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Resumo

  • Manual prático para quem não quer ser cúmplice — e acredita que o consumo, o investimento e a acção quotidiana também são formas de resistência.
  • O que é ser cúmplice de um crime, quando esse crime é cometido a milhares de quilómetros de distância.
  • No seu relatório “Anatomia de um Genocídio”, apresentado em Março de 2025, Albanese detalha não só os crimes de guerra cometidos por Israel em Gaza, mas também a rede económica, tecnológica, logística e financeira que os torna possíveis.

Manual prático para quem não quer ser cúmplice — e acredita que o consumo, o investimento e a acção quotidiana também são formas de resistência


O que é ser cúmplice de um crime, quando esse crime é cometido a milhares de quilómetros de distância? Quando não se segura uma arma, não se redige uma ordem, não se aperta um gatilho? Para Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os Territórios Palestinianos Ocupados, a resposta é clara: a cumplicidade é uma questão de estruturas — e de escolhas.

No seu relatório “Anatomia de um Genocídio”, apresentado em Março de 2025, Albanese detalha não só os crimes de guerra cometidos por Israel em Gaza, mas também a rede económica, tecnológica, logística e financeira que os torna possíveis. E deixa uma mensagem directa: há acções concretas que cidadãos, empresas, universidades e governos podem adoptar para travar essa engrenagem — e desinvestir da violência.

Este artigo propõe um guia prático, informado pelas recomendações da ONU e das principais organizações de direitos humanos. Porque dizer “não em meu nome” só faz diferença se for acompanhado por actos.


1. Conhecer a teia: quem está envolvido

O primeiro passo é saber. O relatório de Albanese lista cerca de 40 empresas envolvidas, directa ou indirectamente, na ofensiva militar israelita. Estas incluem gigantes tecnológicas, empreiteiras, fabricantes de armamento, plataformas financeiras e instituições académicas.

Exemplos:

  • Microsoft, Google e Amazon — via Project Nimbus, fornecem cloud computing e IA ao governo israelita.
  • Caterpillar — fornecedora dos bulldozers usados na destruição de casas palestinianas.
  • Elbit Systems e Palantir — fornecem drones e software de vigilância utilizado em ataques preemptivos.
  • HP e Motorola Solutions — desenvolvem sistemas de controlo fronteiriço e rastreamento biométrico.
  • Bancos e fundos como BlackRock, HSBC, BNP Paribas — detêm acções nessas empresas.

Saber onde se investe, com quem se colabora e quem se financia é o início de qualquer acção consciente.


2. Consumo ético: escolher é intervir

Se é verdade que o consumidor individual não pode travar uma guerra, também é verdade que sem consumo, não há lucro. E sem lucro, não há incentivo para a violência corporativa.

Boicotes direccionados são uma das formas mais eficazes de pressionar empresas. O movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) fornece listas actualizadas de produtos, marcas e serviços ligados ao regime de ocupação.

Recomenda-se:

  • Evitar serviços de cloud que participem no Project Nimbus;
  • Não comprar produtos de marcas identificadas como fornecedoras do exército israelita;
  • Questionar fornecedores e empresas sobre as suas parcerias.

É simples: onde há perguntas, há desconforto. Onde há desconforto, há mudança.


3. Desinvestimento institucional: pressionar por cima

Se universidades, autarquias e fundos públicos investem em empresas implicadas, a cidadania tem o dever de exigir desinvestimento.

Casos de sucesso:

  • Em 2024, a Universidade de Cambridge retirou 80 milhões de libras de fundos com ligações a armamento usado em Gaza.
  • Em 2025, o Fundo Soberano da Noruega suspendeu investimentos em Elbit Systems após pressão do Parlamento.

Em Portugal, movimentos estudantis e activistas começaram a pedir:

  • Transparência nos investimentos das universidades públicas;
  • Auditorias éticas nos contratos públicos;
  • Exclusão de fornecedores com envolvimento militar.

Instrumentos como as Campanhas “Não Compre na Ocupação” ou os Índices de Responsabilidade Empresarial são aliados fundamentais nesta frente.


4. Sindicalismo e compras públicas: quem negocia, influencia

Sindicatos podem — e devem — incluir cláusulas de ética nos seus contratos colectivos. Os concursos públicos podem excluir empresas com práticas incompatíveis com os direitos humanos.

Exemplos práticos:

  • Exigir que o fornecimento de hardware escolar (computadores, tablets) venha de marcas que não operem em territórios ocupados;
  • Condicionar contratos de serviços tecnológicos à transparência de parcerias internacionais;
  • Avaliar riscos de reputação para municípios e instituições que colaborem com empresas associadas ao genocídio.

A pressão institucional é mais forte quando vem de dentro.


5. Doar e apoiar: o outro lado da balança

Desinvestir do opressor é apenas metade do caminho. A outra metade é investir na resistência, no cuidado, na reconstrução.

  • Apoiar ONGs que operam em Gaza, como a Medical Aid for PalestiniansAl Mezan Center for Human Rights ou a Defense for Children International-Palestine;
  • Financiar bolsas de estudo para jovens palestinianos;
  • Promover exposições, debates, publicações e fóruns que humanizem a luta.

Não basta retirar o dinheiro da violência. É preciso colocá-lo ao serviço da justiça.


6. Exigir responsabilidade política

Portugal é Estado-Parte da Convenção sobre o Genocídio. Isso implica deveres: prevenir, punir e não colaborar. Exige-se, portanto:

  • Que o Ministério dos Negócios Estrangeiros audite relações comerciais com empresas listadas por Albanese;
  • Que o Parlamento discuta medidas de responsabilização empresarial;
  • Que o Governo se pronuncie sobre o relatório — e sobre as sanções dos EUA contra a relatora da ONU.

pressão cidadã é legítima, democrática e necessária.


7. E se nada mudar?

Se cada instituição recusar agir por receio ou inércia, que reste o cidadão. Que reste o grupo de teatro, o sindicato, o colectivo de estudantes, o professor, a médica, o jornalista. Porque a verdade é esta: os genocídios não acontecem apenas por vontade dos perpetradores — acontecem porque muitos se calam.


O poder de dizer “não”

Francesca Albanese não pediu boicotes. Não usou slogans. Limitou-se a fazer o que lhe compete: mostrar, com provas, como a economia sustenta o genocídio.

Cabe-nos agora decidir: agimos ou ignoramos? Participamos ou assistimos?

Este guia não muda o mundo — mas é um mapa para quem ainda se recusa a ser cúmplice.


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