Quando uma empresa de software publica um manifesto político: o que diz a Palantir e porque os filósofos falam em tecnofascismo - Sociedade Civil
Partilha

Resumo

  • A 18 de abril de 2026, a empresa de Alex Karp e Peter Thiel publicou no X um resumo em 22 pontos do livro do seu CEO.
  • A Palantir Technologies, empresa norte-americana fundada com capital da CIA e presente em pelo menos doze países, publicou em meados de abril um manifesto em 22 pontos no X, com a doutrina política do seu director executivo Alex Karp.
  • Quando esses instrumentos passam a incluir vigilância integral, cruzamento massivo de dados pessoais e selecção algorítmica de alvos — e quando a empresa que os fornece publica um manifesto explícito sobre o que deve ser feito ao mundo — o que está em causa deixa de ser apenas tecnologia.

A 18 de abril de 2026, a empresa de Alex Karp e Peter Thiel publicou no X um resumo em 22 pontos do livro do seu CEO. Defende serviço nacional obrigatório, regresso da religião à vida pública e hierarquia entre culturas. A reacção crítica, vinda de filósofos e economistas europeus, foi imediata.

A Palantir Technologies, empresa norte-americana fundada com capital da CIA e presente em pelo menos doze países, publicou em meados de abril um manifesto em 22 pontos no X, com a doutrina política do seu director executivo Alex Karp.

O texto resume The Technological Republic, livro de Karp e do seu conselheiro jurídico Nicholas Zamiska. Apela ao fim da "neutralização do pós-guerra" da Alemanha e do Japão, defende serviço nacional obrigatório, recomenda o regresso da religião à vida pública e afirma que algumas culturas "produziram avanços vitais; outras permanecem disfuncionais e regressivas".

Não é a primeira vez

A frase mais discutida do manifesto recupera, sem o nomear, uma declaração do co-fundador Peter Thiel. Em 2009, num ensaio para a Cato Unbound, Thiel escreveu que tinha deixado de acreditar que liberdade e democracia são compatíveis. Dezassete anos depois, a Palantir aparenta tratar essa frase não como provocação intelectual, mas como pressuposto operativo.

A leitura crítica veio rápido. O filósofo belga Mark Coeckelbergh, professor da Universidade de Viena, classificou o texto como tecnofascismo. Coeckelbergh argumenta que a eficiência — a racionalidade instrumental, na linguagem da teoria crítica que Karp conhece bem — pode tornar-se um valor político que se sobrepõe à deliberação, ao pluralismo e à dissensão. Nesse sistema, escreve, a fricção do processo democrático deixa de ser virtude e passa a ser falha de engenharia.

Yanis Varoufakis, antigo ministro grego das Finanças, foi mais directo. Considera que a Palantir adiciona o perigo da inteligência artificial ao risco nuclear, e alertou para o avanço de "robôs assassinos potenciados por IA". O paralelo é deliberado: para Varoufakis, autor de Tecnofeudalismo, a empresa simboliza uma nova ordem em que poucos detêm o que chama capital-nuvem — infra-estrutura algorítmica de extracção — enquanto os restantes funcionam como servos digitais.

A defesa pública

Karp não recua. No mês passado, na Yahoo Finance Invest Conference, devolveu o ataque. Chamou "parasitas" aos críticos e argumentou que o patriotismo, no caso da Palantir, "não só era correcto, como vai tornar-vos ricos". A frase é típica do seu registo. Karp posiciona-se como filósofo de formação, judeu birracial e severamente disléxico, fora dos manuais da Vale do Silício. A sua tese é simples: tornar os Estados Unidos tão fortes que nunca tenham de lutar.

A questão é como se conjuga essa tese com hierarquia explícita entre culturas, fim da neutralização militar do pós-guerra e religião na vida pública. A Byline Times, que descreveu o texto como blueprint para o tecnofascismo, sublinha que não se trata de promoção de livro — é manifesto: uma empresa privada, profundamente embebida em segurança estatal e vigilância, a articular uma visão política.

A objecção honesta

A pergunta que muitos leitores fazem é se "tecnofascismo" não será exagero. Faz sentido colocá-la. O termo arrasta um peso histórico que poucos analistas usam de ânimo leve. Coeckelbergh, Varoufakis, a Al Jazeera, a Euronews, a Byline Times — todos chegaram a essa palavra de forma independente, com argumentação distinta.

A objecção mais forte do lado oposto vem do próprio Karp e dos seus defensores. A Palantir, dizem, é uma empresa contratante de democracias liberais. Trabalha com Israel, com os Estados Unidos, com aliados do Ocidente, em apoio às missões mais centrais dos governos. Não está, formalmente, ao serviço de regimes autoritários.

O ponto crítico não é esse. É outro: o que distingue uma democracia da sua contrafacção é, em parte, o tipo de instrumentos que estão disponíveis a quem governa. Quando esses instrumentos passam a incluir vigilância integral, cruzamento massivo de dados pessoais e selecção algorítmica de alvos — e quando a empresa que os fornece publica um manifesto explícito sobre o que deve ser feito ao mundo — o que está em causa deixa de ser apenas tecnologia.

O eco

No corredor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, um aluno de mestrado em direitos digitais pergunta ao professor se o AI Act europeu chegaria para travar uma empresa nestes termos. A resposta é hesitante. Há mecanismos. Há trâmites. Há sanções. Há, sobretudo, uma incerteza europeia sobre como aplicar a regulação a um actor que opera nos limites entre defesa, segurança, saúde e administração pública.

Daquela frase de Thiel de 2009, restou o eco. Em 2026, deixou de ser ensaio. Tornou-se programa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

Gaza: Manual de instruções para ativistas banais

Partilha
Partilha Resumo Ver Gaza Fights for Freedom e 5 Broken Cameras. Ensinar…

Casas por Montar: Porque é que Portugal Ainda Não Aposta a Sério na Construção Modular?

Partilha
Enquanto outros países erguem bairros em meses, Portugal continua preso à alvenaria e ao licenciamento labiríntico. A construção modular podia ser parte da solução para a crise da habitação. Porque é que não é?

Os próximos capítulos: como os consumidores podem juntar-se às ações coletivas contra os bancos

Partilha
Partilha Resumo As associações que lideram a ação, como a Ius Omnibus,…