25 de Abril: as pequenas peripécias que ajudaram a derrubar uma ditadura - Sociedade Civil
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Resumo

  • O 25 de Abril de 1974 não foi um golpe de Estado asséptico, desenhado a régua e esquadro por homens sem nervos.
  • Mas foi também um dia cheio de desencontros, senhas escondidas em canções, mapas de estrada, porteiros desconfiados, chaimites com nomes africanos, soldados alimentados por desconhecidos e gente comum a ocupar a História sem pedir licença.
  • Há um capitão de 29 anos a falar a homens cansados, dentro de uma unidade militar, antes de uma viagem sem garantia de….

25 de Abril: a revolução das peripécias, dos cravos e dos enganos felizes

O 25 de Abril de 1974 não foi um golpe de Estado asséptico, desenhado a régua e esquadro por homens sem nervos. Foi uma operação militar clandestina que derrubou a ditadura mais longa da Europa Ocidental, sim. Mas foi também um dia cheio de desencontros, senhas escondidas em canções, mapas de estrada, porteiros desconfiados, chaimites com nomes africanos, soldados alimentados por desconhecidos e gente comum a ocupar a História sem pedir licença.

A grandeza do 25 de Abril mora aí: na mistura entre cálculo e acaso. O Movimento das Forças Armadas preparou a operação. A população transformou-a em revolução. Entre uma coisa e outra, Portugal descobriu que a liberdade também tem episódios de bastidores, quase domésticos, quase absurdos. Não diminuem o dia. Pelo contrário. Dão-lhe carne.

A inauguração que ofereceu flores à História

Na Rua Braamcamp, em Lisboa, o restaurante self-service Sir, no edifício Franjinhas, preparava o primeiro aniversário. Havia cravos vermelhos e brancos comprados para decorar mesas e oferecer aos clientes. Mas, na manhã de 25 de Abril, a rádio falava de tropas na rua. O patrão fechou o restaurante e mandou os funcionários para casa. Celeste Caeiro, empregada do espaço, saiu com molhos de flores para que não se estragassem.

O país estava em sobressalto. Celeste apanhou o metro, seguiu para a Baixa e cruzou-se com militares. Um soldado pediu-lhe um cigarro. Ela não fumava. Tinha cravos. Deu-lhe uma flor. O homem colocou-a no cano da espingarda. Outro quis também. Depois outro. O gesto repetiu-se até se tornar imagem: a arma com uma flor na boca, uma espécie de desobediência poética à violência.

Há versões que dão relevo às floristas do Rossio e da Baixa. A investigação recomenda cuidado: a narrativa consensual aponta Celeste como a primeira, enquanto outras mulheres terão replicado o gesto pouco depois. A memória oral, quando atravessa cinquenta anos, traz sempre poeira, brilho e pequenas disputas. Ainda assim, o essencial resiste. O símbolo maior da democracia portuguesa nasceu de um aniversário cancelado e de uma mulher que não tinha cigarros.

A canção de amor que abriu a porta

Às 22h55 de 24 de Abril, uma balada romântica entrou no ar: “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho. Tinha representado Portugal no Festival da Eurovisão, em Brighton, poucos dias antes. Não era uma canção de combate. Não trazia punho erguido, nem palavras proibidas, nem apelo à insurreição. Servia por isso mesmo. Parecia inofensiva aos ouvidos da censura.

A ironia é quase perfeita. Uma música de despedida deu o primeiro sinal para o fim da ditadura. Paulo de Carvalho, segundo a investigação recolhida, nem sequer soube logo que a sua voz abrira a noite revolucionária. Estava perto do café Vá Vá, em Lisboa, dentro de um carro sem rádio. O homem mais ouvido da noite não ouviu a própria senha.

Depois chegou “Grândola, Vila Morena”. A segunda senha não nasceu num gabinete com cortinas pesadas. Foi combinada em lugares improváveis: debaixo do Elevador de Santa Justa e, segundo testemunhos reunidos, até ajoelhada numa igreja de Alvalade, a fingir oração para escapar a olhos indiscretos.

Na Rádio Renascença, a emissão também teve o seu nervo. Leite de Vasconcelos leu a quadra inicial sem conhecer o alcance do gesto. A fita estava preparada. Houve falhas, tensão, medo de que a engrenagem parasse no pior segundo. Mas a voz saiu. E, com ela, a ordem avançou.

Santarém: acabar com “o estado a que chegámos”

Na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, Salgueiro Maia acordou os homens e falou-lhes sem grandiloquência. Disse que havia vários tipos de Estado: socialistas, corporativos e “o estado a que chegámos”. Naquela noite, acrescentou, iam acabar com esse estado. Quem quisesse vinha para Lisboa. Quem não quisesse ficava. Ofereceram-se todos; por limitações logísticas, seguiram cerca de 240.

A frase ficou porque junta coragem e secura popular. Não há retórica inchada. Há um capitão de 29 anos a falar a homens cansados, dentro de uma unidade militar, antes de uma viagem sem garantia de regresso. Daquela parada, saiu uma coluna rumo à capital. Não saiu uma tropa de estátuas. Saiu gente.

E gente erra, hesita, trava. A caminho de Lisboa, já na Cidade Universitária, a coluna parou num semáforo vermelho ao lado de um autocarro da Carris. Salgueiro Maia bateu com a cabeça no vidro do jipe e percebeu o absurdo: a Revolução, por instantes, cumpria o Código da Estrada.

A imagem diz muito sobre Portugal. Mesmo quando desobedecia à ditadura, ainda obedecia ao sinal vermelho.

Toledo, Bruxelas e Viena caíram antes do pequeno-almoço

Pelas 6h10, Salgueiro Maia comunicou ao posto de comando da Pontinha: “ocupámos Toledo, controlamos Bruxelas e Viena”. Parecia uma guerra continental. Era Lisboa em código. Toledo correspondia ao Terreiro do Paço; Bruxelas, ao Banco de Portugal; Viena, à Rádio Marconi.

A operação misturava clandestinidade e imaginação. Se alguém escutasse sem chave de leitura, ouviria um país pequeno a tomar capitais europeias antes do nascer do sol. Na prática, os capitães marcavam posições estratégicas na Baixa lisboeta. Ainda assim, a frase tem qualquer coisa de romance de espionagem escrito em português sóbrio.

Na Pontinha, o posto de comando também desmentia a ideia de uma revolução luxuosa. As janelas foram tapadas com cobertores militares. Sobre as mesas havia mapas do Automóvel Clube de Portugal, desses que serviam para férias, viagens de família, idas ao Alentejo ou ao Minho. Com esses mapas, orientaram colunas militares vindas de vários pontos do país.

Com mapas de passeio, desenhou-se o caminho da liberdade. Estranho? Sim. Belo, também.

O porteiro que achou cedo para uma revolução

O Rádio Clube Português, na Rua Sampaio Pina, tinha papel decisivo: dali sairiam comunicados do MFA. Mas até aí a madrugada trouxe uma cena quase de comédia amarga. Segundo a tradição jornalística recolhida, quando os militares chegaram, o porteiro abriu a custo e, perante a explicação de que vinha aí um golpe de Estado, terá sugerido que voltassem mais tarde, por volta das sete, quando houvesse mais gente.

Convém dizê-lo com prudência: é uma anedota documentada em cronologias e relatos secundários, sem a solidez de outros episódios. Mas ela sobrevive porque parece verdadeira no seu espírito. Um país tão habituado a horários, chefias e portas fechadas precisava até de convencer o porteiro para a revolução entrar.

Às 04h26, Joaquim Furtado leu o primeiro comunicado. Pedia-se calma. Pedia-se que a população ficasse em casa. A ordem fazia sentido militar. Falhou politicamente. Ou melhor: foi ultrapassada pela fome de rua.

O aeroporto tomado entre bluff, desvios e almoço pago

No Aeroporto da Portela, duas peripécias cruzam-se. A força saída de Mafra, comandada pelo capitão Rui Rodrigues, desviou-se para evitar forças leais ao regime e acabou perdida por Camarate. O reconhecimento tinha sido feito de dia; a marcha, essa, aconteceu de noite. A diferença bastou para baralhar o caminho.

Enquanto isso, o capitão Costa Martins terá agido sozinho na torre de controlo, convencendo os presentes de que o aeroporto estava cercado por tropas pesadas. Durante mais de uma hora, a aviação nacional ficou condicionada por uma mistura de coragem, nervo e teatro.

Mais tarde, já com civis confinados no aeroporto — incluindo elementos ligados à polícia política —, o problema tornou-se inesperadamente prosaico: alimentar toda a gente. A conta terá chegado aos 25 mil escudos, pagos pela Escola Prática de Infantaria. A revolução tomou o aeroporto e acabou a pagar almoços.

O Presidente esquecido e o general com passaporte

Nem tudo correu segundo o plano. Em 1994, num reencontro de militares ligados ao posto da Pontinha, admitiu-se uma falha desconcertante: o MFA esqueceu-se de ir prender o Presidente da República, Américo Tomás. O chefe de Estado continuou em casa durante a manhã, até ser avisado pelo diretor-geral de Segurança de que havia uma revolução em curso.

Poderiam argumentar que este tipo de detalhe ridiculariza a operação. Não. Humaniza-a. A queda de uma ditadura raramente segue manual limpo. O que espanta não é ter havido falhas; é o conjunto ter avançado apesar delas.

Outro episódio mostra a prudência de quem sabia que a derrota custaria caro. Costa Gomes encontrava-se no Hospital Militar da Estrela, acompanhando a mulher em exames, com uma mala onde levava documentos e passaporte. Se o golpe falhasse, tinha uma saída. Se triunfasse, estava relativamente protegido.

Num banco de hospital, com uma mala aos pés, também se espera pela História.

A fuga pela biblioteca e o buraco na parede

No Terreiro do Paço, cercado o Ministério do Exército, membros do Governo ficaram sem saída. O ministro Andrade e Silva ordenou que se abrisse um buraco numa parede de tijolo com uma picareta. Por ali, os governantes passaram para a biblioteca do Ministério da Marinha, edifício contíguo, antes de seguirem para Lanceiros 2.

A imagem é devastadora. Um regime que durante décadas exigiu obediência, silêncio e medo acabou a fugir por uma parede aberta à pressa. Não há metáfora mais física para a derrocada do poder. As portas fecharam-se. Restou uma picareta.

Daquela pompa, ficou o pó.

Carmo: refém, rendição e a chaimite “Bula”

No Quartel do Carmo, Marcelo Caetano resistia à rendição. Salgueiro Maia entrou para negociar. O chefe do Governo disse que só entregaria o poder a um general, para que “não caísse na rua”. Maia chamou Spínola. Em vários momentos, ofereceu-se como refém para garantir a segurança dos vencidos.

Há aqui uma lição ética que o ruído do presente esquece depressa: a firmeza não exige humilhação. O capitão que cercou o poder tratou o inimigo derrotado com uma dignidade que a ditadura negara a tantos portugueses.

A chaimite que retirou Marcelo Caetano do Carmo chamava-se “Bula”. O nome vinha de uma localidade da Guiné-Bissau, território marcado pela guerra colonial. O blindado de fabrico português transportou o fim político de um regime corroído também por essa guerra. África regressava, em nome pintado no metal, ao centro da capital.

O povo não ficou em casa

Os comunicados do MFA insistiam: a população devia recolher. Às 04h26, às 05h15, às 07h45, a mensagem repetia-se. Pela manhã, já se percebia que o apelo falhara. As pessoas saíram. Encheram ruas, praças, passeios, cruzamentos. Subiram a blindados. Levaram cravos, comida, cigarros, sandes, perguntas.

Foi uma desobediência inaugural. O primeiro gesto livre de muitos portugueses consistiu em desobedecer a quem os libertava. E essa contradição fez toda a diferença. O golpe militar ganhou multidão. O dia ganhou voz.

Há relatos de soldados a receber pão, leite, bolachas, chocolates. Algumas pessoas terão descido ainda em pijama, empurradas pela urgência de ver com os próprios olhos o fim do medo. Nem todos os pormenores têm igual grau de confirmação; a investigação assinala variações regionais e marcas típicas da memória oral. Mas a direção do facto é sólida: a rua alimentou os soldados e apropriou-se da revolução.

A liberdade, nesse dia, também se serviu em copos de leite.

“…e temos o povo”

No Largo do Carmo, perante a multidão, há uma frase que condensa o instante. Carlos Beato terá sussurrado a Salgueiro Maia: “…e temos o povo”. Quatro palavras. Bastavam. O que até aí dependia de transmissões, colunas e ordens tornou-se corpo coletivo.

Não foi o povo que planeou a operação. Mas foi o povo que lhe deu destino. Sem a multidão, o 25 de Abril ficaria como golpe militar vitorioso. Com ela, tornou-se revolução democrática.

A concessão honesta impõe-se: nem tudo naquele processo foi puro, simples ou unânime. Houve medo, cálculo, disputas posteriores, memórias em conflito, versões reescritas. A democracia que nasceu dali também atravessou tensões duras. Mas nenhuma dessas sombras apaga a claridade daquele dia.

O 25 de Abril continua vivo porque não pertence só aos generais, aos capitães ou aos comunicados. Pertence à empregada que levou flores, ao locutor que leu a senha, ao soldado que aceitou o cravo, ao motorista que parou no vermelho, ao porteiro que achou cedo, ao capitão perdido em Camarate, à gente que saiu à rua em pijama.

A História muda quando deixa de caber nos gabinetes.

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