Resumo
- O país que, em 1970, tinha 25,7% de analfabetos e menos de 1% da população com curso superior tornou-se, em poucas décadas, uma sociedade onde a escolaridade obrigatória chegou aos 12 anos e o ensino superior se massificou.
- Alargou-se a escolaridade obrigatória, expandiu-se a rede pública, criaram-se universidades e institutos politécnicos fora dos grandes centros, e o acesso deixou de ser privilégio tão fechado.
- Também saiu uma cidadania mais exigente, mais capaz de ler o poder, reclamar direitos e circular por um país e por uma Europa que antes estavam longe.
Poucas transformações do pós-25 de Abril foram tão profundas e tão persistentes como a democratização da educação. O país que, em 1970, tinha 25,7% de analfabetos e menos de 1% da população com curso superior tornou-se, em poucas décadas, uma sociedade onde a escolaridade obrigatória chegou aos 12 anos e o ensino superior se massificou. A escola pública fez mais do que ensinar. Abriu portas sociais que antes estavam fechadas à chave.
O atraso de partida
Antes da revolução, a escola era curta, desigual e seletiva. Muitas crianças saíam cedo para o trabalho rural ou industrial. O ensino superior era reservado a uma minoria de classe e de geografia. Em amplas zonas do país, a iliteracia era transmitida de geração em geração como se fosse herança inevitável.
Depois de 1974, a educação ganhou outra centralidade. Alargou-se a escolaridade obrigatória, expandiu-se a rede pública, criaram-se universidades e institutos politécnicos fora dos grandes centros, e o acesso deixou de ser privilégio tão fechado. Em 2021, a taxa de analfabetismo caiu para 3,1%. A população com ensino superior chegou a 20%.
Mobilidade social com rosto concreto
A massificação da escola e da universidade alterou o país de forma silenciosa, mas funda. Filhos de trabalhadores rurais, operários, empregados do comércio e pequenas famílias urbanas chegaram à universidade, às profissões qualificadas, à investigação, à administração pública e às empresas. Houve, aqui, uma mobilidade social que não convém desdenhar.
Da escola pública saiu uma nova classe média técnica e científica. Também saiu uma cidadania mais exigente, mais capaz de ler o poder, reclamar direitos e circular por um país e por uma Europa que antes estavam longe.
Poderiam argumentar que mais diplomas não significam, por si só, melhor vida. É verdade. O diploma não resolve salários curtos nem rendas altas. Mas sem ele o bloqueio seria ainda mais duro. A escola não faz milagres; reduz condenações antecipadas.
O que falta cumprir
Nem tudo está resolvido. Persistem desigualdades territoriais, abandono escolar em certos contextos, défices de qualificação de parte da população ativa e uma ligação nem sempre fluida entre formação e emprego. Há ainda um mal-estar crescente entre jovens altamente qualificados que estudaram mais do que qualquer geração anterior e continuam a encontrar precariedade à saída.
Essa é a zona desconfortável da história: a democracia abriu a escola, mas a economia portuguesa nem sempre abriu carreiras à mesma altura.
Mesmo assim, convém manter a escala certa. O país de hoje não é comparável ao que saiu da ditadura. A escola deixou de ser uma exceção social para passar a ser uma infraestrutura de cidadania. Nas aldeias, nos bairros urbanos, nas capitais de distrito, nos politécnicos do interior e nas universidades públicas, construiu-se uma mudança que não cabe em saudosismos.
A escola como pacto democrático
A educação é uma das provas mais nítidas de que o 25 de Abril não foi um gesto simbólico. Produziu instituições. Produziu direitos. Produziu tempo longo. Sem escola pública alargada, não haveria a ciência que hoje existe, nem a administração digital, nem uma parte relevante da autonomia social conquistada nas últimas décadas.
Uma frase basta: quem aprende mais, obedece menos.