Resumo
- Com redações destruídas, famílias dizimadas e o corpo como alvo, jornalistas em Gaza denunciam a guerra com o que lhes resta.
- De acordo com o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), este é o conflito mais mortífero da história moderna para profissionais da imprensa.
- A ausência de contraditório impede o público de aceder a uma visão plural dos acontecimentos, alimentando a polarização e o medo.
Com redações destruídas, famílias dizimadas e o corpo como alvo, jornalistas em Gaza denunciam a guerra com o que lhes resta: a verdade.
“Se estás a ler isto, é porque fui morto.”
— Hossam Shabat, 23 anos, jornalista, morto por um drone em Gaza, 24 de Março de 2025
Na Faixa de Gaza, o jornalismo deixou de ser apenas profissão. Tornou-se missão. E, muitas vezes, epitáfio. Quando Hossam Shabat escreveu as últimas linhas da sua vida, fê-lo não como repórter, mas como testemunha. No seu testamento, publicado horas após ter sido morto por um drone israelita, deixou uma frase que ecoa como denúncia e despedida: “Documentei os horrores no norte de Gaza minuto a minuto, determinado a mostrar ao mundo a verdade que eles tentaram enterrar.”
As palavras de Shabat não ficaram isoladas. Tornaram-se símbolo de um padrão que se repete em Gaza desde Outubro de 2023. De acordo com o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), este é o conflito mais mortífero da história moderna para profissionais da imprensa. Mais de 240 jornalistas foram mortos — a esmagadora maioria palestinianos. Não por estarem no local errado à hora errada, mas por insistirem em contar o que acontece num território onde a verdade é tratada como ameaça.
“Nenhum lugar é seguro”: o diário de Plestia
Plestia Alaqad, 22 anos, ganhou o nome de guerra de “Os Olhos de Gaza”. A sua voz treme, mas não cede. Munida apenas de um telemóvel e acesso intermitente à internet, documenta deslocações, bombardeamentos e despedidas. Numa manhã, teve de fugir três vezes: “Nenhum lugar é seguro”, repete como mantra e diagnóstico.
A sua vida transformou-se num ciclo de fuga, denúncia e sobrevivência. Ao contrário de jornalistas internacionais, impedidos de entrar no território, Plestia é uma das poucas vozes que resta no terreno. “Não somos apenas repórteres. Somos tudo: câmaras, redacção, abrigo, refúgio, memória”, escreveu num dos seus posts. O seu livro, The Eyes of Gaza, tornou-se arquivo urgente de uma realidade que se quer calar.
Tendas bombardeadas, redações desfeitas, jornalistas sem abrigo
A destruição não poupa nem símbolos de proteção. Redações, hospitais e tendas marcadas com “PRESS” foram alvos de bombardeamentos. No dia 8 de Outubro de 2023, a sede da Ma’an Network foi atingida. Emad Eid, o seu chefe de redação, perdeu 28 familiares. Hoje, vive numa tenda junto a um hospital, sem acesso regular a água, eletricidade ou comunicações.
O operador de câmara da Reuters, Hussam al-Masri, foi morto no telhado do Hospital Nasser, zona que deveria ser segura. Outro ataque, junto ao Hospital Al Shifa, matou seis jornalistas de uma só vez, incluindo Anas Al Sharif. O exército israelita alegou, sem provas independentes, que estaria ligado ao Hamas. A ONU considera que os ataques constituem potenciais violações do direito internacional.
Pergunta-se: como pode o jornalismo sobreviver se as suas trincheiras são tendas de lona e os seus escudos são palavras?
Apagão da verdade: o blackout mediático
A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) acusa Israel de impor um “apagão da mídia”. Dois mecanismos alimentam este silêncio: por um lado, a proibição de entrada de jornalistas estrangeiros; por outro, um ambiente de risco extremo para os locais. Não há rede, não há eletricidade, não há garantias — apenas coragem e fé na palavra.
A autocensura também cresce em território israelita. Muitos jornalistas têm laços familiares com soldados no terreno, o que reduz a cobertura crítica da ofensiva. A ausência de contraditório impede o público de aceder a uma visão plural dos acontecimentos, alimentando a polarização e o medo.
A imprensa como alvo num processo de genocídio
No relatório “Anatomia de um Genocídio”, Francesca Albanese, relatora da ONU, afirma existir “motivo razoável” para acusar Israel de genocídio. O documento aponta para um processo de desintegração deliberada do povo palestiniano, não apenas física, mas institucional, social e cultural.
Neste quadro, a eliminação sistemática da imprensa local surge como mais do que um dano colateral. É parte estrutural do crime. Destruir redações, assassinar jornalistas, cortar comunicações — tudo converge para um único fim: impedir que a história palestiniana seja contada pelos próprios.
A memória, enquanto testemunho coletivo, torna-se assim arma de resistência. Cada vídeo, cada crónica, cada última frase deixada por um jornalista morto é um acto de acusação, mas também de esperança.
“Contar é resistir”: a última linha de defesa
A pergunta impõe-se: se todos os jornalistas forem mortos, quem contará o que aconteceu? Em Gaza, contar já não é apenas relatar. É resistir, é existir, é garantir que o apagamento não se torne total.
Plestia continua a filmar. Emad Eid continua a coordenar equipas em ruínas. Cada imagem partilhada, cada nome citado, é um grito contra o silêncio. E quando os corpos caem, as suas palavras sobrevivem — testemunhos sob fogo, deixados como última linha de defesa contra a barbárie.
Porque enquanto houver alguém para contar, há memória. E enquanto houver memória, há justiça por vir.
SILENCIADO
A Guerra Sem Precedentes contra Jornalistas em Gaza
Jornalistas Mortos Desde 7 de Out. de 2023
109+
(Confirmado pelo CPJ, maio de 2024)
Um Conflito Mortal para a Imprensa
O conflito que começou em 7 de outubro de 2023 tem sido o período mais mortal para jornalistas desde que o Comité para a Proteção de Jornalistas (CPJ) começou a recolher dados em 1992. Mais jornalistas foram mortos nas primeiras dez semanas do conflito de Gaza do que jamais foram mortos num único país ao longo de um ano inteiro. Esta infografia lança luz sobre a escala da perda e as histórias daqueles que pagaram o preço máximo para nos trazer as notícias.
Conflitos Mais Mortais para Jornalistas (Dados do CPJ)
O número de mortes de jornalistas em Gaza em apenas alguns meses superou tragicamente os números de conflitos globais de vários anos, destacando o perigo extremo.
Quem Eram os Contadores de Histórias?
Funções Primárias
A maioria dos mortos eram jornalistas palestinianos que desempenhavam várias funções, muitas vezes como os únicos olhos e ouvidos do mundo no terreno em Gaza.
Causa da Morte
Investigações de grupos de liberdade de imprensa indicam que a grande maioria das mortes foi resultado de ações militares israelitas.
Além dos Números
Samer Abudaqa
Cinegrafista da Al Jazeera
“Samer foi morto por um ataque de drone enquanto filmava numa escola em Khan Younis em 15 de dezembro de 2023. O seu colega, Wael Al-Dahdouh, foi ferido no mesmo ataque. Durante mais de cinco horas, os paramédicos não conseguiram chegar a Abudaqa, que sangrou até à morte. A sua câmara, recuperada do local, foi encontrada ainda a gravar. Era pai de quatro filhos, dedicado a mostrar ao mundo a realidade da vida em Gaza.” – Al Jazeera Media Network.
Issam Abdallah
Jornalista de Imagens da Reuters
“Em 13 de outubro de 2023, Issam foi morto por um bombardeamento de tanque israelita enquanto reportava perto da fronteira com o Líbano. Estava claramente identificável como imprensa. Uma investigação da Reuters revelou que a tripulação do tanque disparou duas granadas contra o grupo de jornalistas. Na sua última publicação no Instagram, escreveu sobre a ‘tristeza’ nos olhos de uma menina deslocada. A sua morte é uma perda profunda para o jornalismo na região.” – Reuters.
Yazan al-Zwaidi
Cinegrafista da Al Ghad TV
“Yazan foi morto num ataque aéreo israelita na Cidade de Gaza em 14 de janeiro de 2024. Era conhecido pela sua coragem e pelo seu sorriso. O seu colega, Yehia Al-Rai, disse: ‘Yazan era a minha mão direita… Ele nunca teve medo de ir para os locais mais perigosos para obter a imagem certa, para transmitir a imagem real do que estava a acontecer no terreno.’ Foi um dos dezenas de jornalistas locais que trabalharam incansavelmente sob bombardeamento.” – Testemunho de colegas.