Resumo
- Lisboa, 10 ago 2025 – O bloqueio prolongado e a escassez de bens essenciais em Gaza alimentam um mercado negro que explora o desespero da população.
- A UNRWA e outras agências insistem que apenas a abertura consistente de corredores humanitários e a entrada regular de bens essenciais poderão quebrar o ciclo de especulação e de exploração.
- Até lá, a sobrevivência de muitos palestinianos continuará a depender de um mercado paralelo onde a fome tem preço — e é alto.
Lisboa, 10 ago 2025 – O bloqueio prolongado e a escassez de bens essenciais em Gaza alimentam um mercado negro que explora o desespero da população. Segundo a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), alimentos básicos como farinha, arroz e leite em pó chegam a ser vendidos a preços dez vezes superiores ao valor habitual.
A rede de contrabando envolve intermediários que conseguem fazer entrar mercadorias através de passagens não oficiais ou mediante subornos em postos de controlo. “Compro um saco de farinha por 200 shekels [cerca de 50 euros], mas não tenho escolha — é isso ou não comer”, relatou à Lusa uma mãe de quatro filhos no campo de refugiados de Jabalia.
Escassez e inflação
A limitação da entrada de camiões com ajuda humanitária criou um défice grave de oferta. Nos mercados locais, bancas antes cheias exibem apenas alguns legumes e conservas. Produtos frescos, como fruta ou carne, tornaram-se artigos de luxo. O Programa Alimentar Mundial (WFP) alerta que esta dinâmica não só agrava a insegurança alimentar, como exclui os mais pobres, que não têm qualquer acesso ao mercado paralelo.
Impacto social
O fenómeno reforça desigualdades: famílias com acesso a divisas estrangeiras ou remessas de parentes no exterior conseguem pagar os preços inflacionados, enquanto as restantes dependem unicamente de distribuições esporádicas da UNRWA. “O mercado negro está a tornar-se um mecanismo de sobrevivência para alguns e uma sentença de fome para muitos outros”, disse um coordenador local da ONG Oxfam.
Risco de violência
Autoridades locais alertam para o aumento de confrontos e assaltos durante a chegada de mercadorias, legais ou não. Em alguns casos, a distribuição de ajuda humanitária foi interrompida por grupos que a desviaram para revenda clandestina.
A UNRWA e outras agências insistem que apenas a abertura consistente de corredores humanitários e a entrada regular de bens essenciais poderão quebrar o ciclo de especulação e de exploração. Até lá, a sobrevivência de muitos palestinianos continuará a depender de um mercado paralelo onde a fome tem preço — e é alto.