Palantir, explicada: a empresa que a Europa teme - Sociedade Civil
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Resumo

  • Tem produtos principais como o Gotham, associado a defesa e segurança, e o Foundry, usado por empresas e administrações para integrar bases de dados, construir painéis e apoiar operações.
  • Quando uma empresa se torna infraestrutura pública, quem a controla, que visão tem e a que jurisdição responde passam a ser questões públicas.
  • o aprisionamento a um fornecedor de quem se torna difícil e caro sair, sobretudo quando estão em causa dados de saúde ou defesa.

Aparece nas notícias ligada a guerras, imigração e contratos públicos milionários. Mas o que faz, afinal, a Palantir — e porque é que governos europeus começaram a recuar?

Há nomes que entram no noticiário sem que a maioria saiba o que significam. A Palantir é um deles. Surge agora em todo o lado — no parlamento britânico, nas pensões europeias, nos campos de batalha — e quase sempre rodeada de controvérsia. Este é um guia simples para perceber porquê.

O que é a Palantir?

É uma empresa norte-americana de software fundada em 2003. Está cotada em bolsa, na Nasdaq, sob a sigla PLTR. A empresa apresenta-se como criadora de produtos para análise humana de dados reais: sistemas que ajudam instituições a cruzar informação dispersa, encontrar padrões e apoiar decisões.

O nome vem das pedras videntes de O Senhor dos Anéis, objetos que permitiam ver à distância. A escolha não foi inocente. A empresa nasceu a trabalhar com análise de dados para defesa, segurança e inteligência.

O que faz o software?

Em termos simples, a Palantir pega em grandes volumes de dados dispersos e cruza-os para encontrar relações, padrões e hipóteses de ação. Tem produtos principais como o Gotham, associado a defesa e segurança, e o Foundry, usado por empresas e administrações para integrar bases de dados, construir painéis e apoiar operações.

É esta capacidade que torna a empresa valiosa. Também é esta capacidade que a torna politicamente sensível. Uma ferramenta que liga dados de saúde, fronteiras, impostos, policiamento ou defesa não é apenas uma folha de cálculo melhorada. É uma camada de visão sobre o Estado.

Quem está por trás da empresa?

Entre os fundadores estão Peter Thiel e Alex Karp. Thiel é uma das figuras mais influentes e politizadas de Silicon Valley. Karp, presidente executivo, tem apresentado a Palantir como empresa alinhada com a defesa do Ocidente e das democracias liberais. Para os críticos, esse discurso aproxima demasiado software, Estado, guerra e ideologia.

O perfil político dos fundadores não prova, por si só, que uma tecnologia seja ilegítima. Mas ajuda a explicar porque a discussão deixou de ser apenas técnica. Quando uma empresa se torna infraestrutura pública, quem a controla, que visão tem e a que jurisdição responde passam a ser questões públicas.

Porque é que a empresa é polémica?

Por causa dos clientes e dos usos. A Palantir fornece software a governos, agências de defesa, serviços de imigração, empresas e sistemas públicos. A Amnistia Internacional criticou a empresa em 2020 por falhas de diligência de direitos humanos nos contratos ligados ao ICE. Em 2024, a empresa anunciou uma parceria estratégica com Israel em contexto de guerra.

Há uma dúvida legítima a fazer aqui: uma empresa não é responsável por tudo o que os clientes fazem com os seus produtos. Verdade. Mas há uma diferença entre vender uma ferramenta genérica e vender sistemas que ajudam a integrar informação operacional em áreas como fronteiras, guerra, saúde ou segurança.

Quem usa a Palantir?

Governos, agências de inteligência, forças armadas e empresas privadas. No Reino Unido, a empresa ganhou em 2023 um contrato de 330 milhões de libras para a Federated Data Platform do NHS. A presença da Palantir no setor público britânico foi agora criticada por uma comissão parlamentar, que pediu ao governo que use a cláusula de rescisão de 2027.

Na Europa continental, a discussão cruza defesa, soberania digital e dependência de fornecedores norte-americanos. A Euronews relatou reavaliações em vários governos, incluindo Países Baixos e Alemanha.

E porque é que a Europa hesita agora?

Porque percebeu o risco de ficar dependente. O termo que se repete é vendor lock-in: o aprisionamento a um fornecedor de quem se torna difícil e caro sair, sobretudo quando estão em causa dados de saúde ou defesa.

E Portugal? Não há, por enquanto, debate público conhecido com a mesma densidade. Não há prova pública de contrato direto entre o Estado português e a Palantir. Mas também não há inventário claro das plataformas de fusão de dados usadas pelo Estado, dos subcontratados envolvidos e dos limites de auditoria.

Numa frase: a Palantir vende a promessa de pôr ordem no caos dos dados. O que a Europa começou a perguntar é quem fica com a chave dessa ordem — e o que acontece no dia em que se quiser mudar a fechadura.

Fontes

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