Resumo
- os EUA devem abandonar o conceito de direitos universais e adotar uma interpretação “americana” dos direitos humanos, centrada na propriedade, segurança pessoal e liberdade religiosa — nos termos definidos pela ala conservadora cristã.
- Mas a influência dos EUA é tal que mesmo um relatório manipulado continua a ser citado em processos judiciais, relatórios de outras nações e decisões de organismos financeiros internacionais.
- O novo discurso dos direitos humanos — centrado em “valores cristãos”, segurança fronteiriça e combate ao “globalismo” — ressoa entre as bases evangélicas e ultraconservadoras que sustentam a maioria republicana no Congresso.
Com a segunda administração de Donald Trump, os Estados Unidos oficializaram uma ruptura radical com o multilateralismo que moldou a política externa norte-americana desde o pós-guerra. Mas se há uma área onde essa mudança passou despercebida do grande público, foi na esfera dos direitos humanos. O relatório de 2025 do Departamento de Estado é apenas a superfície visível de um realinhamento ideológico profundo: a transformação dos direitos humanos numa ferramenta da doutrina “America First”.
No centro dessa viragem está o Project 2025, um plano estratégico de mais de 900 páginas promovido pela ultraconservadora Heritage Foundation. O seu objetivo? Reestruturar toda a máquina do Estado federal para impor uma visão nacionalista, teocrática e hostil à linguagem universal dos direitos humanos.
O Project 2025: Manual de captura institucional
Desenvolvido por mais de 50 organizações de direita radical, o Project 2025 não é apenas um documento programático. É um roteiro operacional para transformar a administração federal numa extensão da ideologia trumpista. E os direitos humanos estão na mira direta.
Na secção dedicada à política externa, o plano propõe:
- Abolir o Bureau of Democracy, Human Rights and Labor (DRL), substituindo-o por uma entidade “que promova os verdadeiros valores americanos”;
- Cessar toda a cooperação com o Conselho de Direitos Humanos da ONU, considerado “instrumento de globalistas e inimigos dos EUA”;
- Redefinir os direitos humanos com base nos “princípios judaico-cristãos”;
- Eliminar a linguagem de género, identidade e orientação sexual dos documentos oficiais.
A tese central é simples e brutal: os EUA devem abandonar o conceito de direitos universais e adotar uma interpretação “americana” dos direitos humanos, centrada na propriedade, segurança pessoal e liberdade religiosa — nos termos definidos pela ala conservadora cristã.
“O Estado não deve ser neutro em matéria de moralidade. Os direitos humanos devem refletir a ordem moral natural.”
— Heritage Foundation, Project 2025, p. 473
De Washington ao mundo: Uma nova diplomacia moralista
A aplicação prática desta doutrina é visível no Relatório de Direitos Humanos de 2025, agora controlado por assessores políticos da Casa Branca e editado com critérios ideológicos. Termos como “identidade de género”, “direitos reprodutivos”, “liberdade de imprensa” ou “direitos LGBTQ+” foram eliminados ou substituídos por fórmulas como “liberdade religiosa” ou “proteção da vida”.
Simultaneamente, a política externa passou a premiar regimes autoritários aliados (Egipto, Israel, Arábia Saudita) com silêncios estratégicos, enquanto intensifica críticas a rivais como China, Irão ou Cuba, independentemente da gravidade relativa das violações.
“A diplomacia norte-americana deixou de ser universalista. É agora punitiva e tribal.”
— Sarah Cleveland, jurista e ex-candidata dos EUA ao Tribunal Internacional de Justiça
Em fóruns internacionais, os EUA recusam-se a subscrever declarações conjuntas que contenham referências a “equidade de género”, “direitos sexuais e reprodutivos” ou “populações racializadas”. A linguagem jurídica internacional está a ser sistematicamente boicotada.
Um golpe silencioso no sistema internacional
A ONU e outras entidades multilaterais têm reagido com crescente alarme. A Alta Comissária Adjunta para os Direitos Humanos, Nada Al-Nashif, alertou que “a maior potência mundial está a desmantelar, por dentro, os pilares do sistema internacional de proteção”. Já o Parlamento Europeu aprovou, em julho de 2025, uma resolução classificando o novo relatório dos EUA como “politicamente enviesado, eticamente irresponsável e legalmente inconsequente”.
Mas a influência dos EUA é tal que mesmo um relatório manipulado continua a ser citado em processos judiciais, relatórios de outras nações e decisões de organismos financeiros internacionais. A consequência é clara: a verdade factual perde terreno para a conveniência geopolítica.
Direitos humanos à medida do eleitorado
Internamente, esta viragem é parte de uma estratégia eleitoral. O novo discurso dos direitos humanos — centrado em “valores cristãos”, segurança fronteiriça e combate ao “globalismo” — ressoa entre as bases evangélicas e ultraconservadoras que sustentam a maioria republicana no Congresso.
O relatório de 2025 não é apenas um produto ideológico: é também um sinal de fidelidade política. Entre os redatores nomeados, encontram-se nomes como Roger Severino (ex-diretor do Office for Civil Rights), Elaine Donnelly (conhecida opositora de direitos trans nas Forças Armadas) e Christopher Rufo (ideólogo da guerra cultural contra o “marxismo cultural”).
“A política externa é agora uma extensão da cultura de guerra interna.”
— Anne Applebaum, historiadora e colunista
Reações e resistência
Organizações como a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional reagiram com campanhas de denúncia e mobilização diplomática. Mas enfrentam obstáculos sem precedentes: o isolamento institucional dos EUA, a expulsão de peritos das comissões de revisão, o boicote a compromissos multilaterais.
Mesmo dentro dos Estados Unidos, ex-diplomatas e funcionários do Departamento de Estado fundaram redes informais para contestar internamente o relatório. Um movimento chamado “Restore DRL” propõe restaurar a independência técnica dos relatórios e reintegrar os padrões internacionais.
“Precisamos de mais do que resistência. Precisamos de reconstrução.”
— Linda Thomas-Greenfield, ex-embaixadora dos EUA na ONU
O que está em jogo?
Se os direitos humanos deixam de ser universais, perdem força como linguagem comum entre povos e Estados. Tornam-se moeda de troca, bandeira ideológica, ou mero instrumento de guerra política.
É esse o futuro que o Project 2025 propõe. Um futuro em que o poder define a verdade, e os direitos existem apenas para os que obedecem.
Será esse o papel que os EUA querem no mundo?