Vítimas dignas e indignas: porque algumas mortes contam mais - Sociedade Civil
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Resumo

  • Mas, no telejornal, há corpos que entram com nome, fotografia e lágrimas em primeiro plano — e há outros que chegam em rodapé, em “pelo menos X mortos”, como se a vida fosse um contador.
  • Há meses, na Rua do Ouro, ao fim da tarde, vi uma rapariga parada junto a uma montra, telemóvel na mão, a ver um vídeo de uma cidade em ruínas.
  • Quando a televisão e as redes nos dão vítimas dignas com rosto e, ao mesmo tempo, despejam vítimas indignas em massa, o cérebro escolhe o caminho mais fácil.

Numa guerra, o corpo é sempre corpo. Mas, no telejornal, há corpos que entram com nome, fotografia e lágrimas em primeiro plano — e há outros que chegam em rodapé, em “pelo menos X mortos”, como se a vida fosse um contador. A ideia de vítimas dignas e vítimas indignas atravessa The War You Don’t See (John Pilger, 2010) como uma lâmina: a cobertura noticiosa não distribui atenção de forma inocente. Escolhe. Hierarquiza. E, ao escolher, ensina-nos a quem devemos doer.

O que está em jogo não é uma disputa académica. É o modo como uma sociedade decide se aceita uma guerra, se tolera sanções, se fecha os olhos a um bombardeamento “por engano”. E o efeito prático é este: quando as vítimas dignas ocupam o ecrã, a política treme; quando as vítimas indignas ficam em número, a política respira.

A dor que tem rosto e a dor que vira estatística

Repare no mecanismo: se a vítima “é nossa” — ou pertence ao universo cultural que o noticiário trata como próximo — a história ganha biografia. Diz-se a idade, a profissão, o bairro, mostra-se a fotografia tirada num aniversário. Há pai, há mãe, há amigos. Há luto com narrativa.

Se a vítima “é deles”, o léxico muda. “Insurgentes”, “militantes”, “baixas colaterais”, “danos”. E mesmo quando são civis, a frase vem torta: “morreram durante confrontos”, como se a morte fosse um fenómeno meteorológico. Daquela escolha, restou apenas o eco: um morto sem nome é um morto que não pesa.

A concessão honesta: nem sempre há tempo, acesso ou segurança para identificar cada pessoa. Em muitos cenários, jornalistas locais são silenciados, e a informação chega fragmentada. Isso é real. O problema é quando essa limitação vira hábito e, depois, norma editorial.

Micro-história: um telemóvel na Rua do Ouro

Há meses, na Rua do Ouro, ao fim da tarde, vi uma rapariga parada junto a uma montra, telemóvel na mão, a ver um vídeo de uma cidade em ruínas. O som estava desligado. Ela fazia “scroll” com o polegar, rápido, como quem tenta não ficar tempo demais em cima do sofrimento. Um amigo aproximou-se e perguntou: “É onde?” Ela respondeu: “Não sei… mas são tantos.” E voltou ao feed.

Não foi frieza. Foi defesa. Quando a televisão e as redes nos dão vítimas dignas com rosto e, ao mesmo tempo, despejam vítimas indignas em massa, o cérebro escolhe o caminho mais fácil: sentir por uma, desistir das outras.

E aqui está a frase curta que custa escrever: a desumanização não precisa de ódio; basta-lhe rotina.

“Estão a dizer que os jornalistas não se importam?” A objeção tem razão de existir

Poderiam argumentar que esta crítica é injusta, até ofensiva: que quem trabalha em redações não escolhe quem morre, que há empatia, que há tentativas de fazer melhor. É verdade. A maioria dos jornalistas não acorda a decidir quem merece compaixão.

Só que a desigualdade de tratamento não nasce da intenção individual; nasce do sistema. Do tempo escasso. Do peso das agências. Do medo de perder acesso. Do alinhamento que privilegia o que é “relevante” para a audiência — e, demasiadas vezes, “relevante” significa “parecido connosco”. A escolha editorial pode não ser maliciosa, mas o efeito é moral.

Em linguagem simples: se as vítimas dignas são sempre as mesmas, a empatia torna-se fronteira00

O que muda quando mudamos a régua

Há sinais claros de que uma redação está a cair nesta armadilha. Quando fala de “números” sem nomes durante semanas. Quando mostra destroços sem pessoas. Quando usa imagens fornecidas por forças militares sem contextualização. Quando a pergunta principal é “o que isto significa para nós?” e nunca “o que isto fez a eles?”.

Há também remédios possíveis, sem heroísmos de gabinete:

  • Dar espaço a jornalistas locais e a testemunhos civis, não apenas a porta-vozes.
  • Explicar limites: “não conseguimos verificar”, “não há acesso”, “esta imagem foi fornecida por X”.
  • Trocar a contabilidade pela identificação sempre que possível: um nome, um rosto, uma história curta.
  • Recusar o vocabulário que lava sangue (“colateral”) e escolher palavras que descrevam factos.
  • Inverter o enquadramento, às vezes, é o gesto mínimo para devolver humanidade: primeiro as pessoas, depois a estratégia.

E fica a síntese, quase um aforismo, para levar para o sofá onde se vê o telejornal: uma guerra torna-se aceitável quando as suas vítimas deixam de ser pessoas.

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