Resumo
- Na ânsia de mobilizar o ressentimento identitário, o Chega cruzou a última fronteira.
- A exposição de menores sem consentimento pode violar o RGPD, a Lei 58/2019 e a Convenção sobre os Direitos da Criança.
- Porque quando o nome de uma criança se torna arma, está em jogo não apenas a legalidade, mas a própria ideia de humanidade.
Na ânsia de mobilizar o ressentimento identitário, o Chega cruzou a última fronteira: usou nomes de crianças como projéteis num debate político. O Parlamento assistiu. A justiça hesita. E os menores, expostos sem defesa, carregam agora o peso de uma estratégia de ódio.
Lisboa, 1 de Agosto de 2025 — Na folha branca, os nomes estavam alinhados, escritos à mão, com sublinhados a marcador. A folha apareceu primeiro num vídeo publicado por Rita Matias, deputada do Chega, no TikTok. Em segundos, espalhou-se por grupos de Telegram, páginas anónimas no X (ex‑Twitter) e fóruns digitais da extrema‑direita.
A mensagem era clara: estas crianças — com nomes árabes, africanos, não lusófonos — são privilegiadas nas escolas públicas. O objetivo era gerar indignação contra uma alegada discriminação dos “portugueses de verdade”. O vídeo viralizou. Três dias depois, André Ventura levava a mesma lista ao Parlamento. Leu cada nome com pausas dramáticas. Enfatizou a sonoridade estrangeira. E concluiu: “Este é o país onde os nossos ficam para trás”.
“Armas de papel”: quando o nome da criança se torna munição
Num país plural, a infância deveria ser território sagrado. Mas, para a extrema‑direita, a criança torna‑se um recurso discursivo eficaz: vulnerável, emocional, mobilizador. “O nome da criança funciona aqui como metonímia”, explica a linguista Sílvia Miguel. “Não interessa quem ela é; interessa o que representa: o ‘outro’, o ‘intruso'”. Ao repetir nomes como “Youssef”, “Fatou” ou “Abdul”, o discurso associa etimologia à suspeição e à falsa ideia de privilégio.
Entre o código penal e o silêncio político
A exposição de menores sem consentimento pode violar o RGPD, a Lei 58/2019 e a Convenção sobre os Direitos da Criança. Mas a imunidade parlamentar protege deputados pelo que dizem no hemiciclo. Juristas como Vera Antunes lembram: “A imunidade não é licença para violar direitos fundamentais”. Ainda assim, até agora não houve qualquer sanção.
Pais invisíveis, crianças vulneráveis
As famílias, em grande parte migrantes, vivem entre o choque e o receio. Amina S., mãe de um dos meninos citados, conta: “Pensei que fosse um erro. Depois percebi que estavam a usar o nome dele para dizer que ele não devia estar aqui. Como explico isso ao meu filho?”. Muitas crianças passaram a ser alvo de provocações na escola: “Tu não és dos nossos”, dizem‑lhes.
Um plano político deliberado
O episódio não é isolado. Faz parte de uma estratégia que a extrema‑direita implementa: fabricar pânicos morais em torno da infância para alimentar agendas xenófobas. Primeiro foi o mito dos subsídios aos filhos de imigrantes; depois, os manuais “islamizados”; agora, a prioridade nas matrículas. Não há qualquer prova de favorecimento. Há, sim, uma construção deliberada de clivagens.
O que resta da decência democrática?
A publicação dos nomes de crianças não é apenas uma quebra de privacidade. É a violência de um pacto civilizacional: o de que a infância está acima da disputa política. Se nada acontecer agora, outras listas virão. E novas crianças serão usadas como munição eleitoral.
O Chega não pediu desculpas. Anunciou que poderá divulgar mais nomes. A resposta institucional tem sido o silêncio. Mas a sociedade civil — associações de pais, professores, psicólogos — começa a reagir. Porque quando o nome de uma criança se torna arma, está em jogo não apenas a legalidade, mas a própria ideia de humanidade.