Resumo
- o momento em que a lealdade à nação e ao líder assume a forma de fé absoluta, excluindo o dissenso como heresia.
- A retórica hiperbólica, a rejeição do contraditório e a encenação constante da autoridade são sintomas de um ambiente político onde a racionalidade democrática cede à emoção colectiva.
- No Brasil, durante o governo Bolsonaro, elementos de culto ao líder — com motociatas, orações em massa e mensagens messiânicas — mostraram como a política pode ser convertida em adoração.
Num tempo em que a política se transforma em ritual e os líderes em ícones infalíveis, torna-se urgente revisitar uma ideia provocadora do historiador italiano Emilio Gentile: o fascismo enquanto religião política. Para Gentile, os regimes totalitários do século XX não foram apenas projectos de poder – foram sistemas de crença, fé cívica e liturgia secular, que ocuparam o lugar das religiões tradicionais para modelar almas, corpos e sociedades.
A partir da análise do fascismo italiano, Gentile mostra como a ideologia se estruturou com elementos típicos das religiões reveladas: dogmas, profecias, mártires, símbolos sagrados e um líder supremo venerado como encarnação da nação. “O fascismo construiu uma religião política que substituiu a transcendência por um culto à pátria, ao Estado e ao chefe”, escreve Gentile na obra Il Culto del Littorio.
Hoje, essa leitura não é apenas um exercício historiográfico. Vários estudiosos identificam, no actual panorama global, indícios claros de reencenação dessa lógica religiosa na política contemporânea.
A liturgia do poder
Nos anos 30, Mussolini era retratado como redentor da Itália. O seu corpo, os seus gestos, o tom da voz, eram amplificados pela propaganda como manifestações do destino nacional. Cada acto público – desfiles, saudações, construções monumentais – fazia parte de um ritual colectivo de adoração.
Na Alemanha, Hitler era “o Führer”, canal directo entre o povo e a sua missão. Toda a estrutura simbólica do nazismo — do hino ao uniforme, da saudação à linguagem mística — servia para fundar um novo credo racial e civilizacional.
Gentile identifica aqui o que chama de “sacralização da política”: o momento em que a lealdade à nação e ao líder assume a forma de fé absoluta, excluindo o dissenso como heresia. A política deixa de ser negociação e transforma-se em devoção.
Ecos no presente
Se olharmos para regimes contemporâneos, como os de Vladimir Putin na Rússia ou de Recep Tayyip Erdoğan na Turquia, encontramos sinais claros desta “religião laica do poder”. Putin apresenta-se como defensor da “alma russa” contra a decadência ocidental. Erdoğan mistura nacionalismo, fé islâmica e culto pessoal para moldar a vida pública à sua imagem.
Mesmo em democracias formais, há manifestações crescentes deste fenómeno. A retórica hiperbólica, a rejeição do contraditório e a encenação constante da autoridade são sintomas de um ambiente político onde a racionalidade democrática cede à emoção colectiva.
No Brasil, durante o governo Bolsonaro, elementos de culto ao líder — com motociatas, orações em massa e mensagens messiânicas — mostraram como a política pode ser convertida em adoração. Nos Estados Unidos, o movimento MAGA em torno de Donald Trump exibiu práticas ritualizadas que escapam à lógica partidária clássica: não se segue um programa, segue-se um homem.
A nova iconografia digital
O fascismo clássico teve o rádio e o cinema. O neofascismo contemporâneo tem as redes sociais. A linguagem dos “memes” políticos e a viralização de imagens heróicas do líder são hoje as novas formas de culto. Os perfis digitais tornam-se altares virtuais onde seguidores reafirmam a sua fé.
“Não se trata apenas de comunicação política. É construção simbólica, com função emocional e espiritual”, afirma a socióloga da religião Ana Rita Sousa, da Universidade Católica Portuguesa. “A idolatria política substitui a pertença cívica por devoção. E essa devoção facilmente se torna cegueira.”
Culto e repressão
A sacralização do poder raramente é inofensiva. Em regimes fascistas, o culto ao líder servia para justificar perseguições, execuções sumárias e campanhas de extermínio. Quem não partilhava a fé oficial era tratado como traidor da pátria.
Hoje, embora o grau de repressão varie, há sinais preocupantes: jornalistas acusados de “inimigos do povo”, juízes desautorizados por não “defenderem o interesse nacional”, opositores caricaturados como “corruptos” ou “globalistas sem alma”.
O culto ao líder tende a corroer a democracia por dentro. Ele transforma instituições em instrumentos de vontade pessoal e reduz o pluralismo à dicotomia entre fiéis e infiéis.
Fé contra liberdade?
Gentile não propõe uma analogia simplista entre religião e fascismo. Mas alerta para o perigo de transformar ideologias políticas em sistemas fechados de salvação, onde não há espaço para dúvida, crítica ou liberdade.
A jornalista e ensaísta italiana Michela Murgia, recentemente falecida, resumiu este risco com clareza: “O fascismo do século XXI não virá de farda. Virá de t-shirt, bandeira e selfie. E exigirá fé.”