Resumo
- Está a projectar uma visão de sociedade onde o valor do indivíduo depende da sua utilidade, da sua origem e da sua “compatibilidade cultural”.
- Do outro, um legado que se orgulha da igualdade perante a lei, do acolhimento da diferença, da ideia — poderosa — de que ninguém é cidadão de segunda.
- O higienismo de que o Chega se serve não se dirige à sujidade literal, mas à diferença social, cultural e racial que incomoda a fantasia de homogeneidade.
Lide:
O Chega insiste em “limpar” Portugal — das “ameaças” que associa a minorias, migrantes ou quem ouse divergir. Mas o léxico da purificação, enraizado num imaginário higienista, colide frontalmente com o legado europeu pós-1945: uma ordem jurídica e moral assente na dignidade humana, nos direitos universais e na recusa do autoritarismo.
Corpo:
Quando André Ventura fala em “limpar as ruas”, “varrer delinquentes” ou “desratizar bairros problemáticos”, não está a escolher palavras ao acaso. Está a projectar uma visão de sociedade onde o valor do indivíduo depende da sua utilidade, da sua origem e da sua “compatibilidade cultural”. A retórica é asseada — mas o subtexto fede.
É um vocabulário que ecoa tempos sombrios. A Europa já conheceu — e sofreu — projectos políticos que falavam de “higiene social”, “pureza étnica” ou “saneamento nacional”. No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, a resposta civilizacional foi clara: nunca mais. Daí nasceram o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, a Convenção Europeia de 1950, a Carta dos Direitos Fundamentais da UE.
São essas ferramentas que hoje nos protegem da lógica da exclusão.
“A linguagem da limpeza não é apenas simbólica — prepara o terreno para políticas de desumanização”, alerta Sofia Baptista, investigadora em estudos do discurso político. “Quando uma comunidade é retratada como sujidade, justifica-se removê-la.”
O contraste não podia ser mais gritante. De um lado, um discurso que quer separar, classificar, hierarquizar. Do outro, um legado que se orgulha da igualdade perante a lei, do acolhimento da diferença, da ideia — poderosa — de que ninguém é cidadão de segunda.
O higienismo de que o Chega se serve não se dirige à sujidade literal, mas à diferença social, cultural e racial que incomoda a fantasia de homogeneidade. Para essa fantasia, direitos são um luxo, não uma base. Justiça é vingança, não equilíbrio. Liberdade é privilégio, não condição universal.
O perigo não está apenas no que se diz — está no que se normaliza. Quando “limpeza” se torna sinónimo de política, o pluralismo deixa de ser virtude e passa a ser falha. A democracia vira espectadora da sua própria corrosão.
É aqui que o eleitor europeu é convocado. Não a escolher entre partidos apenas, mas entre visões de mundo: uma que acredita no medo como motor da história, outra que insiste na dignidade como ponto de partida.
No fundo, a pergunta é esta — queremos uma Europa asseada… ou limpa de pessoas?