Resumo
- O New York Times e a CNN foram acusados de impor directrizes internas que limitam o uso de palavras como “genocídio”, “apartheid” ou “limpeza étnica”, mesmo quando referidas por fontes oficiais como a ONU.
- Estudantes da Columbia University e da New York University foram detidos em protestos pacíficos, sob acusações de “discursos de ódio”, apesar de se terem limitado a exigir o fim do apoio institucional a Israel.
- O Facebook, o Instagram e o X/Twitter têm sido acusados de remover publicações críticas de Israel, bloquear contas de jornalistas palestinianos e esconder hashtags como #FreePalestine ou #GazaGenocide.
Governos, universidades e empresas de comunicação estão a reprimir activistas, jornalistas e artistas que denunciam os crimes cometidos contra o povo palestiniano. Em nome do combate ao “ódio” ou do “equilíbrio”, multiplica-se a censura, os despedimentos e a perseguição ideológica.
Em 2024 e 2025, dezenas de jornalistas perderam o emprego por criticarem a ocupação israelita. Artistas viram exposições canceladas, livros retirados e financiamentos bloqueados. Estudantes e professores foram suspensos por participarem em acções de solidariedade com a Palestina. O que muitos consideram um ataque à liberdade de expressão está a transformar o espaço público num terreno minado — onde defender os direitos humanos dos palestinianos pode custar uma carreira.
Censura em redacções e universidades
Na BBC, a jornalista Mariana Spring foi afastada após ter questionado, numa publicação pessoal, a parcialidade na cobertura da guerra em Gaza. Nos Estados Unidos, o jornalista Nathan Thrall, autor de um livro aclamado sobre a Palestina, viu-se afastado de colunas regulares em vários jornais após críticas à política de apoio incondicional a Israel. O New York Times e a CNN foram acusados de impor directrizes internas que limitam o uso de palavras como “genocídio”, “apartheid” ou “limpeza étnica”, mesmo quando referidas por fontes oficiais como a ONU.
Nas universidades, a repressão também se intensifica. Estudantes da Columbia University e da New York University foram detidos em protestos pacíficos, sob acusações de “discursos de ódio”, apesar de se terem limitado a exigir o fim do apoio institucional a Israel. Em França, o governo de Emmanuel Macron ameaçou dissolver colectivos pró-palestinianos e proibiu manifestações sob pretexto de segurança.
Arte sob vigilância
A censura não poupa o mundo artístico. Em Berlim, a artista Emily Jacir, palestiniana premiada, viu o seu trabalho retirado de uma exposição sob alegada “inadequação ao momento político”. Em Lisboa, o espectáculo “Gaza Mon Amour”, que seria apresentado no Teatro do Bairro, foi alvo de ameaças anónimas e pressões para cancelamento.
O escritor irlandês Sally Rooney viu o seu livro “Beautiful World, Where Are You” ser boicotado por livrarias em Telavive após anunciar apoio ao movimento BDS. Em resposta, mais de 700 autores, incluindo Arundhati Roy, Naomi Klein e Colson Whitehead, assinaram uma carta contra a intimidação cultural promovida por organizações sionistas.
Repressão digital e apagamento de conteúdos
Nas redes sociais, o controlo apertou-se. O Facebook, o Instagram e o X/Twitter têm sido acusados de remover publicações críticas de Israel, bloquear contas de jornalistas palestinianos e esconder hashtags como #FreePalestine ou #GazaGenocide. Um inquérito da Human Rights Watch revelou que o Facebook removeu ou limitou mais de 1,1 milhão de conteúdos pró-palestinianos entre Outubro de 2023 e Abril de 2025.
Plataformas como o TikTok e o YouTube também foram referidas por banir vídeos que mostram destruição em Gaza sob pretexto de “violência gráfica”, enquanto continuam a permitir propaganda militar israelita. Para muitos, trata-se de dupla moral e de um esforço sistemático de silenciamento.
Criminalização e leis anti-BDS
A repressão institucional avança com novas legislações. Em 38 estados dos EUA, foram aprovadas leis que proíbem contratos públicos com entidades que apoiem o BDS. Na Alemanha, o parlamento classificou o movimento de boicote como “antissemita”, apesar das críticas de juristas e intelectuais.
Em Portugal, embora sem legislação formal, há sinais de pressão crescente. Vários municípios cancelaram eventos ligados à causa palestiniana por receio de represálias diplomáticas. Activistas relataram interrogatórios pela PSP após participarem em acções simbólicas como pintar murais ou colar cartazes.
Uma nova maccarthysmo?
“O que está a acontecer é uma nova forma de maccarthysmo, mas em vez de caçar comunistas, caça-se quem defende a Palestina”, afirma a jornalista Yara Hawari, do think tank Al-Shabaka. “É um ataque frontal à liberdade de expressão e ao direito à dissidência.”
A filósofa norte-americana Judith Butler, que viu várias das suas conferências canceladas na Europa, acrescenta: “Estão a construir um regime de medo. A solidariedade tornou-se perigosa — e, por isso mesmo, é mais necessária do que nunca.”
Resistir ao silenciamento
Apesar da repressão, a resistência cresce. Organizações como o Palestine Legal, a Adalah e a European Legal Support Center oferecem apoio jurídico a estudantes, jornalistas e artistas perseguidos. Plataformas alternativas como o Mondoweiss e o Electronic Intifada garantem cobertura independente do que se passa em Gaza e na Cisjordânia.
Em Lisboa, Porto, Coimbra e Braga, colectivos de base continuam a organizar protestos, vigílias e acções de rua. “Não nos calarão”, afirmou em Maio a activista Inês Ferreira, do movimento “Mudar o Mundo”. “Porque quando a palavra é reprimida, o silêncio mata.”