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Resumo

  • O mais recente relatório da ONU, intitulado “From economy of occupation to economy of genocide”, revela uma engrenagem empresarial de escala global que sustenta e lucra com a ocupação israelita da Palestina, especialmente com os ataques a Gaza.
  • Empresas como a Google, Amazon, Microsoft e Palantir estão implicadas em contratos com o Ministério da Defesa israelita, incluindo o controverso Project Nimbus, uma parceria que disponibiliza computação em nuvem e inteligência artificial para fins militares.
  • “Não se trata apenas de interromper contratos — é preciso desmantelar a lógica de impunidade e de lucro sobre a morte”, afirmou Samira Nassar, jurista especializada em Direito Internacional, à margem de uma conferência da ONU em Genebra.

O mais recente relatório da ONU, intitulado “From economy of occupation to economy of genocide”, revela uma engrenagem empresarial de escala global que sustenta e lucra com a ocupação israelita da Palestina, especialmente com os ataques a Gaza. A economia da ocupação transformou-se numa economia do extermínio — e algumas das maiores empresas do mundo estão no centro desta metamorfose.

De armas a algoritmos, de cimento a circuitos, um vasto leque de sectores contribui, direta ou indiretamente, para o prolongamento do sofrimento palestiniano. O relatório nomeia dezenas de empresas — israelitas, norte-americanas, europeias e asiáticas — cuja actividade tem impacto material sobre a população civil e as infraestruturas em Gaza, muitas vezes em violação do Direito Internacional Humanitário.


O complexo industrial da ocupação

Entre as companhias israelitas destacam-se a Elbit Systems e a Rafael Advanced Defense Systems, ambas fornecedoras de armamento ao exército israelita, incluindo drones e sistemas de vigilância utilizados em bombardeamentos contra zonas densamente povoadas. Estas armas são frequentemente testadas em Gaza antes de serem comercializadas globalmente, num ciclo de violência que se converte em argumento de venda: “testado em combate”.

A Elbit Systems, por exemplo, tem contratos com vários governos europeus, incluindo o Ministério da Defesa do Reino Unido e a Frontex, a agência europeia de fronteiras. Vários protestos têm contestado a presença da empresa em feiras de armamento e instituições académicas. Ainda assim, o valor das suas acções subiu acentuadamente desde o início da ofensiva sobre Gaza em outubro de 2023.


Silicon Valley em Ramallah

O braço tecnológico da ocupação é igualmente robusto. Empresas como a Google, Amazon, Microsoft e Palantir estão implicadas em contratos com o Ministério da Defesa israelita, incluindo o controverso Project Nimbus, uma parceria que disponibiliza computação em nuvem e inteligência artificial para fins militares.

A Human Rights Watch alertou que esta tecnologia pode estar a ser usada para identificar alvos em tempo real — inclusive em zonas civis — com base em padrões de movimento ou em perfis preditivos. Segundo o relatório da ONU, este tipo de vigilância “não apenas facilita ataques extrajudiciais, como institucionaliza uma forma de apartheid digital”.


Betão, bancos e bulldozers

A ocupação requer também tijolo, ferro e dinheiro. Empresas como a Caterpillar, que fornece escavadoras modificadas para demolições de casas palestinianas, continuam a exportar os seus equipamentos para Israel, mesmo após décadas de denúncias. Também a JCB, britânica, foi incluída numa base de dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos sobre empresas envolvidas nos colonatos ilegais.

A par destas, bancos como o HSBC, Barclays, Bank Hapoalim e fundos de pensões europeus foram identificados como investidores em empresas ligadas à ocupação e à indústria armamentista israelita. A lógica é simples: onde há destruição, há reconstrução — e onde há reconstrução, há lucro.


A ausência do Tribunal Penal Internacional

Uma das críticas mais duras do relatório prende-se com a ineficácia dos mecanismos legais internacionais em responsabilizar empresas cúmplices. A ONU alerta para uma ausência total de mecanismos vinculativos que obriguem as empresas a respeitar os direitos humanos em zonas de conflito.

“A due diligence voluntária demonstrou ser manifestamente insuficiente”, lê-se no relatório. O Tribunal Penal Internacional ainda não deu seguimento a nenhuma acção concreta contra empresas por cumplicidade com crimes de guerra em Gaza, apesar de múltiplas denúncias.


Apelos à responsabilização e ao desinvestimento ético

Organizações da sociedade civil, como o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), têm intensificado campanhas de desinvestimento em empresas implicadas. A plataforma Who Profits mantém uma base de dados actualizada com as ligações corporativas à ocupação, usada por activistas, investidores e académicos.

O apelo é claro: “Não se trata apenas de interromper contratos — é preciso desmantelar a lógica de impunidade e de lucro sobre a morte”, afirmou Samira Nassar, jurista especializada em Direito Internacional, à margem de uma conferência da ONU em Genebra.


Conclusão: lucro com sangue?

É legítimo questionar: até que ponto o sistema económico internacional está disposto a aceitar como colateral o genocídio, desde que este seja rentável? As provas reunidas pela ONU não deixam margem para ingenuidade — há empresas que prosperam com a ocupação, e enquanto não houver responsabilização, o ciclo de destruição continuará.

A ocupação da Palestina não é apenas uma questão geopolítica. É um mercado.


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