Resumo
- As mortes e condições impostas a trabalhadores migrantes, a criminalização da homossexualidade e as limitações à liberdade de expressão no Qatar justificavam escrutínio intenso.
- se o critério é o impacto sobre pessoas concretas, por que razão o exame se torna mais brando quando o anfitrião é um aliado ocidental.
- A FIFA deve aplicar a sua política de direitos humanos com o mesmo rigor em todos os anfitriões.
Em 2022, o Ocidente escrutinou o Qatar durante meses. Em 2026, deportações em massa e vistos negados no principal país anfitrião ocupam muito menos espaço. A assimetria também é uma notícia.
O Mundial do Qatar foi precedido por anos de cobertura crítica sobre trabalhadores migrantes, direitos LGBTQI+, liberdade de imprensa e possíveis boicotes. A crítica era necessária e continua válida.
O Mundial dos Estados Unidos, México e Canadá começou depois de 442.637 deportações no ano fiscal anterior, novas proibições de viagem e casos de participantes e jornalistas impedidos de entrar. O relatório da Amnistia sobre os riscos do torneio não produziu um debate público comparável ao de 2022.
A comparação não absolve o Qatar
Comparar reações não significa relativizar abusos. As mortes e condições impostas a trabalhadores migrantes, a criminalização da homossexualidade e as limitações à liberdade de expressão no Qatar justificavam escrutínio intenso.
A questão é outra: se o critério é o impacto sobre pessoas concretas, por que razão o exame se torna mais brando quando o anfitrião é um aliado ocidental?
Familiaridade, poder e interesses
Os Estados Unidos ocupam um lugar central no imaginário mediático europeu. A sua política, cultura e economia são tratadas como familiares. O Qatar foi frequentemente apresentado como um caso distante e excecional.
Há também uma diferença de poder. Direitos televisivos, publicidade, relações diplomáticas e dependência económica tornam o confronto com Washington mais caro para federações, empresas e governos.
A terceira explicação é a habituação. Anos de alertas sobre erosão democrática, imigração e violência política nos Estados Unidos reduziram a capacidade de cada novo episódio gerar surpresa.
Os limites da comparação
Os Estados Unidos mantêm imprensa independente, tribunais capazes de travar decisões do executivo e eleições competitivas. Compará-los sem nuance com uma monarquia absoluta seria um erro.
Mas o critério de direitos humanos não depende apenas do tipo de regime. Depende dos atos, das pessoas afetadas e da responsabilidade das instituições que organizam o torneio.
O teste para a FIFA e para os media
A FIFA deve aplicar a sua política de direitos humanos com o mesmo rigor em todos os anfitriões. Os media devem fazer o mesmo com os seus critérios de notícia.
Se vistos negados, deportações em escala histórica e restrições à imprensa seriam centrais noutro país, também devem ser centrais nos Estados Unidos. A indignação seletiva não protege direitos; protege relações de poder.
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