Resumo
- ” A frase foi dita em 2024, numa entrevista à SIC Notícias, e resumia a narrativa central do primeiro mandato de Carlos Moedas na Câmara de Lisboa.
- o Programa Saúde Lisboa 65+, os passes gratuitos para jovens e idosos, a nova linha de eléctrico 16E, o BRT/Metrobus Lisboa-Oeiras (€93,5M).
- O que distingue o caso Moedas é a escala — pelo menos oito projetos de grande envergadura são documentadamente anteriores ao mandato — e a sistematicidade com que o ponto de partida foi apresentado de forma que os documentos não suportam.
“Medina deixou 256 casas em construção. Eu abri 2.744.” A frase foi dita em 2024, numa entrevista à SIC Notícias, e resumia a narrativa central do primeiro mandato de Carlos Moedas na Câmara de Lisboa. Simples, contrastante, memorável. O problema: os documentos da própria câmara dizem outra coisa.
O Polígrafo verificou que os dados internos da CML reconhecem 704 habitações em construção ou reabilitação deixadas por Medina — não 256. E o próprio Moedas confirmou, na mesma entrevista, que apenas cerca de 700 habitações foram “recuperadas exclusivamente pelo seu executivo”. Das 3.179 chaves entregues até dezembro de 2025, a maioria provém de projetos iniciados, financiados e parcialmente executados pela gestão anterior.
O Programa Renda Acessível não é de Moedas
O caso mais documentado é o do Programa Renda Acessível. Moedas apresenta as suas entregas como conquistas do seu mandato. A cronologia diz o seguinte.
Seis de abril de 2016: Fernando Medina faz a apresentação pública do programa. Novembro de 2019: regulamento aprovado. Outubro de 2019: lançamento do portal Habitar Lisboa. Dezembro de 2019: primeiro concurso. Julho de 2019: primeira pedra do projeto de Entrecampos, 476 fogos, €90M. Outubro de 2021: Carlos Moedas toma posse.
As 476 unidades de Entrecampos foram entregues durante o mandato Moedas. São reais. Mas foram concebidas, financiadas, licitadas e iniciadas por Medina. A expressão “eu abri” aplica-se à chave de porta — não ao projecto de arquitectura, ao financiamento BEI, nem ao concurso público.
A subcontagem inicial
A apresentação de 256 como ponto de partida é, segundo análise documental da SociedadeCivil.pt, uma subestimação documentada. Os próprios dados internos da CML contabilizavam 704 fogos herdados — quase três vezes mais. A câmara nunca explicou publicamente a discrepância entre os dois números.
O benefício político da subcontagem é evidente: quanto menor for o denominador herdado, maior parece o numerador conquistado. É uma operação aritmética, não documental.
O que é genuinamente novo
Seria injusto — e factualmente errado — concluir que Moedas não fez nada em habitação. A análise documental identifica várias iniciativas genuinamente novas no mandato: o Programa Saúde Lisboa 65+, os passes gratuitos para jovens e idosos, a nova linha de eléctrico 16E, o BRT/Metrobus Lisboa-Oeiras (€93,5M). São medidas reais, iniciadas no seu mandato.
Na habitação especificamente, o executivo Moedas candidatou 9.203 fogos ao PRR com €442M de investimento previsto — uma escala sem precedente. Mas a taxa de execução era de 44,5% em 2024. Candidatar não é entregar. E €442M em candidaturas não são €442M em casas.
Os preços que ninguém explica
Enquanto Moedas apresentava chaves entregues, os preços da habitação em Lisboa seguiram outro rumo. De aproximadamente €3.500 por metro quadrado no quarto trimestre de 2021 para cerca de €5.995 em dezembro de 2025 — um aumento de 71% em quatro anos.
A responsabilidade não é exclusivamente municipal — as dinâmicas são nacionais e globais. Mas contradiz qualquer narrativa de resolução do problema da habitação em Lisboa. Numa cidade onde o preço médio de uma habitação de 80m² passou de €280.000 para €480.000 em quatro anos, a entrega de 3.179 chaves de habitação acessível importa — mas não chega.
A régua da atribuição
O problema não é específico de Moedas. A vereadora PS Inês Drummond disse: “Não conheço uma obra ou que tenha sido lançada por Moedas. O que está a ser inaugurado são tudo obras que vieram do mandato anterior.” A frase é exagerada — há iniciativas genuínas. Mas captura um padrão real.
Fernando Medina também inaugurou obras de António Costa. A apropriação de legados é uma prática transversal na política portuguesa. O que distingue o caso Moedas é a escala — pelo menos oito projetos de grande envergadura são documentadamente anteriores ao mandato — e a sistematicidade com que o ponto de partida foi apresentado de forma que os documentos não suportam.
Executar também tem mérito. Ninguém nega que coordenar a entrega de centenas de habitações exige trabalho real. Mas mérito e autoria são coisas distintas. E quando os cidadãos votam, têm direito a saber a diferença.