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Resumo

  • Paralelamente, trabalhava na Universidade de Bournemouth, no Reino Unido, onde prestava apoio a estudantes com deficiência e colaborava com académicos no desenvolvimento de programas curriculares e gestão de recursos humanos.
  • O país vivia os rescaldos da chamada “revolução WhatsApp”, iniciada em outubro de 2019, que mobilizou mais de um milhão de pessoas contra a corrupção e levou à desvalorização galopante da libra libanesa.
  • No regresso ao Líbano em Fevereiro de 2025, documentei em Beirute a cerimónia fúnebre dos dois secretários-gerais do Hezbollah mortos por Israel – um evento que reuniu mais de um milhão de participantes vindos de todo o mundo, num dos maiores funerais de sempre.

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O meu percurso profissional e académico foi, desde cedo, tudo menos linear. Depois de me especializar em Linguística e Estudos Linguísticos, enveredei por um caminho improvável: tornei-me professor de yoga, profissão que exerci durante mais de uma década. Paralelamente, trabalhava na Universidade de Bournemouth, no Reino Unido, onde prestava apoio a estudantes com deficiência e colaborava com académicos no desenvolvimento de programas curriculares e gestão de recursos humanos.

O ano sabático que se transformou em década

Movido por um desejo antigo, decidi tirar uma licença sem vencimento e dedicar um ano à fotografia e às viagens. Esse plano de doze meses acabou por se estender por dez anos. Sem apoio logístico ou familiar, viajei praticamente sem dinheiro, sempre sozinho, explorando o mundo e descobrindo formas alternativas de viver. Vivi com nómadas em grutas no Alto Atlas, em Marrocos; com anarquistas em ocupações na Eslovénia; com refugiados sírios na Bósnia. Morei na Geórgia, na Croácia e estive várias vezes no Líbano.

O regresso ao Líbano: revolução, pandemia e explosão

Voltei ao Líbano em janeiro de 2020, depois de perder, pela primeira vez na vida, um voo — destino Teerão. Amigos iranianos aconselharam-me a não viajar naquela altura devido à instabilidade no país e ao clima de quase-revolução. Decidi, então, regressar a Beirute, onde já tinha estado em 2016, e reencontrar velhos amigos. Coincidência ou destino, cheguei precisamente quando Hassan Diab tomava posse como primeiro-ministro, após a demissão de Saad Hariri. O país vivia os rescaldos da chamada “revolução WhatsApp”, iniciada em outubro de 2019, que mobilizou mais de um milhão de pessoas contra a corrupção e levou à desvalorização galopante da libra libanesa.

Fui inesperadamente contratado como fotojornalista por um jornal local e comecei a cobrir os protestos. Quando a pandemia de COVID-19 rebentou, fiquei retido no Líbano. A crise agravou-se: escassez de eletricidade, combustíveis e, por fim, a catastrófica explosão no porto de Beirute. Estava a poucos metros do local. Sobrevivi por milagre. Documentei os momentos imediatamente a seguir, o caos, o desespero e a revolta. Infelizmente, as investigações foram sendo bloqueadas, vítimas da corrupção sistémica que mina o país — mesmo quando está em causa um dos maiores desastres não nucleares da história.

Tensão permanente e saída forçada

Em outubro de 2021, continuei a documentar a crise: protestos, tiroteios, e a vida quotidiana numa nação à beira do colapso. Acompanhei de perto as condições de vida dos refugiados palestinianos e sírios, frequentemente ignorados pelas autoridades.

Mas foi em outubro de 2023, um dia após o ataque do Hamas a Israel, que a escalada se tornou perigosa. O Hezbollah declarou apoio ao Hamas e as hostilidades intensificaram-se no sul do país. Em setembro de 2024, os bombardeamentos israelitas atingiram a nossa casa. Eu, a minha esposa e a nossa filha fomos repatriados a 27 de setembro pelo governo português. Após uma curta passagem por Larnaca, no Chipre, regressámos a Lisboa. Ficámos alojados em casa da médica Andreia Castro — a única portuguesa que conheci no Líbano, onde esteve a ajudar vítimas da explosão do porto por iniciativa própria.

No regresso ao Líbano em Fevereiro de 2025, documentei em Beirute a cerimónia fúnebre dos dois secretários-gerais do Hezbollah mortos por Israel – um evento que reuniu mais de um milhão de participantes vindos de todo o mundo, num dos maiores funerais de sempre.no.

O cessar-fogo falhado e a continuação da violência

Desde novembro de 2024, tenho documentado a suposta fase de cessar-fogo. Na prática, Israel violou esse acordo mais de 3.000 vezes. Registam-se bombardeamentos a residências e raptos. Investigo também um conjunto de ataques levados a cabo com “pagers” e “walkie-talkies”, ocorridos em setembro passado, e tento compreender se podem ser legalmente classificados como atos terroristas — à luz do direito internacional humanitário.

Gaza: o genocídio mais documentado da história?

Pessoalmente, considero que o que está a acontecer em Gaza constitui um genocídio — opinião partilhada por reputados académicos, incluindo judeus e israelitas. A intenção genocida foi, aliás, declarada publicamente pelo ex-ministro da Defesa israelita, Yoav Galant, a 9 de outubro de 2023, ao prometer cortar o acesso da população de Gaza a água, alimentos e medicamentos.

A propaganda israelita, conhecida como Hasbara, tem sido implacável. Visa desumanizar os palestinianos e silenciar qualquer crítica. Mas as redes sociais abriram um espaço alternativo de contra-informação. Jovens, menos condicionados pela narrativa oficial, começaram a divulgar vídeos e testemunhos de Gaza. Plataformas como o TikTok tornaram-se tão incómodas para Israel que o governo tentou bani-las.

Netanyahu já reconheceu: Israel está a perder a batalha da opinião pública. O movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) ganha tração a nível global. A solidariedade com o povo palestiniano está a crescer, inclusivamente entre setores da comunidade judaica.

Um precedente perigoso

Israel, acredito, está a caminhar para a sua autodestruição. As atrocidades cometidas não têm trazido ganhos estratégicos, e até membros da Mossad e do Shin Bet começam a criticá-las. O mais preocupante é o precedente. Quando líderes europeus e ocidentais se mantêm silenciosos face a crimes de guerra, a lei internacional perde valor. Se Israel pode invadir, ocupar e destruir sem consequências, o que impede outras potências militares de fazer o mesmo?

Netanyahu já declarou a intenção de ocupar Gaza — tal como ocupa, ilegalmente, partes da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental, do Líbano e da Síria. A ausência de sanções internacionais é uma luz verde para a continuação da agressão.

Um apelo urgente à acção

É urgente que as pessoas se informem, que questionem os seus preconceitos e analisem os factos. O genocídio em Gaza é o mais documentado da história da humanidade. Ignorá-lo é uma forma de cumplicidade.

É também tempo de ampliar a solidariedade para outras crises ignoradas: Sudão, Congo, Ucrânia. A defesa do direito internacional não é uma causa distante — é o único escudo que temos contra o regresso da barbárie.

Não podemos permitir que a violação das leis internacionais se torne normal. Não podemos permitir que mais genocídios sejam cometidos em nome do silêncio.

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