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Resumo

  • “Se um povo é retratado como inferior, irracional ou perigoso por natureza, o uso da força extrema torna-se mais aceitável”, explica a investigadora Rita Santos, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
  • A título ilustrativo, enquanto as mortes de três civis israelitas em Outubro de 2023 abriram todos os noticiários, o bombardeamento de uma escola da UNRWA com 57 mortos palestinianos foi relegado para segundos planos, sem imagens nem nomes.
  • O uso reiterado de linguagem que nega a humanidade de um povo pode ser, segundo a Convenção da ONU de 1948, um dos indicadores do crime de genocídio.

Analistas e organizações de direitos humanos alertam para o uso sistemático de uma linguagem desumanizante quando se fala da Palestina. Termos como “animais”, “humanos por pouco” ou “baratas” têm sido repetidos por líderes políticos, comentadores e até meios de comunicação, contribuindo para a legitimação da violência e para a indiferença perante milhares de mortes civis.

As declarações públicas de figuras israelitas, incluindo membros do governo, têm vindo a escalar em agressividade. Durante uma intervenção em Outubro de 2023, o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, afirmou: “Estamos a combater animais humanos”. A frase correu o mundo, mas não gerou qualquer sanção internacional. Ao contrário: foi replicada por líderes europeus e norte-americanos como se fosse uma mera expressão da retórica da guerra.

Desumanização como arma de propaganda

Especialistas em direitos humanos consideram que estas declarações se inserem numa estratégia deliberada de desumanização, usada para justificar crimes de guerra, bloqueios, cercos e bombardeamentos indiscriminados. “Se um povo é retratado como inferior, irracional ou perigoso por natureza, o uso da força extrema torna-se mais aceitável”, explica a investigadora Rita Santos, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

O fenómeno não é novo. Desde a Nakba (1948), a propaganda sionista tem recorrido a imagens de “selvajaria”, “atraso cultural” ou “terrorismo congénito” para deslegitimar as reivindicações palestinianas. Nos meios de comunicação ocidentais, o tratamento desigual dos mortos — com foco quase exclusivo nas vítimas israelitas e omissão da identidade das vítimas palestinianas — contribui para uma perceção assimétrica do sofrimento.

Meios de comunicação reproduzem sem questionar

Estudos recentes revelam que, nos principais jornais e televisões dos Estados Unidos e da Europa, os palestinianos são frequentemente representados como ameaças abstractas, sem rosto nem voz. Expressões como “alvo legítimo”, “neutralizados” ou “danos colaterais” são usadas para encobrir mortes de civis, incluindo mulheres e crianças.

Um relatório da organização Fairness and Accuracy In Reporting (FAIR), publicado em Março de 2025, analisou mais de mil artigos publicados durante os primeiros seis meses da ofensiva em Gaza. Conclusão: a linguagem utilizada para descrever as vítimas palestinianas é desumanizante ou eufemística em mais de 70% dos casos.

Na televisão portuguesa, também se registam exemplos de enviesamento. A título ilustrativo, enquanto as mortes de três civis israelitas em Outubro de 2023 abriram todos os noticiários, o bombardeamento de uma escola da UNRWA com 57 mortos palestinianos foi relegado para segundos planos, sem imagens nem nomes.

O impacto na opinião pública

Esta desumanização tem efeitos concretos. Ao serem sistematicamente retratados como “massa indistinta”, os palestinianos perdem, aos olhos do mundo, a sua condição de sujeitos políticos e humanos. Torna-se mais difícil gerar empatia, organizar solidariedade ou exigir responsabilização legal pelos crimes cometidos.

“As palavras moldam a percepção. E a percepção molda a acção”, sublinha o linguista e activista Noam Chomsky. “Se aceitarmos que há vidas menos valiosas do que outras, abrimos caminho ao genocídio.”

A linguagem do genocídio

O Tribunal Penal Internacional, no âmbito da queixa apresentada pela África do Sul contra Israel, está a investigar se certas declarações públicas constituem incitamento directo ao genocídio. Entre elas, constam frases como: “varrer Gaza do mapa”, “acabar com a geração do terror” ou “não há civis em Gaza”.

O uso reiterado de linguagem que nega a humanidade de um povo pode ser, segundo a Convenção da ONU de 1948, um dos indicadores do crime de genocídio. A jurisprudência internacional (Ruanda, Bósnia) reconhece que o incitamento verbal tem um papel directo na preparação e legitimação de massacres em massa.

Contra a barbárie, a afirmação da humanidade

Frente a este discurso violento, surgem também vozes que insistem na dignidade e humanidade do povo palestiniano. Organizações como a Defence for Children International, o Palestine Red Crescent Society e centenas de académicos e artistas mantêm viva a memória das vítimas, com nomes, rostos, histórias.

Nas redes sociais, projectos como “Gaza Narratives” ou “We Are Not Numbers” publicam testemunhos na primeira pessoa, com o objectivo de reconstruir o tecido humano por detrás das estatísticas. “Quero que o mundo saiba o nome da minha filha, e que ela gostava de dançar”, escreveu Ahmad, pai de uma criança morta num ataque aéreo.

A luta pela Palestina é, também, uma batalha contra a desumanização. Rejeitar uma linguagem que transforma pessoas em alvos é um acto de resistência — e de consciência.

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