreza é mais alto e o apoio público, mais baixo.

Viseu Dão Lafões, Alto Tâmega, Beiras e Serra da Estrela, Douro, Alto Alentejo. Nomes que raramente fazem manchetes, mas onde a vida é dura. Em várias destas sub-regiões, mais de um terço da população vive em risco de pobreza ou exclusão social. São zonas onde o Estado chega tarde, pouco — ou, por vezes, não chega de todo.

Menos rendimentos, menos serviços, mais distância

As causas são conhecidas: falta de emprego qualificado, abandono agrícola, envelhecimento acentuado, fraca mobilidade e desinvestimento público. A juventude foge para os centros urbanos e o que fica é uma população mais velha, mais vulnerável e mais isolada. As pensões mínimas tornam-se o único sustento de aldeias inteiras. E os apoios sociais, ainda que vitais, nem sempre são suficientes para travar o empobrecimento.

“Não temos autocarros, não temos médicos, e a escola fecha daqui a dois anos. Vivemos a contar os tostões — e os dias.” — conta Júlio, 72 anos, residente em Vila Flor, Trás-os-Montes.

Acesso? Só no papel

A promessa de igualdade de acesso aos serviços públicos é muitas vezes letra morta nestas regiões. Ter um centro de saúde a 20 quilómetros, um tribunal a 40 ou uma loja do cidadão a 50 é a realidade de milhares. A digitalização dos serviços públicos, longe de ser solução, torna-se um novo obstáculo para quem não tem internet, computador ou literacia digital.

As crianças enfrentam longos percursos para chegar à escola. As mulheres, sobrecarregadas com tarefas de cuidado, vivem numa espiral de isolamento e ausência de rendimentos próprios. A vulnerabilidade alastra em silêncio.

O que falta? Estado, investimento e presença

O relatório é claro: estas regiões não precisam apenas de “ajuda”. Precisam de uma presença efectiva do Estado. De políticas públicas territorializadas, pensadas com e para as populações locais. De transportes regulares, serviços móveis, investimento na saúde comunitária e educação de proximidade.

E, acima de tudo, precisam de oportunidades. O combate à pobreza não se faz só com apoios sociais — faz-se com emprego digno, acesso à cultura, habitação habitável, condições para viver com qualidade longe dos grandes centros.

O país que se esquece de si próprio

A ideia de “Portugal profundo” não devia ser sinónimo de abandono. Mas, hoje, continua a ser. A coesão territorial prometida em sucessivos programas de governo tem falhado — porque falta ambição, continuidade e visão integrada. Os fundos europeus, por sua vez, nem sempre chegam a quem mais precisa. E os jovens que querem ficar… partem.

Descentralização sem meios? Não chega

A descentralização é uma palavra bonita, mas sem recursos técnicos e humanos suficientes, arrisca ser apenas transferência de responsabilidades para autarquias já sobrecarregadas. Para que funcione, é preciso garantir que os territórios mais frágeis recebem mais — e não menos — do que os outros.

Portugal não pode viver de costas voltadas para si mesmo

Enquanto houver zonas do país onde nascer é, à partida, estar condenado à privação, a igualdade será uma miragem. O desenvolvimento tem de ser equilibrado, planeado e sustentado. Não para “salvar o interior”, mas para cumprir um princípio básico: o de que todos os cidadãos, onde quer que vivam, têm direito a uma vida com dignidade.Porque quando o Estado falha num território, falha com todos.
E um país que abandona parte de si… nunca será inteiro.

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