Resumo
- Quando o alvo passa a ser quem verifica, o debate deixa de ser sobre factos e passa a ser sobre lealdades.
- Não prova intenção por si, mas descreve o tipo de ecossistema em que a atenção fica capturada por um centro gravitacional — e a pluralidade vira ilusão.
- quando a informação deixa de ser ferramenta e passa a ser ameaça, o cidadão afasta-se — e a democracia perde oxigénio.
A desinformação nas presidenciais de 2026 não se mede apenas em cliques. Mede-se no olhar que desvia, na conversa que azeda, na frase que aparece antes de qualquer prova: “Isso é tudo combinado.” O relatório do LabCom/UBI (ODEPOL) contabiliza 8.392.713 visualizações associadas a conteúdos desinformativos, com 347.228 reações, 64.151 comentários e 27.178 partilhas. É volume suficiente para criar uma realidade paralela de baixa intensidade: não precisa de convencer toda a gente; basta tornar a dúvida permanente.
A democracia não colapsa num dia. Desgasta-se. E o desgaste deixa marcas que já podem ser medidas — se aceitarmos medir o que não cabe num gráfico bonito. Indicadores que mostram a erosão sem precisar de “teorias”: 41,2% dos casos analisados foram ataques a jornalistas e media. Isto é um indicador de erosão deliberada porque mexe no mecanismo que mantém a esfera pública de pé: a possibilidade de confirmar. Quando o alvo passa a ser quem verifica, o debate deixa de ser sobre factos e passa a ser sobre lealdades.
Outro indicador aparece no formato: 70,6% do conteúdo desinformativo circulou em vídeo. O vídeo comprime a realidade e acelera emoções; a verificação exige tempo. O resultado é mensurável, ainda que indiretamente: cresce a perceção de caos informativo e diminui a disponibilidade para nuance. E há ainda um terceiro sinal: a concentração. O relatório aponta 82,4% dos casos registados num só candidato. Não prova intenção por si, mas descreve o tipo de ecossistema em que a atenção fica capturada por um centro gravitacional — e a pluralidade vira ilusão.
Micro-história: a desistência como dado político
Numa paragem de autocarro em Arroios, ouvi uma mulher dizer: “Eu já nem vejo notícias, só me enervo.” Não foi dito com orgulho, foi dito com fadiga. Esse recuo é um indicador de erosão: quando a informação deixa de ser ferramenta e passa a ser ameaça, o cidadão afasta-se — e a democracia perde oxigénio.
“Mas a desconfiança não pode ser saudável?” Poderiam argumentar que desconfiar de instituições é legítimo, e é. A concessão honesta é esta: a confiança não se impõe; constrói-se, e o Estado nem sempre comunica com clareza, nem sempre corrige depressa, nem sempre presta contas da forma mais compreensível. O que muda tudo é a direção do ataque: desconfiar de um ato concreto é fiscalização; desacreditar o próprio conceito de verificação é outra coisa. E é isso que os ataques sistemáticos à imprensa fazem: removem o chão comum onde a discordância se resolve sem gritaria.
A frase de impacto fica curta: sem um idioma comum de factos, a democracia vira um concurso de versões.