Resumo
- Num momento em que a extrema-direita ganha terreno eleitoral em várias democracias europeias, os cinco estágios do fascismo identificados por Paxton revelam-se uma ferramenta valiosa para analisar a escalada iliberal que atravessa o continente.
- O aumento dos crimes de ódio, a violência policial desproporcionada, a perseguição sistemática a migrantes e a retórica de extermínio político (“limpar”, “expulsar”, “aniquilar o inimigo”) estão a tornar-se comuns.
- A principal lição de Paxton é que o fascismo não se instala de um dia para o outro.
O fascismo não é uma relíquia do passado. É uma possibilidade política sempre latente. Esta é a tese central de Robert O. Paxton, historiador norte-americano e autor de The Anatomy of Fascism, obra que se tornou referência obrigatória para compreender a lógica interna dos regimes totalitários do século XX — e as suas possíveis ressonâncias actuais.
Num momento em que a extrema-direita ganha terreno eleitoral em várias democracias europeias, os cinco estágios do fascismo identificados por Paxton revelam-se uma ferramenta valiosa para analisar a escalada iliberal que atravessa o continente. Do discurso de ressentimento à normalização institucional, os sinais são inquietantemente familiares.
1. Criação do movimento
O primeiro estágio do fascismo, segundo Paxton, é o aparecimento de movimentos que se apresentam como “reação” à crise nacional. A sua retórica é emocional, maniqueísta e antiliberal. Apela a um tempo imaginado de grandeza perdida e oferece bodes expiatórios – geralmente estrangeiros, elites ou minorias internas.
Em Portugal, este padrão manifesta-se no crescimento de forças como o Chega, cuja linguagem simbólica procura encarnar “o povo traído” contra “o sistema”. Na Alemanha, a AfD (Alternativa para a Alemanha) segue idêntico caminho, com discursos nacionalistas e anti-imigração cada vez mais normalizados.
2. Enraizamento no sistema
O segundo estágio é a conquista de espaço social e legitimidade política. Os discursos antes marginais passam a ocupar lugar nos grandes media. Há uma crescente aceitação pública de ideias que antes eram tabu, e os partidos do centro começam a normalizar alianças com a extrema-direita.
Este processo é particularmente visível em países como Itália, onde o partido Irmãos de Itália, liderado por Giorgia Meloni, não apenas venceu as eleições, como governa em coligação com forças tradicionalmente conservadoras. Na Suécia, os Democratas Suecos, fundados por neonazis, têm hoje influência directa nas políticas de imigração e segurança.
3. Conquista do poder
O terceiro momento do fascismo é o acesso ao poder – geralmente por vias legais e eleitorais. Mas o fascismo, lembra Paxton, não chega ao governo sozinho. Precisa da complacência, ou do oportunismo, de elites políticas, económicas e militares que acreditam poder domesticá-lo.
O caso clássico é o de Hitler em 1933: nomeado chanceler com o apoio dos conservadores, que o julgavam instrumentalizável. Situações semelhantes desenham-se hoje em várias frentes. Em Espanha, o VOX influencia a agenda política mesmo sem estar no governo central. Na Hungria e na Polónia, as instituições democráticas têm sido progressivamente esvaziadas em nome da “vontade popular”.
4. Exercício do poder
O quarto estágio é o exercício do poder autoritário: enfraquecimento das instituições de controlo, ataque à liberdade de imprensa, instrumentalização do sistema judicial, supressão da oposição. O governo já não é apenas nacionalista — torna-se repressivo.
O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, é frequentemente citado como exemplo de liderança iliberal com características protofascistas. A imprensa foi quase completamente capturada, o ensino é vigiado ideologicamente e os tribunais perderam independência. O regime opera sob uma fachada democrática, mas esvaziada de substância.
5. Radicalização
O último estágio descrito por Paxton é o da radicalização: quando o regime, livre de entraves institucionais, recorre abertamente à violência, ao extermínio ou à guerra. Nem todos os movimentos chegam a este ponto, mas a história mostra que, sem resistência eficaz, a tendência é de escalada.
Hoje, embora não se verifique um fascismo clássico no poder em nenhuma democracia ocidental, há sinais de que o caminho da radicalização não está fora de hipótese. O aumento dos crimes de ódio, a violência policial desproporcionada, a perseguição sistemática a migrantes e a retórica de extermínio político (“limpar”, “expulsar”, “aniquilar o inimigo”) estão a tornar-se comuns.
O fascismo como processo, não evento
A principal lição de Paxton é que o fascismo não se instala de um dia para o outro. Não há um “golpe de Estado” visível. É um processo de infiltração e erosão, que avança à medida que os limites democráticos vão sendo empurrados.
Para o historiador e cientista político Miguel Freitas, da Universidade de Coimbra, “a anatomia do fascismo é hoje mais relevante do que nunca porque nos obriga a estar atentos aos sinais prévios, e não apenas ao colapso final”. Segundo Freitas, “esperar que os tanques entrem na rua para reconhecer a ameaça é chegar tarde demais”.
Europa em risco?
O mais recente Eurobarómetro revela uma crescente desconfiança dos cidadãos em relação às instituições democráticas, especialmente entre os jovens. Este descontentamento, conjugado com crises económicas, insegurança cultural e desinformação, cria um terreno fértil para soluções fáceis e autoritárias.
“Paxton oferece-nos um espelho. Se o olharmos com atenção, perceberemos que a história não se repete mecanicamente — mas rima, e por vezes com versos sombrios”, alerta Helena Pires, investigadora em política comparada.