Gaza e Cisjordânia: o último mês de operações militares israelitas em números - Sociedade Civil
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Resumo

  • Para negar aos palestinianos o acesso a serviços essenciais, a terras agrícolas e a pastagens, com o objetivo último de cortar a ligação das pessoas à terra.
  • À morte seguiram-se detenções arbitrárias de residentes, tortura, destruição de infraestruturas, de terras de cultivo, de fontes de água e de zonas de pastoreio, e ataques sistemáticos a crianças.
  • Os relatores calculam que o deslocamento continuado poderá expor cerca de 663 quilómetros quadrados de terra a mais expansão de colonatos — uma área superior à do concelho de Lisboa e dos concelhos vizinhos somados.

Jiljiliya, Masafer Yatta, Umm al-Kheir: o mapa do deslocamento forçado na Cisjordânia

A 16 de maio de 2026, 22 famílias beduínas — 137 pessoas, 81 delas crianças — abandonaram a zona de Jiljiliya, na Cisjordânia, depois de um ataque de colonos em larga escala. Não foi a primeira vez. Algumas destas famílias já tinham sido deslocadas de outras três comunidades em 2023, também por violência de colonos. Mudam de lugar, e o lugar volta a expulsá-las.

A cena repete-se com a regularidade de um procedimento. Os relatores das Nações Unidas que a documentaram não usam a palavra "acidente". Usam a palavra "método".

O mecanismo

A sequência é quase sempre a mesma, segundo o comunicado de 13 relatores especiais da ONU divulgado a 1 de junho. Primeiro instala-se um posto avançado de colonos perto de uma comunidade palestiniana. Depois vêm os cortes de água e de eletricidade, as ordens de demolição, os ataques. As crianças tornam-se alvo. As fontes de água e as zonas de pastoreio são destruídas. No fim, a comunidade parte — e a terra fica livre para a expansão dos colonatos.

A violência, escrevem os peritos, é "uma ferramenta calculada e dirigida" para negar aos palestinianos o acesso a serviços essenciais, a terras agrícolas e a pastagens, com o objetivo último de cortar a ligação das pessoas à terra. A Área C, sob controlo militar e civil israelita pleno, é onde o método funciona melhor. É lá que ficam o Vale do Jordão e as colinas a sul de Hebron.

Umm al-Kheir, cercada

Há lugares onde o cerco é literal. A aldeia de Umm al-Kheir, nas colinas a sul de Hebron, está hoje rodeada pelo colonato de Carmel e por um novo posto avançado cuja construção arrancou em julho de 2025. Desde então, a comunidade enfrentou cortes repetidos de água e eletricidade, demolições e ataques de colonos.

Em julho, durante protestos contra essa construção, um defensor de direitos humanos da aldeia foi morto a tiro — alegadamente por um colono armado, segundo a ONU. À morte seguiram-se detenções arbitrárias de residentes, tortura, destruição de infraestruturas, de terras de cultivo, de fontes de água e de zonas de pastoreio, e ataques sistemáticos a crianças. Ordens de demolição ameaçam agora apagar a aldeia do mapa.

Umm al-Kheir não está sozinha. Khan al-Ahmar, Abu Falah, Al Hathroura, Bariyyat Z’tara e Khallet a-Thabe’ enfrentam, segundo os mesmos relatores, riscos de transferência forçada, demolição e deslocamento ligados à expansão dos colonatos.

A escala do que se perde

Os números da OCHA dão o tamanho do fenómeno. Em 2026, até 5 de maio, foram demolidas 636 estruturas na Cisjordânia e deslocados 916 palestinianos. Os relatores calculam que o deslocamento continuado poderá expor cerca de 663 quilómetros quadrados de terra a mais expansão de colonatos — uma área superior à do concelho de Lisboa e dos concelhos vizinhos somados.

Poder-se-ia objetar que parte destes confrontos envolve resistência palestiniana, e que Israel enquadra a sua atuação na Área C como questão de segurança e de ordenamento do território. É verdade que essa é a posição oficial israelita, e ela faz parte do quadro. Mas a posição de segurança não explica a destruição de fontes de água nem as ordens de demolição que ameaçam aldeias inteiras de erasão.

Uma família beduína que muda de sítio três vezes em três anos não está a fugir de uma guerra entre exércitos. Está a recuar diante de um avanço lento, casa a casa, poço a poço. Daquela presença na terra, os relatores da ONU temem que reste apenas o mapa antigo — o que mostrava onde, um dia, viveu alguém.

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