Resumo
- Entre as prisões da PIDE, os jornais clandestinos, as greves reprimidas e os exílios forçados, milhares de homens e mulheres resistiram ao Estado Novo com coragem, lucidez e sacrifício.
- E ainda assim, desde os primeiros anos do regime, em 1933, até à madrugada libertadora de Abril de 1974, houve quem arriscasse tudo — a liberdade, a carreira, a vida — para manter viva a ideia de um Portugal democrático.
- Em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, milhares de homens e mulheres pegaram em armas contra o colonialismo português, exigindo autodeterminação.
A memória dos que disseram “não” à ditadura — e a amnésia de um país que ainda hesita em honrá-los
Durante quase meio século, Portugal viveu sob a sombra de um regime ditatorial que suprimiu liberdades, perseguiu opositores e impôs uma ordem moral e política alicerçada no medo. Mas nem todos se calaram. Nem todos se curvaram. Entre as prisões da PIDE, os jornais clandestinos, as greves reprimidas e os exílios forçados, milhares de homens e mulheres resistiram ao Estado Novo com coragem, lucidez e sacrifício.
Hoje, muitas dessas histórias permanecem esquecidas, marginalizadas dos manuais escolares, ausentes do discurso oficial. Honrar essa memória é mais do que um dever histórico — é uma escolha política.
A resistência que se fez corpo
A repressão era total. A censura, omnipresente. A propaganda, implacável. E ainda assim, desde os primeiros anos do regime, em 1933, até à madrugada libertadora de Abril de 1974, houve quem arriscasse tudo — a liberdade, a carreira, a vida — para manter viva a ideia de um Portugal democrático.
Nos anos 30 e 40, a resistência operava quase exclusivamente na clandestinidade. O Partido Comunista Português (PCP) foi, durante décadas, o único partido organizado na oposição activa, com uma rede de militantes que imprimia panfletos, escondia perseguidos e sabotava operações do regime. Álvaro Cunhal, preso em 1949 e protagonista de uma das mais célebres fugas da prisão de Peniche em 1960, tornou-se símbolo dessa luta tenaz.
Mas a resistência não se esgotou no PCP. Intelectuais como Bento de Jesus Caraça, Mário Soares, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Natália Correia enfrentaram a censura com a palavra. Escritores e poetas usaram a metáfora como arma. Jornalistas como Norberto Lopes, artistas como José Afonso e grupos como o Teatro Experimental de Cascais abriram brechas culturais num regime de silêncio.
“Não havia armas, mas havia consciência”, afirma a historiadora Irene Pimentel. “A resistência portuguesa foi profundamente cívica.”
As mulheres: resistência invisibilizada
Pouco se fala das mulheres que resistiram ao salazarismo. Mas sem elas, a luta teria sido impossível. Militantes como Sofia Ferreira, Maria Lamas, Julieta Gandra, Catarina Eufémia ou Domingas Quaresma enfrentaram perseguições brutais. Muitas passaram pelas cadeias da PIDE, como Caxias ou o Aljube, onde foram sujeitas a tortura física e psicológica.
As suas lutas cruzavam a resistência política com a resistência à ordem patriarcal do regime. Combatiam por direitos laborais, pela liberdade de expressão e pela emancipação feminina. E muitas criaram redes de apoio clandestino essenciais para a sobrevivência de militantes na ilegalidade.
“No regime, as mulheres deviam obedecer, rezar e calar”, resume a socióloga Teresa Pinto. “As que lutaram pagaram um preço altíssimo — e continuam invisíveis na memória nacional.”
Resistência nas colónias: o outro silêncio
A resistência ao Estado Novo foi também, e com brutal intensidade, resistência colonial. Em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, milhares de homens e mulheres pegaram em armas contra o colonialismo português, exigindo autodeterminação.
Movimentos como o MPLA, a FRELIMO e o PAIGC travaram uma luta que foi simultaneamente anticolonial e antifascista. Muitos dos seus líderes estudaram em Lisboa, foram presos pela PIDE, participaram em redes internacionais de apoio mútuo.
No entanto, em Portugal, a sua luta ainda é tratada como “guerra” e não como “resistência”. Raramente se reconhece que esses combatentes — de Amílcar Cabral a Eduardo Mondlane — foram peças fundamentais no colapso do regime e na democratização do país.
“O colonialismo português não caiu com Abril — caiu com a luta negra”, afirma o activista Mamadou Ba. “É tempo de dizê-lo sem medo.”
Carrascos sem nome, sistema sem rosto
Enquanto os resistentes são muitas vezes esquecidos, os responsáveis pela repressão foram, em larga medida, poupados à justiça e ao escrutínio público. Nenhuma comissão de verdade foi criada em Portugal após o 25 de Abril. A maioria dos agentes da PIDE/DGS não foi julgada. Muitos fizeram carreira no sector privado ou integraram instituições do novo regime.
A transição democrática portuguesa, apesar da sua dimensão histórica, não enfrentou o passado de frente. A conciliação prevaleceu sobre a justiça, e isso teve consequências: uma memória cívica débil, um ensino da ditadura enviesado e o reaparecimento de discursos autoritários no espaço público.
“Não podemos construir democracia sólida sobre alicerces amnésicos”, alerta o investigador Miguel Cardina. “Sem memória, não há anticorpos.”
Para quem é a memória?
Nos últimos anos, têm surgido projectos de revalorização da resistência: o Museu do Aljube Resistência e Liberdade, exposições sobre os presos políticos, livros de testemunhos, documentários e até séries televisivas.
Mas falta ainda uma política pública activa de memória. Não há um monumento nacional aos resistentes. Não há feriado que lhes preste homenagem. Não há ensino sistemático sobre a repressão e a coragem civil.
A memória continua a ser fragmentada, disputada, instável.
Relembrar os resistentes não é culto do passado. É compromisso com o futuro. Num tempo em que a extrema-direita regressa aos parlamentos e às redes sociais, é mais urgente do que nunca recuperar as vozes que disseram “não” quando o medo era regra.
Porque quem esquece os heróis, volta a eleger os carrascos.