Partilha

Resumo

  • A 17 de Dezembro de 2023, durante uma conferência de imprensa conjunta com representantes da Defesa, o porta-voz do governo israelita Eylon Levy descreveu as imagens de crianças esqueléticas em Gaza como “instrumentos de propaganda do Hamas”.
  • No entanto, uma análise forense feita por equipas da Associated Press, da CNN e da Al Jazeera provou que pelo menos 11 das imagens mais divulgadas provinham de hospitais e campos de deslocados em Khan Younis e Rafah, captadas por repórteres no terreno entre Outubro de 2023 e Fevereiro de 2024.
  • Mas negar a fome é matar a segunda vez — apagando o sofrimento, calando os pedidos de ajuda e impedindo a mobilização internacional.

A 17 de Dezembro de 2023, durante uma conferência de imprensa conjunta com representantes da Defesa, o porta-voz do governo israelita Eylon Levy descreveu as imagens de crianças esqueléticas em Gaza como “instrumentos de propaganda do Hamas”. Segundo ele, as fotografias tinham origem duvidosa, eram descontextualizadas ou “anteriores à guerra”.

A alegação foi repetida em canais oficiais e contas verificadas nas redes sociais ligadas ao governo israelita. Algumas imagens foram mesmo etiquetadas como deepfakes — uma acusação grave, sem qualquer evidência técnica.

No entanto, uma análise forense feita por equipas da Associated Press, da CNN e da Al Jazeera provou que pelo menos 11 das imagens mais divulgadas provinham de hospitais e campos de deslocados em Khan Younis e Rafah, captadas por repórteres no terreno entre Outubro de 2023 e Fevereiro de 2024.


Crianças reais, fome real

Em Março de 2024, o relatório da ONU para a Segurança Alimentar (IPC) classificou a situação em Gaza como “fome catastrófica”. Os dados eram irrefutáveis:

  • Mais de 1,1 milhões de pessoas em risco iminente de fome (metade da população de Gaza);
  • Mais de 30% das crianças com menos de 5 anos em estado de subnutrição aguda;
  • Casos confirmados de morte por inanição, incluindo bebés.

A UNICEF alertou:

“Estamos a assistir à emergência nutricional mais grave desde a Etiópia em 1984.”

E, apesar de Israel alegar estar a facilitar a entrada de ajuda humanitária, os comboios são frequentemente barrados, inspecionados ou atacados, segundo a OCHA, braço humanitário da ONU.


Um caso emblemático: Farah, 6 meses

Uma imagem captada por um fotógrafo da AFP no Hospital Nasser, em Janeiro, retratava uma bebé — Farah — com os olhos fundos, costelas visíveis e peso estimado em 3,1 kg. A fotografia correu o mundo, mas foi classificada como “fake” por contas ligadas ao Ministério dos Assuntos Estratégicos de Israel, que argumentavam: “os dados clínicos não batem certo com a aparência”.

Contudo, médicos do hospital confirmaram o diagnóstico: marasmo severo por subnutrição calórico-proteica, causado pela escassez de leite, água potável e alimentos desde Novembro.

Farah morreu três dias depois da fotografia ser tirada.


Desinformação institucional: negação como arma

A estratégia de comunicação israelita é clara: enfraquecer o impacto mediático da crise humanitária, rotulando os relatos como falsos, exagerados ou fabricados pelo Hamas.

O jornalista Peter Beaumont, do The Guardian, descreveu o padrão:

“Quando confrontados com provas visuais de sofrimento civil, as autoridades israelitas alternam entre três posições: negação, desvalorização e contra-acusação.”

Esta prática, que lembra os métodos de negacionismo climático ou antivacinação, não é apenas cinismo — é doutrina, segundo analistas do DFRLab.


Quando negar é matar duas vezes

A fome mata. Mas negar a fome é matar a segunda vez — apagando o sofrimento, calando os pedidos de ajuda e impedindo a mobilização internacional.

O especialista em ética humanitária Jan Egeland, da Norwegian Refugee Council, denunciou:

“Negar a fome em Gaza é tão cruel quanto impedi-la com armas. A história não esquecerá.”


E a comunidade internacional?

A pressão aumentou. Em Abril de 2024, a Assembleia-Geral da ONU aprovou uma moção exigindo acesso humanitário irrestrito a Gaza, com 152 votos a favor. Ainda assim, vários Estados europeus abstiveram-se, alegando “falta de clareza operacional”. Israel classificou a resolução como “tendenciosa”.

O tempo passa. A comida não entra. As crianças continuam a definhar.


A pergunta final

Quantas Farahs morrerão antes de admitirmos o óbvio?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

Veto letal: o Conselho de Segurança está obsoleto?

Partilha
Partilha Resumo Desde a fundação da ONU em 1945, cinco países —…

Cúpula de Bogotá adopta seis medidas contra a impunidade internacional

Partilha
Partilha Resumo Bogotá, 28 jul 2025 – A Cúpula de Bogotá terminou…

O Massacre de Gaza por Alexandre: herói civilizador ou tirano sanguinário?

Partilha
Partilha Resumo Quando a cidade caiu, Alexandre ordenou a execução em massa…