Milei resultados economia: o Chega elogia os números, mas ignora os custos sociais? - Sociedade Civil
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Resumo

  • O próprio dossiê refere que o Chega usa o primeiro excedente orçamental argentino desde 2008 como prova de eficácia, ao lado da descida da inflação e da valorização de ações e obrigações nos mercados.
  • A reforma laboral, promulgada a 6 de março de 2026, abriu a porta a jornadas até 12 horas diárias【327274031924649†L200-L204】 com banco de horas【555354542762333†L285-L295】, alterou o cálculo das indemnizações e reforçou mecanismos que podem reduzir o valor das horas extra.
  • Quando o Chega celebra Milei sem discriminar o que admira e o que rejeita, deixa no ar a pergunta.

O Chega encontrou em Javier Milei um argumento de bolso: excedente orçamental, inflação em queda, mercados animados. A narrativa é simples: Milei prova que a austeridade musculada e o corte no Estado produzem resultados imediatos.

O ponto não é negar que houve indicadores macro favoráveis. O próprio dossiê refere que o Chega usa o primeiro excedente orçamental argentino desde 2008 como prova de eficácia, ao lado da descida da inflação e da valorização de ações e obrigações nos mercados. Essa é a vitrina.

Mas o que fica fora do cartaz? O mesmo material sublinha os custos sociais severos do ajustamento: aumento da pobreza em certas regiões, paralisação de obras públicas essenciais e desinvestimento em infraestruturas básicas. A reforma laboral, promulgada a 6 de março de 2026, abriu a porta a jornadas até 12 horas diárias【327274031924649†L200-L204】 com banco de horas【555354542762333†L285-L295】, alterou o cálculo das indemnizações e reforçou mecanismos que podem reduzir o valor das horas extra. Juristas e sindicatos alertam que a suposta voluntariedade entre patrão e trabalhador é frágil quando a relação de forças é desequilibrada.

Poder-se-ia argumentar que toda a estabilização tem custos e que a Argentina partia de um contexto de degradação profunda. Mas transformar estes custos numa nota de rodapé, como se fossem ruído, não é honesto. Quando o Chega celebra Milei sem discriminar o que admira e o que rejeita, deixa no ar a pergunta: pretende importar também a parte áspera do pacote ou só o verniz dos bons números?

Em Portugal, a aplicação integral do modelo mileísta esbarra em diferenças estruturais: dependência do Estado social europeu, quadro constitucional e vínculos comunitários. O Chega pratica um liberalismo de conveniência, pedindo cortes de impostos e combate ao desperdício, mas evita defender um desmantelamento total do Estado. Daquela contabilidade triunfal, sobra uma questão humana: quem suporta o choque enquanto os gráficos melhoram?

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