Operação Irmandade explicada: o que a PJ encontrou, quem foi detido e porque envolve forças de segurança - Sociedade Civil
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Resumo

  • A Unidade Nacional de Contraterrorismo da Polícia Judiciária deteve a 20 de Janeiro de 2026 trinta e sete alegados membros do grupo neonazi 1143, em sessenta e cinco buscas distribuídas por todo o território continental, no que se tornou a maior operação contra extrema-direita organizada na última década.
  • A imputação criminal central, conforme comunicado da Judiciária, é a de fundação de uma organização criminosa "com o exclusivo propósito de desenvolver actividades que incitavam à discriminação, ao ódio e à violência racial, tudo isto no seio de uma estrutura hierárquica e fortemente organizada".
  • As medidas de coacção foram conhecidas nos dias seguintes, com o advogado de Mário Machado, José Manuel Castro, a contestar publicamente os fundamentos da operação e a admitir, em declarações à RTP, que o "timing".

A Polícia Judiciária desmantelou a 20 de Janeiro a estrutura do grupo neonazi 1143. Entre os detidos, um sargento da Força Aérea e um agente da PSP. A operação tem nome e número. Aqui está o que se sabe.

A Unidade Nacional de Contraterrorismo da Polícia Judiciária deteve a 20 de Janeiro de 2026 trinta e sete alegados membros do grupo neonazi 1143, em sessenta e cinco buscas distribuídas por todo o território continental, no que se tornou a maior operação contra extrema-direita organizada na última década.

A operação chamou-se Irmandade. Foi comandada por Patrícia Silveira, directora da Unidade Nacional de Contraterrorismo, e supervisionada pelo director nacional da PJ, Luís Neves. Mobilizou cerca de trezentos elementos de várias unidades. Para além dos trinta e sete detidos, foram constituídos mais quinze arguidos. O Diário de Notícias contabilizou os pontos de actuação: Lisboa, Porto, Algarve, Margem Sul do Tejo, Guimarães e várias localidades intermédias.

A imputação criminal central, conforme comunicado da Judiciária, é a de fundação de uma organização criminosa "com o exclusivo propósito de desenvolver actividades que incitavam à discriminação, ao ódio e à violência racial, tudo isto no seio de uma estrutura hierárquica e fortemente organizada".

Dois detidos com farda

Entre os trinta e sete está um sargento da Força Aérea Portuguesa, cuja detenção foi confirmada pelo próprio ramo, e um agente da PSP em serviço numa esquadra de Setúbal. Patrícia Silveira confirmou em conferência de imprensa: "Em relação às forças e serviços de segurança, confirmamos que existem." A formulação foi sóbria. A implicação não é.

Pessoas com porte de arma autorizado pelo Estado e com formação militar regulamentar integravam, segundo a investigação, uma estrutura considerada criminosa pelas autoridades portuguesas. Os detidos têm "vastos antecedentes criminais e ligações a grupos de ódio internacionais", refere o comunicado da PJ.

A confirmação institucional cruza-se com a investigação de referência publicada em Novembro de 2022 pela VISÃO, da autoria de Miguel Carvalho, sob o título "O Braço Armado do Chega". Nessa peça, premiada, já estavam identificados dois guardas da GNR como membros activos do 1143. A presença de elementos das forças de segurança dentro do grupo não é, portanto, descoberta recente — é continuidade.

A cela de Alcoentre

Mário Machado, líder do 1143, cumpre desde Maio de 2025 uma pena de dois anos e dez meses por incitamento ao ódio e violência. Está na prisão de Alcoentre, no concelho do Cartaxo. A Judiciária entrou na cela.

Foram apreendidos, segundo a directora da Unidade Nacional de Contraterrorismo, "elementos relevantes para a investigação". Mário Machado é também arguido neste novo processo. As autoridades suspeitam que dirigia operações no exterior através de telemóveis e de intermediários que o visitavam regularmente.

O líder neonazi tem um percurso longo. Aos dezoito anos integrava o grupo de skinheads que percorreu o Bairro Alto na noite em que Alcindo Monteiro foi assassinado, a 10 de Junho de 1995. O director nacional da PJ, ao apresentar a Operação Irmandade, fez questão de invocar essa morte como antecedente histórico da estrutura criminosa agora visada.

O que ficou para apurar

Os detidos foram presentes a primeiro interrogatório judicial no Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa a 21 de Janeiro. As medidas de coacção foram conhecidas nos dias seguintes, com o advogado de Mário Machado, José Manuel Castro, a contestar publicamente os fundamentos da operação e a admitir, em declarações à RTP, que o "timing" prejudicava o seu cliente.

Há ainda matéria por esclarecer. Quem financiava o grupo. Que ligações tem com estruturas congéneres na Europa Central e Oriental — referências internas a grupos de ódio internacionais foram explicitadas pela PJ mas não detalhadas. E o que mostrará o material informático apreendido, que está agora a ser objecto de análise pericial.

Trinta anos depois do crime do Bairro Alto, a investigação institucional regressa à mesma raiz organizada. Não foi sempre tão visível como é hoje. Continuou a existir mesmo quando o país preferiu não olhar.

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