“O que não se vê”: civis fora de quadro e o custo real da guerra - Sociedade Civil
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Resumo

  • quando os civis ficam fora de quadro, o horror vira estatística — e a política ganha margem para repetir o ciclo.
  • Quem perde a casa, o filho, a perna, fica reduzido a “baixas” ou “danos colaterais”, como se a linguagem pudesse amortecer a carne.
  • Num dia de vento junto ao Martim Moniz, vi uma mulher a atravessar a praça com um saco de plástico branco, daqueles de supermercado, e uma pasta rígida encostada ao peito.

A guerra que chega ao sofá raramente tem cheiro. Não traz pó nos dentes, nem o zumbido contínuo que antecede uma explosão. Vem limpa: um direto com capacete, um mapa com setas, um “alvo” neutralizado, um porta-voz a garantir contenção. The War You Don’t See (John Pilger, 2010) insiste numa ferida antiga: quando os civis ficam fora de quadro, o horror vira estatística — e a política ganha margem para repetir o ciclo.

Em Portugal, onde a distância geográfica facilita a distância emocional, esta omissão tem um efeito silencioso: o público aprende a ver guerras como “acontecimentos” e não como vidas interrompidas. Quem perde a casa, o filho, a perna, fica reduzido a “baixas” ou “danos colaterais”, como se a linguagem pudesse amortecer a carne.

A câmara segue o poder, não a dor

Há uma razão prática para a ausência de civis na cobertura: é perigoso, é caro, é difícil. Hospitais e bairros bombardeados não têm condições, não têm sinal, não têm garantias. A concessão honesta é esta: muitas redações não têm meios para enviar equipas independentes durante semanas.

Mas há também uma razão editorial, mais desconfortável: a guerra contada do ponto de vista militar é “organizada”. Tem briefing, tem cronologia, tem objetivos. A guerra do ponto de vista civil é caos: filas para água, crianças sem escola, funerais sem nomes completos, gente a dormir em corredores. O caos dá menos “boa televisão”. E, no entanto, é aí que está o custo real.

Daquela escolha, restou apenas o eco: a audiência sabe o nome do mísseàil, mas não sabe o nome de quem foi esmagado pela parede.

Micro-história: um saco de plástico e um caderno escolar

Num dia de vento junto ao Martim Moniz, vi uma mulher a atravessar a praça com um saco de plástico branco, daqueles de supermercado, e uma pasta rígida encostada ao peito. Dentro da pasta, um caderno escolar com folhas dobradas. Falava baixo ao telefone numa língua que não reconheci de imediato, e repetia uma palavra que se percebe em qualquer lugar: “casa”.

Não sei de que guerra veio. Sei o que aquele gesto transportava: o mínimo para recomeçar. O telejornal raramente filma isto. Filma cimeiras, declarações, armas. A vida recomeçada num saco de plástico não cabe no alinhamento — e, por isso, quase não existe para quem consome notícias.

Uma frase curta, para não fugir ao essencial: quando não vemos os civis, aceitamos o inaceitável.

“Mas o público não aguenta ver sofrimento todos os dias”

Poderiam argumentar que mostrar civis feridos ou mortos é exploração, que há limites éticos, que a audiência se desliga. É uma dúvida legítima. O jornalismo não é um desfile de horror.

A resposta não é “mostrar mais sangue”. É mostrar mais realidade: nomes quando possível, histórias curtas, consequências concretas, e contexto sobre o que a linguagem oficial tenta suavizar. Entre censura e voyeurismo há um território vasto: o da descrição responsável. Dizer “família enterrada na mesma vala” não é sensacionalismo; é factualmente relevante. E é mais honesto do que “houve vítimas”.

Há também o risco de instrumentalização: quando os civis aparecem, por vezes surgem apenas como cenário para legitimar uma intervenção — “estamos a salvá-los”. A complexidade está aqui: dar voz às vítimas sem as transformar em argumento de campanha. Não é fácil. Mas é trabalho.

O custo real não é só morte: é erosão

A guerra não mata apenas. Desfaz. Torna normal o anormal. Uma cidade sem água potável, um hospital sem anestésicos, uma geração a crescer com o som das sirenes como relógio. O documentário de Pilger aponta para esta continuidade: mesmo quando a “grande ofensiva” termina, a vida continua em ruína.

E é neste ponto que a omissão mediática tem consequências políticas: se o público não vê a erosão diária, não exige prestação de contas. A guerra passa a ser um episódio, não uma responsabilidade.

Como meter os civis no quadro sem perder rigor

Há formas práticas de contrariar a cegueira:

  • Jornalismo local e fixers: apoiar e creditar quem está no terreno, em vez de depender só de porta-vozes.
  • Organizações humanitárias e hospitais: cruzar relatos, mapear impacto, confirmar padrões.
  • Verificação independente: vídeos, satélite, registos de morgues, listas de deslocados.
  • Linguagem limpa: chamar “civil” a civil, “morto” a morto, “ocupação” a ocupação quando o é.

No fim, a guerra que vemos molda a guerra que aceitamos. E aqui fica a síntese, dura e simples, para caber no espaço entre duas notícias: se os civis ficam fora do ecrã, ficam fora da consciência.

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