Resumo
- O relatório humanitário da OCHA de 10 de abril regista mais de 580 ataques de colonos com vítimas, danos materiais ou ambos em mais de 190 comunidades desde o início de 2026.
- 700 palestinianos já tinham sido deslocados em 2026 por violência de colonos e restrições de acesso, ultrapassando o total registado em todo o ano de 2025.
- A maioria dos casos concentra-se em comunidades beduínas e de pastoreio na Área C, onde licenças de construção israelitas são quase impossíveis de obter e onde a presença de postos avançados altera a circulação diária.
Em março de 2026, cerca de 170 palestinianos foram feridos por colonos israelitas na Cisjordânia. A OCHA diz que é o valor mensal mais alto desde que documenta esta violência, em 2006.
A violência de colonos na Cisjordânia atingiu em março de 2026 o nível mensal mais alto em 20 anos de documentação da OCHA. Cerca de 170 palestinianos foram feridos por colonos israelitas num só mês. Desde janeiro, oito palestinianos foram mortos por colonos em ataques na Cisjordânia.
O número não vem de uma organização militante. Vem do gabinete humanitário das Nações Unidas para o Território Palestiniano Ocupado. E desloca o foco habitual: não é Gaza, não é bombardeamento aéreo, não é tribunal internacional. É terra, estrada, oliveira, casa, posto avançado.
O padrão de março
O relatório humanitário da OCHA de 10 de abril regista mais de 580 ataques de colonos com vítimas, danos materiais ou ambos em mais de 190 comunidades desde o início de 2026. Só entre 31 de março e 6 de abril, foram pelo menos 47 ataques em 36 comunidades.
Em março, mais de 200 ataques de colonos causaram vítimas ou danos materiais em mais de 100 comunidades. Seis palestinianos foram mortos por colonos nesse mês — o segundo maior total mensal desde que a OCHA começou a registar vítimas de forma sistemática, em 2005.
Na prática, o padrão repete-se: entrada de colonos armados ou mascarados, danos em casas e veículos, agressões, incêndios, bloqueios de estrada, chegada posterior de forças israelitas, detenções de palestinianos ou declaração de zona militar fechada. Nem todos os casos seguem esta sequência. Muitos seguem.
Deslocar sem ordem de expulsão
A violência de colonos faz uma coisa politicamente decisiva: desloca sem precisar de uma ordem formal de expulsão. A OCHA estimava no fim de março que mais de 1.700 palestinianos já tinham sido deslocados em 2026 por violência de colonos e restrições de acesso, ultrapassando o total registado em todo o ano de 2025.
Desde 2023, 38 comunidades palestinianas ficaram vazias neste contexto. Mais de 5.600 pessoas foram deslocadas, incluindo mais de 2.600 crianças. A maioria dos casos concentra-se em comunidades beduínas e de pastoreio na Área C, onde licenças de construção israelitas são quase impossíveis de obter e onde a presença de postos avançados altera a circulação diária.
A pergunta óbvia é se isto é política oficial ou violência tolerada. A resposta honesta é menos limpa do que qualquer slogan. Israel distingue entre colonos, exército e Estado; organizações de direitos humanos israelitas e palestinianas argumentam que a fronteira se tornou prática e visualmente instável, sobretudo quando colonos aparecem armados, fardados ou protegidos por soldados.
A terra como frente de guerra
A Cisjordânia é muitas vezes descrita como território em espera: à espera de negociações, à espera de eleições palestinianas, à espera de uma solução de dois Estados. Nos relatórios da OCHA, parece outra coisa. Parece território em mudança diária.
Uma família que deixa uma encosta no Vale do Jordão não sai apenas de uma casa. Sai do poço, do caminho para a escola, do lugar onde sabe quando chega a chuva, da oliveira que alguém plantou antes dela nascer. Em português administrativo, chama-se deslocação. No terreno, chama-se perder o mapa.
O Governo israelita defende que a segurança na Cisjordânia exige operações contra ataques palestinianos e que muitos incidentes envolvem confronto local, não estratégia estatal. A Autoridade Palestiniana, ONG israelitas como a B’Tselem e organismos da ONU contestam essa leitura e falam de coerção, impunidade e expansão territorial.
O que isto muda
A violência de colonos importa porque toca no nervo da solução de dois Estados. Um Estado palestiniano viável exige continuidade territorial mínima. Cada comunidade esvaziada, cada estrada fechada, cada família deslocada por medo reduz esse espaço sem necessidade de tratado ou anexação formal.
É por isso que a Cisjordânia não é tema secundário face a Gaza. É a outra metade do mesmo impasse. Em Gaza, discute-se sobrevivência imediata. Na Cisjordânia, discute-se se ainda resta território para uma solução política.
Quando a violência decide onde uma família pode dormir, a fronteira já começou a mexer.
Sem contraditório formal documentado à data de publicação. A SociedadeCivil.pt actualizará esta peça se receber resposta formal da Embaixada de Israel ou de entidades citadas.