Resumo
- Casos como o de Joana Marques, visada judicialmente por sátiras, ilustram essa transição da censura vertical — vinda do Estado — para uma censura horizontal e difusa, imposta por sectores da sociedade armados de hashtags e notificações legais.
- Quando se exige que o humor seja “adequado” e “sensível”, subtrai-se-lhe a capacidade de interpelar e provocar desconforto — exactamente aquilo que o torna necessário.
- Mas num regime democrático, quem se sente ofendido por uma piada não tem o direito de a silenciar — tem o dever de a rebater em liberdade.
Num tempo em que a sensibilidade parece ter-se tornado imperativo moral e a ofensa uma epidemia social, urge perguntar: que espaço resta para o humor? A questão não é retórica, é existencial — para o humor e para a própria democracia.
O humor, por natureza, incomoda. Subverte, ironiza, desmonta verdades absolutas e revela contradições escondidas sob o verniz da respeitabilidade. Desde Aristófanes a Charlie Hebdo, passando por Herman José, Ricardo Araújo Pereira ou Joana Marques, os humoristas têm ocupado o lugar do bobo que, com riso, diz o que os cortesãos temem pensar. E é exactamente essa função — corrosiva, provocadora, reveladora — que faz do humor um bastião da liberdade de expressão.
Censurar o humor é amputar a democracia de um dos seus nervos mais sensíveis. Em Portugal, embora a censura estatal esteja constitucionalmente proscrita, vive-se uma forma insidiosa de controlo: a censura social e digital, muitas vezes disfarçada de sensibilidade. Casos como o de Joana Marques, visada judicialmente por sátiras, ilustram essa transição da censura vertical — vinda do Estado — para uma censura horizontal e difusa, imposta por sectores da sociedade armados de hashtags e notificações legais.
Esta “higienização do humor”, impulsionada por uma concepção distorcida do politicamente correcto, mina o seu carácter essencialmente crítico. Quando se exige que o humor seja “adequado” e “sensível”, subtrai-se-lhe a capacidade de interpelar e provocar desconforto — exactamente aquilo que o torna necessário. Ao filtrar-se o que se pode ou não dizer para não ferir susceptibilidades, transforma-se o humor em entretenimento oco, despido de potência subversiva.
É evidente que a liberdade de expressão tem limites. O humor não deve ser escudo para o ódio, a humilhação gratuita ou a perseguição. No entanto, confundir crítica mordaz com ofensa pessoal, sátira com injúria, é sinal de uma sociedade que já não sabe distinguir a ironia do insulto. E quando os tribunais se tornam árbitros do que é ou não humor, estamos perigosamente perto de legitimar a censura pela via judicial.
Não há “direito a não ser ofendido”. Há, sim, o direito a responder, a criticar, a não rir. Mas num regime democrático, quem se sente ofendido por uma piada não tem o direito de a silenciar — tem o dever de a rebater em liberdade. É nesse mercado livre de ideias, não nos corredores dos tribunais ou nos linchamentos digitais, que o humor deve ser confrontado.
Num mundo onde a auto-censura cresce ao ritmo da viralização de indignações instantâneas, defender a liberdade do humor é defender a liberdade de pensamento. Porque uma sociedade que começa a ter medo de rir — ou de fazer rir — é uma sociedade que já começou a esquecer como se pensa livremente.
E isso, sim, é verdadeiramente ofensivo.