Políticas públicas: como nasce uma lei que muda a sua vida - Sociedade Civil
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Resumo

  • O centro de gravidade da esquerda — a agenda que se discute nos congressos, as causas que mobilizam os militantes mais ativos, o vocabulário das suas figuras de proa — migrou para a classe académica metropolitana.
  • O trabalhador que se levanta às cinco, que não chega ao fim do mês, que não percebe por que razão a sua aldeia tem cada vez menos serviços e cada vez mais discursos, sente-se tratado como um problema a corrigir e não como um igual a quem se pede o voto.
  • Quando a política deixa de ser uma coisa que se faz depois de se ter vivido, e passa a ser uma coisa que se começa a fazer antes de se ter vivido seja o que for, o resultado é uma elite que conhece os corredores do poder e desconhece o resto.

Façam um exercício desconfortável. Percorram os nomes dos deputados da esquerda — de toda a esquerda — e contem quantos trabalharam alguma vez com as mãos. Quantos foram operários, caixas de supermercado, estafetas, enfermeiros de turno. O número anda perto de zero. Os bancos onde se senta quem diz representar os trabalhadores estão cheios de advogados, professores, quadros, assessores e gente que entrou na política aos vinte e poucos anos, vinda da juventude do partido, e que nunca mais de lá saiu. A carreira política fechou-se sobre si mesma. Recruta-se a si própria.

Thomas Piketty deu-lhe um nome que devíamos ter a coragem de repetir em voz alta: a esquerda brâmane. A força que outrora era o braço político de quem tinha pouco passou, nas democracias ocidentais, a representar sobretudo os setores instruídos e urbanos. A esquerda dos diplomas. E digo isto, mais uma vez, de dentro — porque é o meio onde eu próprio me movo, e porque reconhecer-se ao espelho é o primeiro passo para não ficar prisioneiro da imagem.

Convém ser justo, e a justiça torna a crítica mais difícil, não menos. Não é verdade que os trabalhadores nos tenham todos abandonado. Nas últimas legislativas, a esquerda ainda segurou mais voto entre quem não tem curso superior do que a direita conseguiu. O problema é mais subtil e, por ser subtil, é mais grave: não perdemos os votos dessa gente — perdemos a sua língua. O centro de gravidade da esquerda — a agenda que se discute nos congressos, as causas que mobilizam os militantes mais ativos, o vocabulário das suas figuras de proa — migrou para a classe académica metropolitana. Continuamos a ganhar o voto do operário e do reformado da periferia enquanto falamos por cima da cabeça deles.

E ouve-se a diferença. Há uma maneira de a esquerda urbana falar do país real que soa, ao país real, a sermão. O trabalhador que se levanta às cinco, que não chega ao fim do mês, que não percebe por que razão a sua aldeia tem cada vez menos serviços e cada vez mais discursos, sente-se tratado como um problema a corrigir e não como um igual a quem se pede o voto. A esquerda transformou-se, sem dar por isso, numa força que educa as massas em vez de as escutar. E ninguém gosta de ser educado por quem lhe parece viver noutro planeta.

A mecânica disto não é misteriosa. É o recrutamento fechado. Quando a política deixa de ser uma coisa que se faz depois de se ter vivido, e passa a ser uma coisa que se começa a fazer antes de se ter vivido seja o que for, o resultado é uma elite que conhece os corredores do poder e desconhece o resto. Há um défice crónico de experiência material nas nossas bancadas. Falta lá quem tenha sido despedido por uma reestruturação, quem tenha esperado meses por uma cirurgia, quem tenha trabalhado por turnos numa fábrica que fechou. Sem essas vidas no centro de decisão, as nossas propostas saem tecnicamente corretas e humanamente surdas.

Isto não se resolve com mais um manifesto sobre a importância de escutar o povo — escrevemos esses às dúzias e nunca mudaram nada. Resolve-se mexendo em quem entra e quanto tempo fica. Limites rígidos à acumulação e à permanência em cargos, para que a política deixe de ser um emprego para a vida e volte a ser uma passagem. Primárias verdadeiramente abertas, capazes de trazer enfermeiras, cientistas, trabalhadores, gente das cooperativas e das associações que hoje recusa submeter-se ao aparelho. Caminhos de entrada para quem traz uma vida em vez de uma carreira. É menos confortável do que parece: significa que muitos dos que hoje vivem da máquina partidária teriam de lhe abrir espaço. É precisamente por ser desconfortável que ninguém o faz.

Não escrevo isto para confirmar a caricatura da direita, que adora pintar-nos como uma elite de salão a dar lições enquanto desconhece o preço do pão. Essa caricatura é interesseira e, pior, é metade mentira — a esquerda ainda tem raízes onde a direita nunca as teve. Mas é a outra metade que me preocupa, porque essa é verdade, e porque é a verdade que nos cabe a nós corrigir. Uma força que se quer dos muitos não pode ter o rosto dos poucos.

Olhar para os nossos próprios bancos e não nos reconhecermos no país que dizemos servir não é motivo para desespero. É um diagnóstico, e os diagnósticos servem para tratar. A esquerda não precisa de inventar valores novos para voltar a parecer-se com quem defende. Precisa de coragem para abrir as portas que fechou — e de humildade para perceber que a melhor ideia da sala pode vir de alguém que nunca pôs os pés num congresso.

Fontes consultadas

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