ADN, Chega e o voto evangélico brasileiro: por que razão são dois partidos qualitativamente diferentes na sua relação com o universo religioso - Sociedade Civil
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Resumo

  • Em troca, o ADN declarou apoio a manifestações organizadas por Malafaia em São Paulo a favor de Bolsonaro.
  • A ONG norte-americana Global Project Against Hate and Extremism classificou o ADN, em relatório de 2024, como “grupo de ódio e de extrema-direita”.
  • O ADN concorreu pela primeira vez ao concelho de Loures nas autárquicas de 2025, com o trabalhador dos Serviços Municipalizados João Gomes como candidato, e prioridades declaradas em “inclusão, habitação acessível e mobilidade”.

A narrativa pública generaliza. Os factos são mais finos. O ADN tem ligações orgânicas e públicas com figuras evangélicas brasileiras — vídeos de Marco Feliciano e Silas Malafaia, importação da expressão “bancada evangélica”. O Chega tem ligações difusas e ideológicas, sem estrutura documentada de captação evangélica. Distinguir os dois partidos não é defender nenhum — é jornalismo.

Em março de 2024, durante a campanha das legislativas, o deputado federal brasileiro Marco Feliciano publicou um vídeo. Identificava-se como “porta-voz de Jair Bolsonaro”. Apelava ao “voto dos cristãos católicos e evangélicos” em Portugal. Pedia-o para o ADN — Alternativa Democrática Nacional, partido fundado em 2015, com presença marginal nas eleições anteriores. Em 2022, o ADN tinha cerca de 10.000 votos. Em março de 2024, ultrapassou os 100.000.

Dias antes das mesmas eleições, Bolsonaro publicou outro vídeo. Apoiava o Chega. “É a direita, o conservadorismo, as pessoas de bem. André Ventura está do lado do bem”, proclamou. O Chega elegeu 50 deputados.

Os dois apoios brasileiros parecem equivalentes. Não são. A análise das fontes públicas mostra duas relações qualitativamente distintas entre os partidos portugueses e o universo evangélico brasileiro.

O caso ADN

O ADN, liderado pelo empresário Paulo Nunes, tem o que se pode chamar relação orgânica com figuras evangélicas brasileiras. Importou a expressão “bancada evangélica” do vocabulário político brasileiro. Recebeu apoio de campanha gravado por Marco Feliciano, deputado federal em quarto mandato, aliado de primeira hora do bolsonarismo. Foi apoiado pelo pastor Silas Malafaia, uma das figuras políticas mais influentes do segmento neopentecostal brasileiro. Em troca, o ADN declarou apoio a manifestações organizadas por Malafaia em São Paulo a favor de Bolsonaro.

A ONG norte-americana Global Project Against Hate and Extremism classificou o ADN, em relatório de 2024, como “grupo de ódio e de extrema-direita”. A classificação é contestada pelo partido. O facto subjacente — a ligação com figuras evangélicas brasileiras — é documentado em vídeo.

O ADN concorreu pela primeira vez ao concelho de Loures nas autárquicas de 2025, com o trabalhador dos Serviços Municipalizados João Gomes como candidato, e prioridades declaradas em “inclusão, habitação acessível e mobilidade”.

O caso Chega

O Chega, fundado em 2019 por André Ventura, tem relação qualitativamente diferente. Ventura é católico praticante — a sua ligação religiosa pessoal é bem documentada. Em entrevista à Renascença em janeiro de 2026, descreve a rotina de ir à missa na Igreja de S. Nicolau, em Lisboa, no início de cada noite eleitoral. Cumpre promessas em Međugorje, na Bósnia-Herzegovina. A sua biografia católica não é figura retórica. É devoção declarada.

A ligação do Chega ao universo evangélico não passa por estrutura partidária organizada. Passa por afinidades ideológicas em matérias de costumes — aborto, identidade de género, “ideologia de género” — que coincidem com posições de muitos segmentos evangélicos conservadores. Passa também por pastores individuais que, segundo reportagens em vários órgãos portugueses, têm promovido o Chega em cultos e redes sociais. Não passa por endossos públicos coordenados como o de Marco Feliciano para o ADN.

Bolsonaro, sim, gravou vídeo a apoiar Ventura. Mas o vídeo foi feito como apoio a Ventura, não como apoio articulado por figuras evangélicas. Foi um endosso bolsonarista mais amplo — nem sequer especificamente religioso.

O que diz Brissos Lino

José Brissos Lino, especialista em Ética e Ciência das Religiões, oferece uma observação relevante em entrevista à CNN Portugal em setembro de 2025. Diz que o Chega “colocou anúncios na internet para quem queria ser candidatos autárquicos” e que “alguns brasileiros deixaram-se seduzir primeiro pelo Chega e depois pelo ADN”. A descrição sugere recrutamento aberto pelo Chega, com captura individual de candidatos brasileiros — não captura institucional de igrejas.

A diferença, embora subtil, é importante. Recrutar candidatos por anúncio é prática legal e comum. Receber endossos coordenados de pastores estrangeiros como base estrutural da campanha é prática diferente. O ADN faz a segunda. O Chega faz, no máximo, a primeira.

O que diz a AEP

Timóteo Cavaco, presidente da Aliança Evangélica Portuguesa, em entrevista ao Observador em junho de 2025, recusa explicitamente a associação dos evangélicos organizados ao Chega. Reconhece que pastores individuais têm promovido o partido. Reconhece que a “tradição do voto religioso” foi importada do Brasil e dos Estados Unidos. Mas afirma que existe “contradição” entre identificação cristã e programa de partido de extrema-direita, e que o exemplo de Jesus Cristo “afasta-se dos extremos”. Cavaco assume ter recebido convites de partidos para acções de campanha — sem nomear quais. Recusou todos.

Cavaco também sublinha que a comunidade evangélica organizada em Portugal tem entre 200 e 250 mil residentes — muitos não-cidadãos, muitos jovens abaixo da idade de voto. “Um voto religioso só terá significado se abranger no mínimo 15 a 20% dos eleitores”, diz. Em Portugal, esse limiar não é atingido — independentemente do partido.

Por que importa distinguir

A confusão pública entre Chega e ADN serve dois lados. Aos críticos do Chega, permite atribuir-lhe ligações que ele não tem. Ao Chega, permite descartar quaisquer críticas dirigidas ao ADN como sendo dirigidas a si próprio — generaliza para se proteger.

A SociedadeCivil.pt entende que a distinção factual entre os dois partidos é serviço público. A democracia portuguesa precisa de saber, com precisão, quem se relaciona com quem. O ADN tem cerca de 100.000 votantes. O Chega tem mais de 800.000. Os dois partidos são protegidos pela liberdade de associação política. A distinção entre eles é matéria de cidadania informada.

O voto evangélico brasileiro em Portugal — se for útil falar nesses termos, o que a AEP contesta — divide-se entre os dois partidos, com geometria diferente. Quem quer entender precisa, antes de tudo, de não os confundir.

Sem contraditório formal documentado à data de publicação. A SociedadeCivil.pt actualizará esta peça se forem recebidas respostas formais do Chega, do ADN ou de representantes de Marco Feliciano.

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