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Resumo

  • Em tempos de rendas incomportáveis, solidão urbana e exclusão dos jovens, a ideia começa a ganhar terreno — embora lentamente — em Portugal.
  • Custos de construção e manutenção mais baixos, por via da economia de escala e partilha de serviços;.
  • O co-housing não substitui a habitação pública nem resolve sozinho a crise, mas pode ser parte da solução.

Viver em comunidade, partilhar espaços e reduzir custos. Parece idealismo de revista, mas há quem já o faça — e queira mais. O co-housing em Portugal ainda é raro, mas pode ser parte da resposta à crise.

À medida que o mercado habitacional se torna cada vez mais excludente, surgem alternativas fora do radar das soluções tradicionais. Uma delas é o co-housing, modelo cooperativo que combina habitação privada com espaços comuns, autogestão e apoio mútuo. Em tempos de rendas incomportáveis, solidão urbana e exclusão dos jovens, a ideia começa a ganhar terreno — embora lentamente — em Portugal.

Mas será o co-housing uma solução viável para responder à crise habitacional? Ou é apenas mais um nicho urbano, com estética escandinava e alcance limitado?


O que é afinal o co-housing?

O conceito nasceu nos anos 70 na Dinamarca, com grupos de famílias que queriam viver juntas, partilhando cozinha, lavandaria, jardim ou sala de convívio, mas mantendo habitações privadas. A ideia espalhou-se pelo norte da Europa e, mais tarde, pelos EUA e Canadá.

A filosofia é simples: viver com mais cooperação, menos desperdício, mais apoio intergeracional e maior controlo sobre o espaço habitado.

Hoje, o co-housing assume várias formas:

  • Novos projectos construídos de raiz por cooperativas de moradores;
  • Reabilitação de edifícios existentes, transformados em habitação comunitária;
  • Modelos híbridos com habitação pública e gestão colectiva.

Em Portugal, uma semente tímida mas crescente

O movimento ainda é pequeno, mas já tem raízes:

  • Minga Co-housing (Montemor-o-Novo): projecto cooperativo com base agroecológica;
  • Habita+ (Porto): grupo em formação para co-housing intergeracional;
  • Coopérnico + Habitação: rede de energia cooperativa a estudar soluções integradas com habitação partilhada;
  • Lisbon Housing Lab: laboratório urbano da Câmara de Lisboa que inclui o co-housing como opção viável.

No entanto, faltam mecanismos legais e financeiros claros para impulsionar este tipo de habitação.

“Queremos viver juntos, em comunidade, com custos mais justos — mas não há linha de crédito, nem modelo jurídico adaptado”, lamenta Inês Duarte, uma das fundadoras do colectivo Habita+, que tenta viabilizar um prédio cooperativo na zona do Bonfim, no Porto.


As vantagens: mais do que partilha

O co-housing não é só uma solução romântica. Tem benefícios concretos:

  • Custos de construção e manutenção mais baixos, por via da economia de escala e partilha de serviços;
  • Rendas ou prestações mais estáveis, uma vez que o lucro não é o objectivo;
  • Combate à solidão, sobretudo entre idosos ou famílias monoparentais;
  • Maior eficiência energética e uso racional de recursos;
  • Participação activa dos moradores na gestão do espaço — o que reforça o sentimento de pertença.

“Num prédio normal, ninguém fala com ninguém. Aqui, jantamos juntos uma vez por semana, partilhamos ferramentas e tomamos decisões em assembleia”, conta Benedita, 61 anos, moradora num projecto piloto em Évora.


Os obstáculos: lei, banca e mentalidade

Apesar do potencial, há barreiras reais à expansão do co-housing em Portugal:

  1. Falta de enquadramento legal específico: a lei portuguesa reconhece as cooperativas habitacionais, mas não contempla os modelos comunitários como os do norte da Europa;
  2. Dificuldade de acesso a financiamento bancário: os bancos desconfiam de projectos colectivos, sobretudo os que não têm um promotor privado como intermediário;
  3. Burocracia nos licenciamentos: os municípios nem sempre sabem como classificar este tipo de habitação — se é colectiva, multifamiliar, turística, etc.;
  4. Preconceito cultural: muitos associam co-housing a “comunas”, “utopias hippies” ou instabilidade social.

“A legislação está desenhada para a casa unifamiliar ou para o condomínio de luxo. Tudo o que foge ao modelo standard… trava”, diz Filipe Gonçalves, arquitecto e consultor de modelos habitacionais alternativos.


Uma solução para quem?

O co-housing não substitui a habitação pública nem resolve sozinho a crise, mas pode ser parte da solução:

  • Para jovens adultos em início de vida, com rendimentos médios e vontade de viver em comunidade;
  • Para idosos activos, que não querem envelhecer isolados;
  • Para famílias monoparentais, que se apoiam mutuamente;
  • Para profissionais do sector social ou criativo, frequentemente excluídos do mercado convencional.

É, sobretudo, um modelo que reconstrói a ideia de vizinhança, em vez de a entregar ao acaso.


O futuro: institucionalizar sem descaracterizar?

Há sinais positivos. O Governo incluiu o co-housing na Estratégia Nacional de Habitação como modelo a “monitorizar e apoiar”. E algumas autarquias — como Lisboa, Cascais e Braga — estão a estudar cedência de terrenos municipais para cooperativas habitacionais.

Mas os activistas avisam: o risco é transformar o co-housing em produto de mercado, esvaziando a sua lógica comunitária.

“Se deixarmos que os promotores privados co-optem o conceito só para criar ‘condomínios verdes’ caros, perdemos tudo”, alerta Sílvia Correia, urbanista crítica e residente num co-housing em construção na zona de Sintra.


Hipsterismo ou alternativa real?

O co-housing não é para todos. Mas também não é só para hipsters. É para quem acredita que viver pode ser mais do que pagar uma renda e fechar a porta.

Num país onde a solidão cresce, a habitação encarece e a cidade se fragmenta, repensar o modo como habitamos é urgente. O co-housing propõe isso mesmo: menos isolamento, mais partilha, menos lucro, mais comunidade.

E talvez seja essa a revolução silenciosa de que a habitação precisa.

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