Resumo
- A 20 de dezembro de 1989, Washington lançou a Operation Just Cause com a justificação de proteger cidadãos norte-americanos, defender a democracia e deter Noriega por narcotráfico.
- A OEA condenou a intervenção, e a ONU registou a censura na Assembleia Geral.
- O dossiê sobre a Operação Resolução Absoluta descreve uma ação com cerca de 150 aeronaves, ataques a infraestruturas e uma incursão relâmpago em Fuerte Tiuna, com captura de Maduro e Cilia Flores e transferência para o USS Iwo Jima, antes de chegarem a Nova Iorque.
Em dezembro de 1989, os EUA invadiram o Panamá para derrubar e prender Manuel Noriega, acusado de tráfico de droga. Em janeiro de 2026, uma força conjunta norte-americana entrou em Caracas, atingiu alvos como Fuerte Tiuna e capturou Nicolás Maduro para o levar a tribunal em Nova Iorque. No papel, as histórias rimam. Na lei — e na ferida humana —, Panamá 1989 vs Venezuela 2026 revela um precedente que volta a respirar. (Encyclopedia Britannica)
O que está em causa? A mesma pergunta de sempre, agora com outro cenário: pode um Estado usar força militar para “executar” um objetivo penal e remover um líder estrangeiro, sem mandato da ONU? A Assembleia Geral condenou a invasão do Panamá (resolução 44/240) e votou uma moção por 75–20, com 40 abstenções. (Documentos da ONU) No caso venezuelano, a reunião de emergência no Conselho de Segurança trouxe a mesma acusação: violação de soberania e precedente perigoso. (The Guardian)
Panamá 1989: guerra curta, memória longa
A 20 de dezembro de 1989, Washington lançou a Operation Just Cause com a justificação de proteger cidadãos norte-americanos, defender a democracia e deter Noriega por narcotráfico. (Encyclopedia Britannica) A operação derrubou as Forças de Defesa do Panamá e deixou um rasto controverso de mortos. Os EUA apontaram para 202 civis e 314 militares panamianos; organizações e investigações independentes contestaram números e métodos. (PHR)
Em El Chorrillo, bairro popular junto ao antigo quartel, um guia local ainda mostra paredes queimadas e diz, com um encolher de ombros que não perdoa: “Vieram buscar um homem e incendiaram um bairro.” É uma micro-história, mas é também a política internacional em tamanho real: quando a força entra pela porta, a conta chega às pessoas.
Noriega só se rendeu a 3 de janeiro de 1990, após dias refugiado na nunciatura do Vaticano. E a comunidade internacional não esqueceu. A OEA condenou a intervenção, e a ONU registou a censura na Assembleia Geral. (Encyclopedia Britannica)
Venezuela 2026: a fórmula “indiciamento + força”
O dossiê sobre a Operação Resolução Absoluta descreve uma ação com cerca de 150 aeronaves, ataques a infraestruturas e uma incursão relâmpago em Fuerte Tiuna, com captura de Maduro e Cilia Flores e transferência para o USS Iwo Jima, antes de chegarem a Nova Iorque. As autoridades venezuelanas e cubanas apontaram para pelo menos 80 mortos, incluindo 32 cubanos, e relataram danos civis em Catia La Mar.
A diferença central, em Panamá 1989 vs Venezuela 2026, está no enquadramento jurídico assumido sem pudor: Washington apresenta a operação como “aplicação da lei” contra narcoterrorismo e invoca, ainda, o não reconhecimento de Maduro para tentar contornar imunidades. Difícil é, depois, chamar-lhe apenas “polícia”.
E a objeção do leitor surge depressa: “Mas Noriega e Maduro não eram ditadores ligados à droga? Não foi melhor assim?” A tentação moral existe. Só que o precedente não escolhe alvos “bons” ou “maus”. Ele cria um método. E o método, amanhã, pode cair sobre alguém que nos interessa proteger — ou sobre um opositor que um Estado poderoso decide etiquetar como criminoso. (icj-cij.org)
O que se repete e o que muda
Em ambos os casos, Panamá 1989 vs Venezuela 2026 partilha três constantes: força militar sem mandato do Conselho de Segurança, objetivo de “decapitação” política e um julgamento nos EUA como ato final. (Documentos da ONU)
Mas há uma concessão honesta: o contexto regional mudou. O Panamá tinha o Canal, uma relação histórica de presença norte-americana e um Estado mais pequeno; a Venezuela é maior, tem Forças Armadas mais complexas, aliados externos e uma crise humanitária que amplifica cada apagão. O vazio de poder em Caracas pode não produzir a “normalização” rápida que Washington anunciou em 1989.
No fim, a síntese humana é simples e dura: quando uma captura vira doutrina, a soberania deixa de ser princípio e passa a ser aposta. E apostas, sabe-se, raramente são pagas pelos que as fazem.