Resumo
- No arranque do Mundial 2026, a distância entre o documento e a prática mede-se em vistos negados e em incentivos comerciais.
- Em 2017, o organismo aprovou a sua primeira Política de Direitos Humanos, comprometendo-se a respeitar os princípios orientadores das Nações Unidas e a usar a sua influência junto dos anfitriões.
- O presidente da FIFA participou na tomada de posse em Washington, em janeiro de 2025, e a organização abriu nesse ano um escritório na Trump Tower, em Nova Iorque.
A FIFA tem, desde 2017, uma política de direitos humanos por escrito. No arranque do Mundial 2026, a distância entre o documento e a prática mede-se em vistos negados e em incentivos comerciais.
Gianni Infantino respondeu às críticas sobre vistos recusados a árbitros, jornalistas e adeptos com uma palavra: “relaxem”. A escolha, na véspera do jogo inaugural, resume a estratégia pública da FIFA perante as decisões da administração norte-americana.
Em 2017, o organismo aprovou a sua primeira Política de Direitos Humanos, comprometendo-se a respeitar os princípios orientadores das Nações Unidas e a usar a sua influência junto dos anfitriões. Nove anos depois, assiste à exclusão do árbitro Omar Artan e responde que não controla países nem forças policiais.
O negócio antes do princípio
O Mundial 2026 é o maior da história: 48 seleções e 104 jogos, a maioria em território norte-americano. Confrontar diretamente a Casa Branca teria custos operacionais e políticos para a FIFA, sem um benefício comercial evidente.
A proximidade entre Infantino e Donald Trump também é pública. O presidente da FIFA participou na tomada de posse em Washington, em janeiro de 2025, e a organização abriu nesse ano um escritório na Trump Tower, em Nova Iorque. O Mundial de Clubes de 2025 serviu como ensaio operacional da parceria.
O precedente do Qatar
Em 2022, a FIFA declarou-se vigilante perante as condições dos trabalhadores migrantes e a discriminação de pessoas LGBTQI+ no Qatar. Quando as braçadeiras OneLove chegaram aos balneários, porém, ameaçou os capitães com sanções desportivas.
O padrão é conhecido: aprovar compromissos, reduzir o confronto durante o torneio e proteger a realização da competição. A mudança de continente não alterou o conflito entre a política de direitos humanos e os incentivos financeiros.
A FIFA não controla fronteiras, mas tem influência
A FIFA tem razão num ponto: não emite vistos, não comanda o ICE e não substitui os tribunais norte-americanos. Mas escolheu os anfitriões, negociou garantias de acesso e pode exigir transparência sobre o seu cumprimento.
O organismo dispõe ainda de influência contratual, reputacional e organizativa. Pode publicar as garantias recebidas, pressionar os governos, prestar assistência efetiva aos participantes e condicionar futuras escolhas de anfitriões.
Quando os seus interesses comerciais estão em risco, a FIFA demonstra capacidade para agir rapidamente. Perante a exclusão de participantes e jornalistas, a resposta pública foi de distanciamento. O silêncio não prova uma ordem política; mostra uma escolha de prioridades.
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