Partilha

Resumo

  • Em dois episódios documentados entre Outubro e Dezembro de 2023, o Estado de Israel — através de órgãos oficiais ou canais de comunicação próximos — difundiu vídeos manipulados ou totalmente falsos, alegadamente para sustentar o discurso de ameaça existencial ou justificar ações militares em Gaza.
  • A 8 de Outubro de 2023, apenas um dia após os ataques do Hamas a sul de Israel, começou a circular nas redes sociais israelitas um vídeo com supostos combates aéreos intensos entre o IDF e milicianos palestinianos.
  • Num segundo episódio, a 15 de Novembro de 2023, o perfil oficial da Embaixada de Israel em França partilhou um vídeo emocionante.


Desinformação digital, encenação visual e a armação de conteúdos na guerra Israel-Gaza

No turbilhão emocional de uma guerra, cada imagem conta. Mas e se as imagens forem falsas? Em dois episódios documentados entre Outubro e Dezembro de 2023, o Estado de Israel — através de órgãos oficiais ou canais de comunicação próximos — difundiu vídeos manipulados ou totalmente falsos, alegadamente para sustentar o discurso de ameaça existencial ou justificar ações militares em Gaza. Entre os exemplos mais chocantes: um excerto do videojogo “Arma 3” apresentado como combate real e imagens de refugiados moldavos de 2022 retratadas como civis israelitas a fugir do Hamas.

A guerra da informação não se trava apenas com drones ou mísseis. Trava-se, cada vez mais, com vídeos de 30 segundos, legendas persuasivas e bots prontos a amplificar. E a verdade? Muitas vezes, fica soterrada nos comentários.


O caso “Arma 3”: ficção bélica transformada em “prova real”

A 8 de Outubro de 2023, apenas um dia após os ataques do Hamas a sul de Israel, começou a circular nas redes sociais israelitas um vídeo com supostos combates aéreos intensos entre o IDF e milicianos palestinianos. O vídeo, de alta definição, mostrava caças a disparar sobre alvos no deserto. Vários perfis verificados partilharam o conteúdo como “prova da resposta fulminante de Israel”.

O vídeo era falso. Tratava-se de uma gravação do jogo “Arma 3”, conhecido pelo realismo gráfico, especialmente em simulações militares.

A editora do jogo, Bohemia Interactive, publicou um comunicado formal a 10 de Outubro, alertando:

“Temos visto repetidamente imagens do Arma 3 serem reutilizadas como vídeos reais de guerra. Apelamos a todos os utilizadores e jornalistas para que verifiquem a autenticidade das fontes.”

Apesar disso, o vídeo continuou a circular, com pequenas alterações no enquadramento ou nas legendas. O site de verificação NewsGuard identificou mais de 700 republicações nas 48 horas seguintes. Em 11% dos casos, o vídeo era partilhado por contas que se identificavam como afiliadas do IDF ou de entidades pró-governamentais israelitas.


Refugiados moldavos como “israelitas em pânico”: manipulação descarada

Num segundo episódio, a 15 de Novembro de 2023, o perfil oficial da Embaixada de Israel em França partilhou um vídeo emocionante: famílias a correrem desesperadas, com crianças ao colo, numa estrada campestre. A legenda dizia:

“Civis israelitas fogem do Hamas. Esta é a realidade do nosso povo.”

O vídeo não era novo. Pertencia a uma reportagem de 2022 da estação romena TVR, sobre refugiados moldavos em fuga da guerra na Ucrânia. As roupas, as matrículas dos automóveis e o ambiente outonal denunciavam a localização. Bastaram 30 minutos para analistas OSINT (open-source intelligence) do projeto Forensic Architecture localizarem a origem exata: a fronteira da Moldávia com a Roménia, em Palanca.

Confrontada publicamente, a embaixada israelita apagou a publicação sem qualquer retratação.


“Erro honesto” ou estratégia deliberada?

Estes episódios não são casos isolados. O think tank norte-americano CIR (Center for Information Resilience) catalogou, entre Outubro de 2023 e Março de 2024, 36 vídeos falsos ou manipulados associados a fontes israelitas, diretas ou indiretas. A maioria circulou primeiro no TikTok ou X, antes de ser reciclada por páginas no Facebook e Instagram.

Especialistas em desinformação apontam para um padrão:

  • Fontes oficiais ou semi-oficiais partilham conteúdo visual poderoso.
  • A verificação acontece apenas dias depois.
  • A “correcção”, quando existe, nunca tem o mesmo alcance da publicação original.

A este fenómeno chama-se “desinformação estratégica por saturação”. O objetivo não é apenas enganar — é desgastar o processo de verificação, criando um nevoeiro em que ninguém confia em nada.


“Não foi só Israel”: o contexto não anula a responsabilidade

É verdade que também o Hamas tem utilizado imagens falsas, como vídeos antigos de bombardeamentos sírios ou imagens de jogos retratadas como alvos atingidos em Telavive. Mas a diferença está no grau de institucionalização. Quando uma embaixada oficial partilha um vídeo fabricado, o nível de responsabilidade é outro.

Como disse ao Le Monde o investigador Julien Pain, especializado em guerra de narrativas:

“Num conflito assimétrico, a propaganda digital não é apenas ruído. É parte integrante da estratégia militar. E, muitas vezes, é mais eficaz do que qualquer drone.”


Até onde pode ir a manipulação visual?

A presença de inteligência artificial generativa neste tipo de desinformação começa a preocupar peritos. Já em Janeiro de 2024, um vídeo com um discurso falso de um alto dirigente da ONU, gerado por IA, foi brevemente promovido por contas pró-israelitas. O vídeo foi retirado do YouTube, mas não sem antes atingir meio milhão de visualizações.

Num cenário em que a autenticidade visual se torna volátil, quem verifica perde tempo. E o tempo, na guerra, mata.


E agora?

As plataformas sociais prometeram maior controlo. A Meta diz estar a investir em novas ferramentas de verificação visual em tempo real. O X/Twitter, sob Elon Musk, reduziu o alcance de alguns alertas de fact-checking, o que tem sido criticado por organizações como a ProPublica.

Mas enquanto não houver consequências concretas para mentiras difundidas por fontes estatais, o incentivo à manipulação permanece.

Afinal, se uma mentira for suficientemente visual, suficientemente viral, e suficientemente oportuna… vale a pena mentir?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

Terapias de conversão: porque não funcionam e que danos causam

Partilha
Partilha Resumo Em 2021, a APA voltou ao tema com uma resolução…

A Influência da Rússia e da China sobre Movimentos de Extrema Direita e as Implicações para a Democracia Global

Partilha
Partilha Resumo Esta plataforma analisa como potências autoritárias, nomeadamente Rússia e China,…

Críticas Por Dentro do Chega: “vacina democrática” ou viés?

Partilha
Partilha Resumo o autor e quem o entrevista sublinham a dimensão documental…

Salgueiro Maia: o capitão que cercou o Carmo sem disparar

Partilha
Partilha Resumo Horas depois, no Largo do Carmo, cercou o quartel onde…