Resumo
- A que tem de ser feita é outra — a de quem partilha os valores e vê, com clareza, que a postura os está a trair.
- Tudo isto é real, e foi a esquerda — no parlamento nacional e europeu, com a diretiva do trabalho em plataformas — que liderou a resposta.
- O estafeta que entrega a comida à chuva, o motorista de TVDE que não sabe se amanhã a aplicação o desliga, o trabalhador do call center pago à peça.
Há um número nos programas eleitorais de 2024 que devia tirar o sono a quem se diz de esquerda. Quando se conta quantas vezes cada partido escreveu a palavra "digital", o Bloco de Esquerda fica-se por oito. A Iniciativa Liberal usa-a sessenta e duas vezes. Sessenta e duas contra oito. Pode parecer um jogo estéril de contar palavras. Não é. É um retrato de quem decidiu falar do mundo que aí vem — e de quem decidiu que esse mundo é, antes de tudo, uma ameaça a vigiar.
Escrevo "nós" de propósito. Não faço isto de fora, com o dedo apontado e o sorriso de quem sempre desconfiou da esquerda. Faço de dentro, e faço porque me custa. A crítica que vem da direita é fácil e interesseira: serve para nos enterrar. A que tem de ser feita é outra — a de quem partilha os valores e vê, com clareza, que a postura os está a trair.
Comecemos por dar a mão à palmatória ao contrário: a desconfiança não nasceu do nada. A denúncia da economia de plataforma é justíssima. Há gestão algorítmica que despede pessoas sem que um humano olhe sequer para o processo. Há extração massiva de dados que ninguém consentiu de verdade. Há um punhado de empresas a concentrar mais poder informacional do que muitos Estados. Tudo isto é real, e foi a esquerda — no parlamento nacional e europeu, com a diretiva do trabalho em plataformas — que liderou a resposta. Quem chama "tecnofobia" a isto está a confundir crítica com medo.
O problema é o que veio a seguir. A crítica legítima azedou. De força que aponta o perigo e propõe a alternativa, passámos a força que só aponta o perigo. Tornámo-nos o partido do "não". Não à automação, não à vigilância, não às big tech — e ponto final. Onde está o nosso "sim"? Onde está a proposta de uma inteligência artificial pública, de dados tratados como bem comum, de software pago com dinheiro público obrigado a ter código aberto? Está nos manifestos de quase toda a gente menos nos nossos. Entregámos a palavra "futuro" a quem só a quer usar para desregular, e depois admirámo-nos quando os jovens acharam que o futuro era deles e não nosso.
Porque é disto que se trata, no fim. De quem fica com a juventude. Os números das últimas legislativas são brutais: o Partido Socialista levou perto de metade do voto acima dos 65 anos e pouco mais de um décimo entre os 18 e os 34. A direita radical, essa, capturou um em cada quatro jovens. Não foram embora por causa de uma tabela de Excel. Foram-se porque, do lado de lá, alguém lhes falava de mudança — ainda que fosse uma mudança regressiva e vingativa — enquanto do nosso lado lhes oferecíamos um sermão. O estafeta que entrega a comida à chuva, o motorista de TVDE que não sabe se amanhã a aplicação o desliga, o trabalhador do call center pago à peça: estes são os trabalhadores da engrenagem do nosso tempo. Deviam ser nossos. E sentem-se órfãos de qualquer representação que não os trate como uma causa a gerir, mas como gente com uma vida a defender.
Aqui chega a parte difícil, a que tenho de dizer mesmo contra mim. Há quem responda: e a desinformação? E os deepfakes? E o facto de mais de metade do conteúdo da internet já ser gerado por máquinas? Tudo verdade, e tudo razão para uma regulação musculada — o Regulamento Europeu da IA não caiu do céu. A prudência democrática perante uma tecnologia que fabrica mentiras à escala industrial não é ignorância; é responsabilidade. Mas — e é um "mas" que decide tudo — prudência não é projeto. Travar o mau uso de uma ferramenta nunca dispensou quem é de esquerda de imaginar o bom uso dela. Defender-se é necessário. Não chega. Uma força que só sabe proteger o que existe deixa de ser força de transformação e passa a guarda noturna do status quo. E a história não costuma premiar os guardas noturnos.
A prova de que se pode fazer diferente está à nossa frente, dentro da própria esquerda portuguesa. Há um partido que escreve "ciência", "código aberto", "dados comuns" e "inteligência artificial ética" no programa sem pedir desculpa, e que escolhe os candidatos em primárias abertas a quem nem sequer é filiado. Não interessa aqui o tamanho da bancada. Interessa que existe, e que desmente a fábula da esquerda condenada a ser nostálgica. A tecnofobia não é um destino do nosso campo. É uma escolha. E como é uma escolha, pode desfazer-se.
O que proponho não é otimismo tecnológico de gestor, daquele que acha que o mercado resolve e que a IA é só produtividade. É a outra coisa, a que sempre foi nossa: pôr a técnica ao serviço de quem trabalha. Que os ganhos extraordinários de produtividade que a automação traz se traduzam em menos horas de trabalho sem menos salário, em vez de irem todos para o lucro de meia dúzia de plataformas. Que a Europa tenha infraestrutura digital soberana e não fique refém de monopólios de outros continentes. Que a literacia digital chegue às periferias e às aldeias, e não só a quem já a tem. Isto tem um nome, e o nome é humanismo. Humanismo tecnológico, se quisermos ser precisos: a convicção de que o progresso só vale a pena se for governado democraticamente e repartido com justiça.
A esquerda não está a perder porque os seus valores estão velhos. Está a perder porque se assustou. Recuou para a segurança do Estado, para o conforto da denúncia, para a ilusão de que um post é militância. E enquanto discutíamos a alma, a direita ficou com a máquina. Reconquistar o futuro não exige trair nada do que somos. Exige a coragem de deixar de ter medo dele — e de o disputar como quem acredita que, governado por gente que põe as pessoas à frente do lucro, ele pode ser melhor do que o presente.
Digo isto porque sou de esquerda. É precisamente por isso que o digo.
Fontes consultadas
- RTP: Chega torna-se segunda força parlamentar
- Expresso: bases sociais do novo sistema partidário português, 2022-2025
- Parlamento Europeu: diretiva sobre trabalho nas plataformas digitais
- Parlamento Europeu: Regulamento da Inteligência Artificial
- Thomas Piketty: Brahmin Left vs Merchant Right
- Bernard Manin: democracia de público/democracia de audiência
- Programa eleitoral do Bloco de Esquerda 2024
- Programa eleitoral da Iniciativa Liberal 2024