Resumo
- Ao eliminar menções a crimes de guerra, perseguições políticas e violações sistemáticas dos direitos das mulheres, das minorias e das pessoas LGBTQ+, os EUA não só falham no dever de denunciar — passam a atuar como cúmplices silenciosos de regimes que prosperam na sombra da omissão.
- Na secção dedicada a Israel e aos Territórios Palestinianos, o relatório de 2025 omitiu por completo as denúncias de crimes de guerra, o uso da fome como arma de cerco, os ataques a hospitais e escolas, e a deslocação forçada de milhões de palestinianos.
- A narrativa oficial descreve o país como “estável” e “em processo de reforma”, quando até os próprios relatórios do Congresso dos EUA alertam para o autoritarismo crescente de Nayib Bukele.
Há silêncios que matam. E há palavras cuidadosamente omitidas que, pela sua ausência, permitem que crimes se repitam, que regimes se fortaleçam e que vítimas sejam esquecidas. O relatório de direitos humanos dos Estados Unidos de 2025, publicado sob a presidência de Donald Trump, não é apenas um documento técnico alterado. É um manifesto de censura estratégica que tem efeitos reais: consolida a impunidade e encoraja autocratas.
Ao eliminar menções a crimes de guerra, perseguições políticas e violações sistemáticas dos direitos das mulheres, das minorias e das pessoas LGBTQ+, os EUA não só falham no dever de denunciar — passam a atuar como cúmplices silenciosos de regimes que prosperam na sombra da omissão.
Censura institucionalizada: quando o Estado escolhe o que não ver
Desde a sua criação, em 1977, o Country Report on Human Rights Practices serviu como um dos barómetros mais influentes para a avaliação global das liberdades fundamentais. Mesmo quando criticado por parcialidade ou por refletir interesses estratégicos, o relatório nunca havia sido tão manipuladamente seletivo como na versão de 2025.
A remoção de fontes da ONU, da HRW, da Amnistia Internacional e de outras ONGs independentes não é apenas um gesto ideológico. É uma adulteração da realidade, com implicações que se estendem para muito além das fronteiras norte-americanas.
“Ao apagar provas, os EUA enfraquecem os mecanismos de responsabilização internacional. Deixam espaço para que a violência se repita.”
— Kenneth Roth, ex-diretor executivo da HRW
Gaza, El Salvador, Arábia Saudita: geografias da impunidade
Na secção dedicada a Israel e aos Territórios Palestinianos, o relatório de 2025 omitiu por completo as denúncias de crimes de guerra, o uso da fome como arma de cerco, os ataques a hospitais e escolas, e a deslocação forçada de milhões de palestinianos. Um apagamento que contrasta com os alertas da ONU, da OMS e da Cruz Vermelha Internacional.
Em El Salvador, os massacres silenciosos de opositores políticos e as prisões arbitrárias em massa desaparecem do radar do Departamento de Estado. A narrativa oficial descreve o país como “estável” e “em processo de reforma”, quando até os próprios relatórios do Congresso dos EUA alertam para o autoritarismo crescente de Nayib Bukele.
Na Arábia Saudita, as execuções públicas, a repressão a jornalistas e a perseguição a dissidentes — antes mencionadas com regularidade — evaporaram-se. O resultado é claro: os regimes percebem que os custos da repressão diminuíram.
“A omissão é lida pelos autocratas como sinal verde. A censura americana encoraja a brutalidade.”
— Natalie Samarasinghe, Open Society Foundations
O fim da função dissuasora
O relatório de direitos humanos dos EUA sempre funcionou — com todos os seus defeitos — como instrumento de pressão e dissuasão. Para muitos governos, aparecer na lista negra era motivo de embaraço internacional e obstáculo à obtenção de ajuda externa ou acordos comerciais.
Em 2025, esse efeito desaparece. Regimes que antes eram criticados, agora são ignorados. As violações deixam de ser documentadas. E quando não são documentadas, deixam de existir — pelo menos politicamente.
É o triunfo da lógica da conveniência sobre a ética da verdade.
Quando o apagamento gera jurisprudência
O impacto não é apenas diplomático ou moral. É jurídico. Tribunais de imigração, organismos internacionais e mesmo instâncias do Banco Mundial e do FMI recorrem a este relatório como base factual. O seu uso como prova está a resultar em rejeições de pedidos de asilo, negação de ajudas humanitárias e legitimação de políticas repressivas.
“Transformaram um instrumento de defesa em arma de exclusão.”
— Rachel Schmidtke, Refugees International
Em países como o Reino Unido e o Canadá, já se multiplicam os alertas sobre o risco de confiar em relatórios que perderam credibilidade. Mas muitos sistemas jurídicos ainda tratam o Country Report como verdade oficial.
O impacto psicológico e simbólico
Para as vítimas, o apagamento tem um efeito devastador. Não basta sobreviver à violência: é necessário ver essa violência reconhecida. Quando os factos desaparecem do papel, desaparecem também da memória política. As vítimas tornam-se fantasmas e os perpetradores, senhores da narrativa.
Num testemunho anónimo recolhido pela Amnistia, uma mulher palestiniana que perdeu três filhos num ataque aéreo a uma escola da UNRWA em Khan Younis em abril de 2025 disse:
“Mataram-me os filhos. E agora querem apagar a história.”
O silêncio como política de Estado
Não é apenas o que se diz. É o que se escolhe calar. Sob a Administração Trump, os EUA institucionalizaram o silêncio como política externa. Um silêncio cirúrgico, aplicado onde interessa manter alianças, preservar negócios, evitar embaraços.
Essa opção não é neutra. É uma declaração de valores invertida, onde os direitos humanos existem apenas quando coincidem com os interesses estratégicos de Washington.
E agora?
Num mundo em que a verdade está sob ataque constante, a censura em relatórios oficiais torna-se ainda mais perigosa. Porque confunde aliados, desinforma o público e protege os abusadores. Porque mata simbolicamente aqueles que já foram violentados fisicamente.
A denúncia desta manipulação não é apenas uma obrigação jornalística. É um ato de memória. Um compromisso com as vozes que os relatórios tentam calar.