Resumo
- Portugal foi eleito a 3 de junho membro não-permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas para 2027-2028, com 134 votos na primeira volta, e atirou a Alemanha para uma derrota inédita.
- Foram anos de campanha, conduzida por governos de cores diferentes, com uma máquina diplomática que raramente falha e uma rede de relações que liga Lisboa a África e ao Brasil.
- O difícil começa a 1 de janeiro de 2027, quando Portugal ocupar a cadeira e tiver de votar sobre a Ucrânia, sobre Gaza, sobre guerras onde uma assinatura portuguesa passa a contar.
A diplomacia portuguesa arrancou um dos lugares mais disputados das Nações Unidas. A maior surpresa da votação de 3 de junho, porém, fala alemão.
Portugal foi eleito a 3 de junho membro não-permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas para 2027-2028, com 134 votos na primeira volta, e atirou a Alemanha para uma derrota inédita.
A votação decorreu na Assembleia-Geral, em Nova Iorque, por voto secreto dos Estados-membros. Em disputa estavam dois lugares reservados ao grupo da Europa Ocidental e Outros Estados. Concorriam três países: Portugal, Áustria e Alemanha. Passavam dois. Ficou um de fora.
Portugal somou 134 votos. A Áustria garantiu 131. A Alemanha parou nos 104, abaixo dos 127 necessários, os dois terços que a eleição exige quando votam os 193 Estados-membros. É a quarta vez que Portugal se senta no órgão, depois de 1979-1980, 1997-1998 e 2011-2012.
A queda que Berlim não viu chegar
Inédita, a derrota alemã é a notícia dentro da notícia. A Alemanha cumprira seis mandatos no Conselho e nunca tinha sido reprovada. Desta vez, foi. O ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, reconheceu publicamente a dimensão do revés e a desvantagem da candidatura alemã.
Quem anunciou o resultado foi Annalena Baerbock, presidente da Assembleia-Geral e antiga chefe da diplomacia de Berlim. Coube à antiga ministra alemã ler os números que deixavam o seu país de fora.
Nos outros grupos, as contas estavam quase fechadas à partida. O Zimbabué, sem rival, ficou com a vaga africana com mais de 180 votos. Trinidad e Tobago, também sem oposição real, garantiu a da América Latina e Caraíbas. Só a Ásia-Pacífico deu luta: o Quirguistão precisou de quatro voltas para bater as Filipinas e estreia-se no Conselho.
Portugal ganhou ou a Alemanha perdeu?
Aqui está a pergunta que separa a leitura honesta do aplauso fácil. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, e o voto secreto impede que se saiba a proporção exata de cada uma.
Houve mérito. Foram anos de campanha, conduzida por governos de cores diferentes, com uma máquina diplomática que raramente falha e uma rede de relações que liga Lisboa a África e ao Brasil. Houve também rejeição. Vários Estados pequenos preferem vozes que não confundem com as grandes potências, e a Alemanha carrega o peso de ser, justamente, uma delas.
Distinguir uma tese da outra não é detalhe académico. É a diferença entre dizer que o mundo aprecia Portugal e dizer que o mundo está cansado dos pesos-pesados.
E o leitor que vive em Portugal faz a pergunta seguinte: muda alguma coisa na minha vida? No imediato, pouco. O efeito é diplomático e simbólico antes de ser concreto. Só se traduz em algo palpável se Lisboa usar a cadeira para influenciar dossiês que, esses sim, chegam à economia e à segurança europeias.
Uma campanha longa
A candidatura portuguesa atravessou vários executivos até à votação desta semana. Quando o resultado surgiu na sala, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, celebrou com a missão portuguesa junto da ONU, no meio de aplausos.
No Palácio das Necessidades, sede da diplomacia portuguesa em Lisboa, a palavra escolhida foi “histórica”. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, falou numa “ocasião histórica” que dignifica o país. O Presidente da República, António José Seguro, saudou a eleição como reconhecimento do compromisso português com o multilateralismo.
Convém uma nota de rigor, dessas que distinguem informação de propaganda: as primeiras contagens divulgadas em Portugal chegaram a apontar 143 votos. Os números reportados depois da votação fixaram 134. A diferença é pequena. O hábito de inflacionar a vitória, esse, merece reparo.
O lugar está garantido. O difícil começa a 1 de janeiro de 2027, quando Portugal ocupar a cadeira e tiver de votar sobre a Ucrânia, sobre Gaza, sobre guerras onde uma assinatura portuguesa passa a contar. Sem direito de veto, mas com voz. E a voz, numa sala destas, custa caro.