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Resumo

  • a União Europeia, ao continuar a manter relações económicas e tecnológicas com empresas e instituições israelitas envolvidas na ocupação e nos ataques a Gaza, tornou-se cúmplice funcional do que o relatório qualifica como crimes contra a humanidade — e potencial genocídio.
  • A política externa da União Europeia assenta em princípios como o respeito pelos direitos humanos, o primado do direito internacional e a promoção da paz.
  • O relatório da ONU acusa explicitamente esta dinâmica de “normalização económica da ocupação”, sublinhando que a ajuda humanitária não pode servir de desculpa para evitar confrontar as causas estruturais do sofrimento palestiniano.

Gaza arde. A contagem de mortos ultrapassa os 38 mil. A destruição total de bairros, universidades, hospitais e redes de água e electricidade é documentada diariamente por jornalistas, ONG e agências das Nações Unidas. E, no entanto, da União Europeia ecoa um silêncio disfarçado de diplomacia. Ou pior: uma cumplicidade activa através de contratos, comércio, cooperação tecnológica e financiamento indirecto a actores do regime de ocupação.

O relatório da ONU From economy of occupation to economy of genocide lança uma acusação implícita mas devastadora: a União Europeia, ao continuar a manter relações económicas e tecnológicas com empresas e instituições israelitas envolvidas na ocupação e nos ataques a Gaza, tornou-se cúmplice funcional do que o relatório qualifica como crimes contra a humanidade — e potencial genocídio.


A fachada dos “valores europeus”

A política externa da União Europeia assenta em princípios como o respeito pelos direitos humanos, o primado do direito internacional e a promoção da paz. Mas no caso da Palestina, a prática diverge da retórica.

A UE é o maior parceiro comercial de Israel, com intercâmbios anuais na ordem dos 46 mil milhões de euros. Em 2023 e 2024, no auge das ofensivas sobre Gaza, nenhum dos 27 Estados-membros impôs sanções significativas a Israel. Pelo contrário: muitos reforçaram relações bilaterais em sectores como cibersegurança, armamento e inteligência artificial.

A Alemanha aumentou a venda de peças para sistemas de defesa israelitas. A França renovou acordos de investigação com universidades israelitas envolvidas em projectos de segurança. A Comissão Europeia continuou a incluir entidades israelitas nos programas Horizon Europe e Digital Europe, mesmo quando essas entidades estavam ligadas à vigilância de civis palestinianos.


O caso Horizon Europe: ciência, ocupação e normalização

Entre os casos mais flagrantes está o programa Horizon Europe, principal veículo de financiamento científico da UE. Empresas como Elbit Systems, Motorola Solutions Israel, Rafael Advanced Defense Systems e universidades associadas às IDF continuam a beneficiar de fundos europeus. Estes projectos, sob a capa de “inovação civil”, desenvolvem tecnologias de dupla utilização: drones, sensores, algoritmos de rastreio.

O Parlamento Europeu aprovou, em várias resoluções não vinculativas, o apelo à suspensão desses financiamentos. Mas a Comissão Europeia ignorou essas recomendações, invocando a neutralidade do critério científico. Um paradoxo gritante: a ciência usada para reprimir e matar é financiada em nome do progresso.


Sanções? Nem vê-las.

Em comparação com a reacção à invasão da Ucrânia pela Rússia, a resposta da UE a Gaza é atrozmente assimétrica. No espaço de semanas, Moscovo foi alvo de sanções económicas, expulsões diplomáticas e suspensão de acordos de cooperação. Israel, mesmo após provas de ataques a civis, a jornalistas e a trabalhadores humanitários, não enfrentou qualquer retaliação significativa por parte de Bruxelas.

Esta duplicidade mina a credibilidade moral da União. Ao permitir que Israel actue com total impunidade, a UE não só falha diplomaticamente — institucionaliza a lógica da excepção. Em Gaza, os direitos humanos tornam-se negociáveis.


Ajuda humanitária que não basta — e que é contraditória

A União Europeia é também um dos principais doadores de ajuda humanitária aos palestinianos. Mas esse apoio, louvável à superfície, tem um problema estrutural: serve para mitigar os efeitos de uma destruição que a própria UE ajuda a financiar, directa ou indirectamente.

Trata-se de um ciclo perverso: empresas europeias vendem componentes que destroem casas em Gaza; a UE envia fundos para ajudar a reconstruí-las. Em lugar de ruptura, temos continuidade. Em vez de justiça, temos paliativos.

O relatório da ONU acusa explicitamente esta dinâmica de “normalização económica da ocupação”, sublinhando que a ajuda humanitária não pode servir de desculpa para evitar confrontar as causas estruturais do sofrimento palestiniano.


Conclusão: cumplicidade sem disparar um tiro

A União Europeia não dispara mísseis. Mas envia contratos, financiamento e legitimidade diplomática. O seu silêncio institucional, a sua duplicidade política e o seu comércio ininterrupto com empresas envolvidas na ocupação fazem dela não uma mera espectadora — mas uma participante passiva num crime internacional.

Se a UE quer resgatar a sua autoridade moral, precisa de agir. Suspender acordos, aplicar sanções, rever os critérios de financiamento científico e romper com a lógica da impunidade. Gaza não é apenas uma ferida no Médio Oriente — é um teste ético à Europa. E até agora, está a falhá-lo.


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