Resumo
- Em 2018, o governo húngaro orquestrou a criação da Central Europeia de Imprensa e Meios (KESMA), reunindo mais de 400 órgãos de comunicação social sob um único chapéu — e uma única narrativa.
- Segundo o Digital News Report 2024, Portugal é dos países da Europa onde os jornalistas têm mais receio de pressões políticas e empresariais — e onde o público mais desconfia da imparcialidade da informação.
- Fundos públicos com critérios rigorosos e independentes, que premiem o jornalismo de investigação, a diversidade regional e o serviço público — sem ingerência política.
A liberdade de imprensa não desaparece de um dia para o outro. Enfraquece devagar, sufocada por controlo político, asfixia económica ou indiferença social. Na Hungria de Viktor Orbán, o modelo KESMA — um megaconglomerado pró-governamental que engoliu centenas de órgãos de comunicação social — tornou-se sinónimo de manipulação institucional da informação. Em Portugal, o perigo é de outro tipo: não se chama censura, mas precariedade. O efeito, porém, pode convergir — uma imprensa vulnerável é uma democracia em risco.
KESMA: o laboratório húngaro do controlo total
Em 2018, o governo húngaro orquestrou a criação da Central Europeia de Imprensa e Meios (KESMA), reunindo mais de 400 órgãos de comunicação social sob um único chapéu — e uma única narrativa. Embora a sua constituição tenha sido apresentada como “voluntária”, tratou-se de uma operação coordenada, financiada com verbas públicas e blindada contra escrutínio judicial.
O resultado é um ecossistema mediático em que críticas ao governo são silenciadas, jornalistas independentes são ostracizados e a verdade se dobra ao poder. A imprensa deixou de cumprir o seu papel de contrapoder. Tornou-se correia de transmissão do regime.
Portugal: uma liberdade formal com alicerces frágeis
A realidade portuguesa está longe desse grau de captura. Mas há sinais de alarme: redações a encolher, salários em queda, estagiários a fazer de jornalistas, direcções sujeitas a interesses económicos opacos. Segundo o Digital News Report 2024, Portugal é dos países da Europa onde os jornalistas têm mais receio de pressões políticas e empresariais — e onde o público mais desconfia da imparcialidade da informação.
A ERC, entidade reguladora, continua sem os meios nem a independência para actuar com eficácia em casos de concentração mediática ou conflitos de interesse. A Comunicação Social Pública, essencial num mercado dominado por três grandes grupos, é constantemente alvo de disputas partidárias.
Precariedade: o cavalo de Troia da autocensura
Um jornalista mal pago, sem contrato estável, sem formação contínua e sob ameaça de despedimento, não é livre — mesmo sem censura formal. A precariedade transforma-se em autocensura. Escolhe-se o que não incomoda, o que viraliza, o que agrada aos accionistas. O jornalismo torna-se espectáculo, ou então mero eco de agências, sem tempo nem músculo para investigar.
Os próprios temas centrais da democracia — corrupção, justiça, desigualdade, direitos humanos — são cada vez menos cobertos, por exigirem tempo, orçamento e resiliência. Quando o jornalismo investigativo se torna excepção, quem perde é o público. E quem ganha é o poder — qualquer que ele seja.
Modelos de sustentabilidade: há saída?
Sim. Mas exige coragem e visão. Há soluções que combinam inovação, independência e sustentabilidade:
- Cooperativas de jornalistas e media comunitários, como o Mediapart em França ou The Bristol Cable no Reino Unido, que combinam financiamento directo do público com transparência editorial.
- Fundos públicos com critérios rigorosos e independentes, que premiem o jornalismo de investigação, a diversidade regional e o serviço público — sem ingerência política.
- Subscrições, mecenato e crowdfunding como vias de autonomia editorial, desde que acompanhadas de prestação de contas clara aos leitores.
- Alianças entre media independentes, partilhando recursos, conteúdos e resistências — uma espécie de rede de resiliência jornalística.
Informação livre: antídoto à tirania e bússola pública
A liberdade de imprensa não é um ornamento democrático. É um travão ao abuso, um espelho da realidade, uma voz para os que não têm palco. Quando se fragiliza, não é só o jornalismo que empobrece. É o espaço público que se encolhe, a cidadania que se desinforma, o poder que se torna impune.
Entre a repressão explícita da Hungria e a erosão silenciosa em Portugal, há uma lição comum: a liberdade informativa só resiste se for sustentada — económica, ética e institucionalmente.
Sem jornalismo livre, não há democracia viva. E isso, mais do que um alerta, é uma urgência.