Resumo
- Entre o Foro de Madrid, impulsionado pela Fundação Disenso, ligada ao Vox, e a constelação da CPAC, que exporta a liturgia conservadora dos Estados Unidos para a Europa e a América Latina, formou-se uma malha onde partidos e líderes da nova direita trocam palco, linguagem, contactos e validação.
- O que está em causa é a montagem de uma rede transatlântica de legitimação, onde o Chega deixa de aparecer como excrescência portuguesa e passa a apresentar-se como ramo local de uma família política mais vasta.
- Em Buenos Aires, na primeira edição argentina da conferência, a 4 de dezembro de 2024, Milei reuniu nomes como Santiago Abascal, Lara Trump e Eduardo Bolsonaro, e usou o palco para defender a organização de uma “internacional de direita”.
O apoio do Chega a Javier Milei não nasceu de um entusiasmo exótico com a política argentina. Nasceu de uma infraestrutura. Entre o Foro de Madrid, impulsionado pela Fundação Disenso, ligada ao Vox, e a constelação da CPAC, que exporta a liturgia conservadora dos Estados Unidos para a Europa e a América Latina, formou-se uma malha onde partidos e líderes da nova direita trocam palco, linguagem, contactos e validação. O Chega entrou nessa corrente cedo; Milei deu-lhe, depois, uma figura de culto com peso presidencial.
O leitor pode olhar para isto e pensar: não será apenas diplomacia partidária, daquelas que servem para fotografias e aplausos? Seria cómodo reduzir tudo a marketing. Mas ficaria curto. O que está em causa é a montagem de uma rede transatlântica de legitimação, onde o Chega deixa de aparecer como excrescência portuguesa e passa a apresentar-se como ramo local de uma família política mais vasta.
A oficina chama-se Iberosfera
O Foro de Madrid define-se, nos seus próprios termos, como uma “aliança internacional contra o socialismo” e apresenta-se como alternativa ao Foro de São Paulo, ao Grupo de Puebla e à Internacional Progressista. A “Carta de Madrid”, lançada em outubro de 2020, fala da Iberosfera como uma comunidade de mais de 700 milhões de pessoas ligadas por herança cultural e linguística.
No papel, a linguagem invoca liberdade, democracia e Estado de direito. Na prática, o que emerge é uma plataforma para articular discursos, inimigos comuns e campanhas coordenadas. O teu dossiê é claro: foi através da Fundação Disenso e do Foro de Madrid que se montaram as bases de uma coligação política onde o Chega surge como representante português ao lado de actores como Vox, La Libertad Avanza e outras direitas radicais ibero-americanas.
Da retórica sobre civilização, sobra uma engenharia política muito concreta.
CPAC: o palco onde a rede se exibe
Se o Foro de Madrid funciona como oficina ideológica, a CPAC funciona como montra. Em Buenos Aires, na primeira edição argentina da conferência, a 4 de dezembro de 2024, Milei reuniu nomes como Santiago Abascal, Lara Trump e Eduardo Bolsonaro, e usou o palco para defender a organização de uma “internacional de direita”. O objetivo era explícito: colocar a Argentina no centro de uma batalha global contra o socialismo e as ideias progressistas.
O dossiê que enviaste encaixa nesse desenho e ajuda a aterrá-lo em português: Ventura esteve na posse de Milei em dezembro de 2023; partilhou o palco “Europa Viva 24” em Madrid; cruzou-se com este ecossistema em fóruns como a CPAC Brasil e a CPAC Argentina; e reapareceu no eixo transatlântico que passou também pela posse de Donald Trump, em janeiro de 2025.
Numa rua lateral de Madrid, à saída de um desses encontros, os fatos escuros, os auriculares, os telemóveis erguidos e os vídeos de quinze segundos contam metade da história. A outra metade passa despercebida: assessores, fundações, ligações partidárias, circulação de slogans. É aí que estas alianças se consolidam.
O papel do Vox e o lugar do Chega
O Vox não aparece aqui como mero anfitrião. Surge como mediador. É a ponte entre a nova direita ibero-americana e as famílias da extrema-direita europeia. Isso vê-se tanto no Foro de Madrid como na evolução do espaço europeu: o partido ultra Patriots.eu, presidido por Santiago Abascal desde novembro de 2024, inclui o Chega entre os seus membros, ao lado de Vox, Fidesz, RN e outras formações nacional-populistas.
Poderiam argumentar que alianças internacionais existem em todas as famílias partidárias. E existem. Socialistas, democratas-cristãos, verdes — todos cultivam redes. A diferença, aqui, está no tipo de circulação: não apenas programas ou resoluções, mas uma gramática de combate que atravessa continentes com velocidade rara. “Casta”, “sistema”, “globalismo woke”, “liberdade”, “motosserra”, “bloco central”: os termos mudam um pouco, o inimigo mantém-se.
O que viaja de um lado para o outro
Viajam símbolos, antes de leis. Viaja a ideia de perseguição. Viaja o bypass aos media. Viaja a convicção de que a agressividade não é custo, é activo. O próprio dossiê sublinha que esta infraestrutura permite “circulação constante de quadros políticos, táticas de campanha e conteúdos digitais” e que a vitória de Milei foi celebrada pelo Chega como validação da sua própria trajetória.
Há uma concessão honesta a fazer: o Chega não copia Milei por inteiro. O partido português continua preso a um eleitorado que depende do Estado social europeu e, por isso, não pode importar sem filtro todo o radicalismo económico do argentino. Mas não precisa. Basta-lhe a rede. Basta-lhe o palco. Basta-lhe a certificação internacional de que a rutura é moderna, global e viável.
Uma aliança destas não se mede só em programas. Mede-se em reconhecimento mútuo.
E é por isso que o encontro entre Chega e Milei, do Foro de Madrid à CPAC, vale mais do que uma amizade política. É uma máquina de circulação. De slogans, de ambição e de poder simbólico.