Mapa do voto Chega vs imigração: o que os concelhos mostram — e o que não mostram - Sociedade Civil
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Resumo

  • Os concelhos com maior voto Chega nas Legislativas de 2024 incluem municípios do interior alentejano e ribatejano, do litoral sul e de periferias industriais — onde a concentração de estrangeiros é, em muitos casos, média ou baixa.
  • O facto de um concelho com muitos residentes estrangeiros ter votado muito no Chega não significa que foram os residentes portugueses desse concelho a fazê-lo — nem que o fizeram por causa dos estrangeiros.
  • Eleitores que vivem em concelhos com poucos residentes estrangeiros podem votar Chega em resposta a uma perceção — alimentada por redes sociais, partilhas de WhatsApp e cobertura televisiva acrítica — de que o país está a ser transformado por forças que não controlam.

A narrativa circula com a fluidez das certezas não verificadas: “o Chega cresce onde há mais imigrantes.” Cruzar os resultados das Legislativas de 2024, concelho a concelho, com os dados da AIMA sobre residentes estrangeiros, devia bastar para a confirmar ou desmentir. Raramente basta. O mapa é mais complicado — e mais honesto — do que o comentário televisivo.

Café em Setúbal, sábado de manhã. Um homem aponta para a rua e diz que “isto mudou”. Sem transição, cola a frase ao voto. Vamos ver se o mapa bate certo.

O que o mapa mostra

Os concelhos com maior percentagem de residentes estrangeiros em 2024 — Lisboa, Cascais, Sintra, Loures, Oeiras, Almada, Faro, Albufeira, Loulé — não são, na sua maioria, os concelhos com a maior percentagem de voto no Chega. Os concelhos com maior voto Chega nas Legislativas de 2024 incluem municípios do interior alentejano e ribatejano, do litoral sul e de periferias industriais — onde a concentração de estrangeiros é, em muitos casos, média ou baixa.

Há sobreposições, evidentemente. Em alguns concelhos do Algarve e da Área Metropolitana de Lisboa, tanto a percentagem de estrangeiros como o voto Chega são elevados. Mas a correlação simples — sem controlos — é enganadora, porque nesses mesmos concelhos coincidem outras variáveis: rendas altas, pressão habitacional, desemprego em determinados setores, e abstenção baixa entre eleitores mais polarizados.

O que os controlos revelam

Quando se introduzem controlos estatísticos básicos — desemprego registado, valor mediano de rendas, densidade populacional, abstenção — a associação entre percentagem de estrangeiros e voto Chega enfraquece significativamente em muitos concelhos. O que emerge em substituição é uma correlação mais robusta com dois outros fatores: a variação rápida de rendas nos últimos três anos e a perceção de degradação dos serviços públicos locais — saúde, transportes, segurança.

Isto não exonera a questão da imigração. Em alguns concelhos com crescimento rápido da população estrangeira em setores específicos como a construção, existe uma associação positiva com o aumento do voto Chega, mesmo após controlos. Mas esta associação é localizada, não universal. Generalizá-la seria cometer o mesmo erro que a narrativa que o mapa pretendia testar.

A falácia ecológica e o leitor cuidadoso

Um aviso metodológico que o texto não pode omitir: dados a nível de concelho não descrevem comportamentos individuais. O facto de um concelho com muitos residentes estrangeiros ter votado muito no Chega não significa que foram os residentes portugueses desse concelho a fazê-lo — nem que o fizeram por causa dos estrangeiros. A inferência individual a partir de dados agregados é uma das formas mais comuns de má análise política. O leitor cuidadoso resiste a ela.

Poderiam argumentar que esta ressalva desvaloriza a análise. O contrário é verdade: é precisamente porque os dados são complexos que importa apresentá-los com rigor, em vez de os reduzir a uma frase num canal de cabo às 22h00.

O que o mapa não consegue medir

Há uma variável que nenhum mapa captura: a perceção. Eleitores que vivem em concelhos com poucos residentes estrangeiros podem votar Chega em resposta a uma perceção — alimentada por redes sociais, partilhas de WhatsApp e cobertura televisiva acrítica — de que o país está a ser transformado por forças que não controlam. Essa perceção não é um facto sobre imigração. É um facto sobre comunicação política. E explica muito mais do voto Chega do que os dados da AIMA.

O mapa não absolve nem condena. Obriga a pensar melhor. A narrativa “imigração causa voto Chega” é demasiado simples para ser verdadeira — e demasiado útil para ser abandonada por quem dela depende para explicar o país em dois minutos. Os dados merecem mais dois minutos.

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