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Resumo

  • Inicialmente a favor da vacinação em massa, passou a criticar o “pânico sanitário” e, mais tarde, acusou o governo de usar a pandemia para “controlar os cidadãos”.
  • Este fenómeno, identificado pela psicologia cognitiva como “feito de racionalização pós-facto”, leva os apoiantes a justificar a contradição com base na confiança no líder, e não na coerência do argumento.
  • Se hoje Ventura defende A e amanhã B, quem o tenta confrontar com a contradição é acusado de “perseguir”, “travar o debate” ou “focar-se em detalhes”.

O discurso político tradicional baseia-se — pelo menos em teoria — num contrato implícito com o eleitorado: coerência, transparência e responsabilidade. André Ventura e o Chega, porém, optaram por rasgar esse contrato. A cada ciclo mediático, o partido reformula as suas posições, altera interpretações anteriores e avança com declarações contraditórias sem prestar contas ou justificar recuos.

Este padrão, longe de ser um sinal de fraqueza ou impreparação, é parte integrante da estratégia comunicacional do Chega. Como demonstrado pelo relatório da RAND Corporation, a propaganda russa contemporânea recorre deliberadamente à incoerência como táctica para desorientar, esgotar e neutralizar o pensamento crítico do público. Ventura segue essa cartilha com a destreza de quem compreendeu que, na era da velocidade, a memória é um obstáculo descartável.

Quando os factos mudam, Ventura muda com eles — ou apesar deles

Exemplos de contradições não faltam. Eis alguns, devidamente documentados:

Prisões perpétuas e pena de morte: Em 2020, Ventura afirmou não defender a pena de morte “em nenhuma circunstância”. Em 2022, sugeriu um referendo sobre o tema. Em 2023, disse que Portugal deveria “debater seriamente a pena de morte para terroristas”.

Vacinas contra a COVID-19: Inicialmente a favor da vacinação em massa, passou a criticar o “pânico sanitário” e, mais tarde, acusou o governo de usar a pandemia para “controlar os cidadãos”.

Rendimento social de inserção: Já defendeu a sua extinção total. Depois propôs “condições mais rígidas”. Em campanha de 2024, admitiu manter o apoio “em casos específicos”. O alvo deixou de ser o subsídio em si e passou a ser “os abusos”.

Migrações: Ventura já elogiou a importância da imigração em 2018 (“sem imigrantes, muitos sectores colapsariam”), mas nos últimos dois anos transformou o tema num dos eixos centrais do seu discurso securitário e xenófobo.

Estas mudanças de posição não são meras adaptações ao contexto político. São instrumentos de manipulação narrativa: mudando frequentemente de opinião, o Chega evita fixar-se numa posição susceptível de ser desmontada e força os seus críticos a andar constantemente atrás do prejuízo.

O efeito da confusão: quando a verdade perde importância

Segundo o relatório da RAND, a incoerência na propaganda russa não prejudica a sua eficácia comunicativa, pelo contrário. Ajuda a baralhar o receptor, quebra o fluxo lógico da análise e cria um ambiente onde “nada é certo, logo tudo é possível”. Esta ambiguidade permanente enfraquece o contraditório e desmobiliza a resistência intelectual dos cidadãos.

O Chega aplica esta táctica com particular eficácia junto do seu eleitorado de base. Cada nova posição contraditória é justificada como “sinceridade”, “capacidade de adaptação” ou “prova de que Ventura não é como os outros”. A narrativa passa a ser emocional e personalizada, desligada dos conteúdos concretos.

Este fenómeno, identificado pela psicologia cognitiva como “feito de racionalização pós-facto”, leva os apoiantes a justificar a contradição com base na confiança no líder, e não na coerência do argumento. Em vez de penalizar a mudança de discurso, muitos eleitores interpretam-na como prova de inteligência táctica.

Fact-checking em loop: um trabalho de Sísifo

Plataformas como o Polígrafo e o Observador têm registado dezenas de declarações de Ventura classificadas como falsas ou enganosas. No entanto, ao contrário do que se poderia esperar, essas correcções raramente têm impacto no núcleo duro do apoio ao Chega. Porquê?

Porque a quantidade de contradições mina a própria lógica da correcção. Se hoje Ventura defende A e amanhã B, quem o tenta confrontar com a contradição é acusado de “perseguir”, “travar o debate” ou “focar-se em detalhes”. A táctica funciona como um jogo de espelhos onde tudo é relativo e o escrutínio é pintado como censura.

Mais grave ainda: ao repetir versões opostas dos mesmos factos, o Chega ocupa o centro do discurso. Mesmo quando corrigido, Ventura impõe o seu tema — e obriga os media a reagir-lhe.

“Mas não foi isso que disseste antes?” — E depois?

Na lógica clássica do discurso político, esta pergunta seria fatal. Em Ventura, torna-se irrelevante. A imprevisibilidade é cultivada como atributo. E se os jornalistas, investigadores ou adversários o confrontam com evidências de contradição, a resposta é a mesma: “não me lembrava”, “isso é irrelevante”, ou — mais frequentemente — mudança de assunto com novo escândalo verbal.

A ausência de responsabilidade discursiva desliga o debate do seu eixo racional. Em vez de disputar ideias, Ventura disputa a atenção. Não lhe interessa ganhar a discussão, mas destruir a possibilidade de que esta tenha regras.

O que pode a verdade contra a volatilidade?

A longo prazo, a acumulação de contradições corrói a confiança do público nas instituições e nas regras do jogo. Quando se normaliza a ideia de que “todos os políticos mentem”, quem mente mais — e com mais descaramento — pode até sair beneficiado. A erosão da consistência discursiva serve para nivelar tudo por baixo.

A democracia não exige pureza, mas precisa de coerência mínima para que o escrutínio funcione. Se o público já não sabe qual a posição de um partido sobre temas fundamentais, como pode responsabilizá-lo? Como pode votar com base em propostas se estas mudam todas as semanas?

Conclusão: a coerência não é um detalhe — é um pilar da democracia

A política não é matemática, mas não pode ser um jogo de truques. André Ventura transformou a incoerência estratégica num método eficaz de evasão, de manipulação e de conquista de tempo de antena. O Chega repete hoje o que a propaganda russa aperfeiçoou: usar o caos para dominar o campo de batalha comunicacional.

O desafio, para jornalistas, académicos e cidadãos, é resistir à tentação de desvalorizar estas contradições como folclore. São sintomas de um fenómeno maior: a substituição do argumento pelo ruído, do conteúdo pela forma, da responsabilidade pelo espectáculo.

O que Ventura diz hoje importa. Sobretudo quando não bate certo com o que disse ontem. E é precisamente por isso que devemos manter registos, fazer linhas do tempo, e lembrar: a memória é a primeira trincheira contra a desinformação.

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