Resumo
- É o dia em que a liberdade deixou de ser uma palavra sussurrada e passou a ser uma casa comum.
- Havia uma guerra colonial que roubava juventude, futuro e vida — cá e lá, em Portugal e nos povos colonizados, nas famílias que esperavam cartas, nos corpos que regressavam quebrados, nos que não regressavam.
- Hoje, graças a esse dia, pessoas de esquerda, de direita e de centro podem falar, discordar, debater, votar e existir em liberdade.
O 25 de Abril é um daqueles dias em que Portugal parece respirar por dentro. Não é só uma data no calendário, nem uma cerimónia repetida, nem uma memória guardada em fotografias a preto e branco. É o dia em que a liberdade deixou de ser uma palavra sussurrada e passou a ser uma casa comum.
Uma casa imperfeita, claro. Com discussões, zangas, cansaços, promessas por cumprir. Mas uma casa onde se entra de cabeça levantada. Onde se fala. Onde se vota. Onde se discorda. Onde se escreve. Onde se canta. Onde se pode dizer “não” sem que esse “não” nos leve ao medo, ao silêncio ou à prisão.

Deixando de lado ideologias à esquerda e à direita, há uma verdade simples que nos devia juntar: há valores que não pertencem a nenhum partido. Pertencem à condição humana. A liberdade. A dignidade. A democracia. A possibilidade de cada pessoa existir sem pedir licença ao poder para pensar, amar, trabalhar, estudar, protestar, acreditar ou não acreditar.
Mantendo-nos centrados no humanismo, o 25 de Abril é de todos os que recusam a humilhação como método de governo. De todos os que sabem que uma sociedade decente não se constrói com censura, polícia política, tortura, pobreza resignada e juventude enviada para uma guerra sem horizonte humano.
Há 52 anos livrámo-nos de uma ditadura. Convém dizê-lo sem gritar, mas sem adoçar. Não havia liberdade de expressão. Não havia democracia. Havia censura, medo, repressão e tortura. Havia livros cortados, jornais vigiados, conversas medidas, vidas encolhidas. Havia uma guerra colonial que roubava juventude, futuro e vida — cá e lá, em Portugal e nos povos colonizados, nas famílias que esperavam cartas, nos corpos que regressavam quebrados, nos que não regressavam.
Antes da democracia, grande parte da população vivia sem direitos sociais que hoje consideramos básicos. A saúde, a educação, o trabalho e a proteção social eram profundamente desiguais. O acesso à habitação digna era incerto para muitos. A escola ficava longe, ou acabava cedo. O trabalho protegia pouco. A doença podia empurrar uma família inteira para o desamparo.
Os indicadores sociais da época revelavam um país profundamente atrasado: graves problemas de mortalidade infantil, mortalidade materna, analfabetismo, acesso à saúde e proteção social. Não é preciso transformar estes dados em arma de arremesso. Basta olhá-los com honestidade. Um país que deixa demasiadas crianças morrer, demasiadas mães em risco, demasiados adultos sem saber ler e demasiadas famílias sem amparo não é um país livre por inteiro.
Poderiam argumentar que a democracia também falhou muita coisa. E é verdade. Falhou, falha, falhará enquanto houver pobreza, solidão, exploração, racismo, abandono, medo de chegar ao fim do mês. A liberdade não resolveu tudo. Nunca resolveu. Mas abriu a porta pela qual passam as lutas que antes eram proibidas. Daquela noite longa, restou-nos o dever de não fingir que o sol nasceu para todos ao mesmo tempo.
E é por isso que hoje agradecemos.
Agradecemos aos militares de Abril, aos soldados e capitães que já não aceitavam continuar uma guerra sem sentido. Homens jovens, muitos deles cansados de ver a vida ser consumida por uma ordem antiga, decidiram que obedecer também tem limites quando a obediência trai a humanidade. Não foram santos. Foram humanos. E isso basta. Os militares de Abril abriram a porta à liberdade, e o povo entrou.
Entrou com cravos. Entrou com espanto. Entrou com prudência e alegria. Entrou como quem não sabia ainda o tamanho do dia que acabava de nascer.
Hoje, graças a esse dia, pessoas de esquerda, de direita e de centro podem falar, discordar, debater, votar e existir em liberdade. Hoje podemos criticar governos, defender ideias opostas, escrever contra maiorias, mudar de opinião, fundar partidos, rir do poder, exigir contas, ocupar a praça pública com palavras. Hoje podemos discordar porque alguém conquistou o direito de discordarmos.
A liberdade é também isto: podermos debater ideias, desde que não abandonemos a humanidade.
É uma frase simples, mas pede trabalho. Porque a liberdade não é licença para esmagar o outro. Não é o direito de mentir sem consequência, de desumanizar sem remorso, de confundir coragem com brutalidade. A liberdade precisa de responsabilidade, empatia e compromisso humanista. Precisa de memória. Precisa de cuidado. Precisa de gente que saiba que a democracia não se herda como uma peça de mobília: conserva-se, repara-se, defende-se, melhora-se.
Não temos de pensar todos da mesma maneira para celebrar Abril. Ainda bem que não pensamos. A democracia respira nessa diferença. O que não podemos é esquecer que antes dela havia quem decidisse o que podíamos ler, dizer, saber, sonhar. Havia quem mandasse calar. Havia quem prendesse. Havia quem torturasse. Havia quem chamasse ordem ao medo.
Hoje é dia de festa calma. De gratidão. De memória. De cravos nas mãos e olhos limpos. Dia de lembrar os que vieram antes, os que sofreram, os que resistiram, os que abriram portas, os que saíram à rua sem saber se a rua os protegeria.
A liberdade não é perfeita. Mas sem ela, tudo fica mais pobre.
Celebremos, então. Sem ódio. Sem donos. Sem transformar Abril numa arma pequena. Celebremos como quem sabe que este dia é grande demais para caber numa trincheira partidária.