Resumo
- A afirmação, por vezes tida como idealista, de que bastaria realocar uma fracção modesta do orçamento militar global para acabar com a fome e a pobreza extrema no mundo, ganha assim consistência técnica e plausibilidade política.
- O Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI) e organizações como a Oxfam têm vindo a alertar para a desproporção crescente entre o investimento em armamento e a subfinanciada agenda dos direitos humanos.
- A educação passou de 15% para 35% dos recursos públicos, o número de escolas triplicou e a saúde passou a representar 29% do PIB, com um alargamento significativo da cobertura da segurança social.
Reduzir gastos militares e investir em desenvolvimento humano deixou de ser apenas um ideal utópico. Hoje, é uma possibilidade concreta, sustentada por números sólidos e exemplos históricos. Em 2024, as despesas militares globais atingiram 2,718 biliões de dólares. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), erradicar a fome até 2030 exigiria 267 mil milhões por ano — cerca de 10% dos gastos militares globais.
A simples operação aritmética reforça a tese: 13% dessas despesas — o equivalente a cerca de 353 mil milhões de dólares — seriam mais do que suficientes para cumprir esse objectivo. A afirmação, por vezes tida como idealista, de que bastaria realocar uma fracção modesta do orçamento militar global para acabar com a fome e a pobreza extrema no mundo, ganha assim consistência técnica e plausibilidade política.
O Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI) e organizações como a Oxfam têm vindo a alertar para a desproporção crescente entre o investimento em armamento e a subfinanciada agenda dos direitos humanos. Em paralelo, relatórios do PNUD e do PNUMA indicam que as prioridades orçamentais dos Estados continuam, na maioria dos casos, desalinhadas com os compromissos assumidos no âmbito dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável.
Costa Rica: o exemplo que desafia a norma
A Costa Rica, ao abolir o seu exército em 1948, tornou-se o mais notório exemplo de como uma nação pode prosperar investindo na paz. Nos 25 anos seguintes à decisão, o investimento social quintuplicou, subindo de 2,6% para 13,4% do PIB. A educação passou de 15% para 35% dos recursos públicos, o número de escolas triplicou e a saúde passou a representar 29% do PIB, com um alargamento significativo da cobertura da segurança social.
Estes números traduziram-se em avanços notáveis nos indicadores de bem-estar, saúde e longevidade, colocando a Costa Rica acima da média latino-americana em quase todos os parâmetros sociais. O crescimento económico sustentado foi uma consequência, não um pré-requisito.
Disparidades e prioridades
Outros países ilustram a inversa. O Irão e o Usbequistão, de acordo com o PNUD, gastam anualmente mais com subsídios aos combustíveis fósseis do que com educação ou saúde. Estes casos espelham os custos sociais de escolhas orçamentais que priorizam sectores sem impacto directo na qualidade de vida das populações.
Em contrapartida, relatórios internacionais evidenciam que os países que redistribuem recursos do sector militar para áreas como educação, saúde, habitação ou protecção ambiental tendem a registar melhorias sustentadas no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), redução das desigualdades e maior resiliência social.
A realidade financeira da erradicação da fome
As estimativas da ONU e da FAO convergem: seriam necessários, até 2030, cerca de 267 mil milhões de dólares anuais para erradicar a fome crónica no planeta. Esse valor, embora elevado, representa menos de 10% do total global actualmente destinado à defesa.
É neste contexto que se torna inegável a viabilidade da afirmação: realocar apenas 13% das despesas militares mundiais permitiria financiar integralmente o combate à fome, com margem para reforçar outras frentes de combate à pobreza extrema. E, segundo algumas análises, até menos bastaria.
Conclusão: da retórica à acção
Num mundo em que mais de 800 milhões de pessoas ainda enfrentam fome e miséria, a existência de recursos suficientes — mas mal distribuídos — levanta questões morais e políticas urgentes. A paz, além de um ideal, é uma estratégia de desenvolvimento.
A lição da Costa Rica, a clareza dos números globais e os alertas das organizações internacionais convergem numa ideia simples: a fome não é uma fatalidade, é uma escolha orçamental. E essa escolha pode — e deve — ser alterada.