Portugal foi uma das últimas potências coloniais a abandonar o seu império. E foi também um dos poucos países democráticos a não instaurar uma justiça de transição capaz de lidar com os crimes cometidos pelo regime anterior – em particular, nas suas colónias. A reabertura dos arquivos da PIDE em Moçambique expõe uma realidade chocante: a repressão foi documentada, denunciada, até formalmente investigada… mas nunca julgada.
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A Comissão Oculta: A Verdadeira Comissão de Verdade Portuguesa de 1974
Poucos portugueses sabem que o país teve, formalmente, algo parecido com uma comissão de verdade sobre os crimes da ditadura. E ainda menos conhecem a sua existência no contexto colonial. Foi uma comissão militar, criada no rescaldo do 25 de Abril de 1974, para investigar os abusos da PIDE/DGS em Moçambique. Tinha poderes extraordinários, acedia a documentos secretos e ouvia testemunhos de vítimas. No entanto, o seu trabalho caiu rapidamente no esquecimento. Nunca publicou conclusões públicas. Nunca produziu julgamentos duradouros. Foi, de certa forma, a comissão que Portugal preferiu esquecer.
As Doze Caixas que o Estado Esqueceu: A Verdade Silenciada da PIDE em Moçambique
Durante quase meio século, uma parte crucial da história colonial portuguesa permaneceu trancada, esquecida num canto da Torre do Tombo. Doze caixas, rotuladas com a sigla temida da polícia política – PIDE/DGS – e contendo documentação original sobre a repressão em Moçambique, emergiram do silêncio graças ao trabalho persistente de um arquivista. Revelam crimes, omissões e, sobretudo, a profunda resistência institucional portuguesa à verdade sobre o seu passado colonial.