Rui Afonso, deputado do Chega, e as acusações de compra de votos a membros do 1143: o que está em causa - Sociedade Civil
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Resumo

  • Rui Afonso, deputado do Chega à Assembleia da República e líder da distrital do partido no Porto, é acusado por três antigos militantes, todos com posição adversarial à actual direcção distrital, de ter inscrito membros do grupo neonazi 1143 e de lhes ter pago para votarem em si nas eleições internas de 10 de Setembro de 2023.
  • Lembra que o jornalista tentou ouvir Rui Afonso antes da publicação, que o deputado o remeteu para a direcção de comunicação do Chega — e que essa direcção nunca respondeu.
  • Lembra ainda que o 1143 é reactivação de uma facção da Juventude Leonina com mais de vinte anos, e que a formalização posterior a Setembro de 2023 não equivale a inexistência.

Três antigos militantes do Chega — entre eles um arguido na Operação Irmandade — acusaram o líder da distrital do Porto de ter pago para vencer eleições internas em 2023. O deputado nega. Ficam factos e ficam alegações.

Rui Afonso, deputado do Chega à Assembleia da República e líder da distrital do partido no Porto, é acusado por três antigos militantes, todos com posição adversarial à actual direcção distrital, de ter inscrito membros do grupo neonazi 1143 e de lhes ter pago para votarem em si nas eleições internas de 10 de Setembro de 2023.

A acusação principal foi avançada a 22 de Fevereiro de 2026 pelo PÚBLICO, em reportagem assinada por Miguel Carvalho. A fonte central é Tirso Faria, coordenador do núcleo do 1143 em Santo Tirso, militante do Chega, antigo vice-presidente da concelhia do partido em Santo Tirso e arguido na Operação Irmandade. Afirma que Rui Afonso "inscreveu dezenas de membros do 1143 no partido, pagou-lhes meses de quotas e quantias para irem votar". E acrescenta uma cifra: "Ao que sei, os valores envolvidos andarão entre 3.500 e 3.800 euros."

Dois antigos quadros confirmam a essência da narrativa. Artur Carvalho, ex-adjunto de Rui Afonso na distrital, diz que "terão entrado mais de cem membros desse [o 1143] e de outros grupos" no partido e fala em pagamentos "acima de 3.500 euros". Israel Pontes, adversário interno em 2023, descreve uma "relação muito vantajosa" entre Rui Afonso e o grupo de Mário Machado, com pedidos de "protecção pessoal e outros trabalhinhos".

O contraditório

Rui Afonso negou tudo nas declarações que prestou no próprio dia 22 de Fevereiro à SIC Notícias e ao JPN. Classificou as acusações de "verdadeiro disparate" e "anátema". Questionou a aritmética: "Já viu o esforço financeiro? O dinheiro que eu tinha que ter para inscrever essas pessoas todas?" Apontou para o perfil das três fontes — "são dissidentes do partido, que estão contra o partido, que estão contra a distrital do Porto" — e acusou o jornalista Miguel Carvalho, autor da reportagem e do livro Por Dentro do Chega, de "mau jornalismo".

A 28 de Fevereiro publicou direito de resposta no PÚBLICO. O argumento central é factual: sustenta que o grupo 1143 não tinha existência orgânica no Porto em Setembro de 2023, invocando publicações do próprio grupo na rede social X e uma notícia do Expresso sobre um almoço comemorativo do primeiro aniversário do grupo, realizado no Porto em data posterior. Se o grupo não existia organicamente no Porto à data das eleições, sustenta, a alegada inscrição massiva dos seus membros é impossível.

O PÚBLICO contrapôs no mesmo dia. Lembra que o jornalista tentou ouvir Rui Afonso antes da publicação, que o deputado o remeteu para a direcção de comunicação do Chega — e que essa direcção nunca respondeu. Lembra ainda que o 1143 é reactivação de uma facção da Juventude Leonina com mais de vinte anos, e que a formalização posterior a Setembro de 2023 não equivale a inexistência.

O que está documentado fora da palavra das fontes

Há um facto material, com prova videográfica, que não depende das três fontes adversariais. Em Setembro de 2024, elementos do grupo 1143 viajaram num autocarro alugado pela distrital do Porto do Chega para uma manifestação do partido em Lisboa. As capturas de ecrã do vídeo foram publicadas pelo PÚBLICO. Rui Afonso, confrontado com elas, reconheceu a presença mas negou as ligações: "Na altura da manifestação, conhecia o Gil [Pantera Costa, apontado como líder operacional do 1143 na ausência de Mário Machado], mas o Gil é simpatizante, apoiante da nossa causa."

O autocarro é facto. O conteúdo da relação que justifica o autocarro é alegação.

O que se segue

Rui Afonso anunciou, ainda no dia da publicação da reportagem, abertura de um "processo de averiguações interno". Afirmou ter "a confiança política de André Ventura". Até à data, três meses depois, não é pública qualquer conclusão desse processo — nem se conhece declaração específica e robusta do líder do Chega sobre o caso. O Partido Socialista solicitou esclarecimentos. O Ministério Público não anunciou, oficialmente, abertura de inquérito autónomo por compra de votos ou financiamento ilegal.

Há um ponto factual em aberto e três meses de silêncio institucional. Em política, raramente o tempo é apenas tempo.

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