Resumo
- Em Helsínquia, as primeiras famílias mudaram-se para o novo bairro modular em apenas 11 meses após o início do projecto.
- A construção modular continua ausente da política pública de habitação, relegada para eventos de inovação, catálogos de startups e algumas experiências discretas no turismo rural.
- A proposta de construir bairros modulares-piloto — como sugerido na “Proposta de Política de Habitação – Eixos Estratégicos e Recomendações” — foi recebida com interesse por alguns autarcas.
Enquanto outros países erguem bairros em meses, Portugal continua preso à alvenaria e ao licenciamento labiríntico. A construção modular podia ser parte da solução para a crise da habitação. Porque é que não é?
Em Helsínquia, as primeiras famílias mudaram-se para o novo bairro modular em apenas 11 meses após o início do projecto. Em Toronto, unidades de habitação temporária em estruturas modulares acolhem pessoas em situação de sem-abrigo desde 2021. Em Zurique, bairros cooperativos modulares ganharam prémios de sustentabilidade e desenho urbano.
E em Portugal? A construção modular continua ausente da política pública de habitação, relegada para eventos de inovação, catálogos de startups e algumas experiências discretas no turismo rural. Não por falta de capacidade técnica. Mas por resistência regulatória, estigmas culturais e bloqueios institucionais.
Quando a urgência pede rapidez — e o sistema responde com betão
Estamos em crise habitacional. As rendas disparam, os jovens não conseguem sair de casa, milhares vivem em sobrelotação e os programas públicos de construção demoram anos até ao primeiro tijolo. A construção modular, feita em fábrica, permite reduzir os prazos de execução para um terço ou menos. Mas continua fora do radar da política central.
A proposta de construir bairros modulares-piloto — como sugerido na “Proposta de Política de Habitação – Eixos Estratégicos e Recomendações” — foi recebida com interesse por alguns autarcas. Mas nenhum projecto saiu do papel até agora.
Porquê?
Quatro entraves reais (e evitáveis)
- Legislação urbanística obsoleta
O sistema de licenciamento português está desenhado para obras tradicionais, com fundações fixas, volumetrias rígidas e durações longas. As estruturas modulares — desmontáveis, expansíveis, transportáveis — não cabem na moldura legal actual. Não há um enquadramento jurídico específico, nem normas técnicas nacionais adaptadas à realidade modular. - Estigma cultural e desinformação
Para muitos, casas modulares ainda são sinónimo de “contentores”. Uma herança visual da precariedade que ofusca décadas de inovação arquitectónica e engenharia. A maioria dos portugueses nunca entrou numa casa modular contemporânea, nem conhece o seu conforto térmico, durabilidade ou eficiência energética. A ignorância torna-se resistência. - Falta de políticas públicas alinhadas
Apesar de existirem empresas nacionais com capacidade instalada, o Estado nunca lançou concursos públicos para construção modular habitacional em escala. O PRR foi canalizado sobretudo para reabilitação tradicional. As estratégias locais de habitação mantêm-se fiéis ao modelo clássico: aquisição de terrenos, projectos únicos, concursos demorados, obras lentas. - Medo da mudança institucional
A modularidade exige mudança nos processos: novos modelos de contratação, equipas técnicas com formação específica, coordenação entre planeamento, urbanismo, ambiente e habitação. Mas a administração pública resiste à inovação disruptiva, sobretudo quando implica sair da sua zona de conforto jurídico.
E no entanto, a solução está montada
Portugal tem condições para liderar, não seguir. Temos universidades com centros de investigação em construção leve e sustentável. Temos arquitectos premiados. Temos fabricantes com capacidade de produção em larga escala. Temos terrenos públicos por utilizar. Temos, sobretudo, uma urgência social e climática que exige soluções rápidas e sustentáveis.
O que falta é coragem. Política. Técnica. Institucional.
Falta aprovar um regime jurídico da construção modular, com regras claras, garantias mínimas e incentivos fiscais. Falta abrir concursos adaptados a soluções industrializadas. Falta incluir o modular nos Planos Locais de Habitação e nas estratégias de curto prazo para resposta habitacional. Falta permitir que as câmaras testem, sem medo, sem entraves, com acompanhamento técnico e jurídico adequado.
Modular não é improviso — é planeamento inteligente
A construção modular não é um remendo. É um modelo urbano com potencial transformador: bairros ecológicos, custos controlados, estética contemporânea, tempo reduzido, flexibilidade para crescer ou adaptar.
Permite soluções para estudantes, jovens profissionais, famílias em transição, migrantes, idosos — e até para respostas rápidas em cenários de catástrofe ou deslocação forçada.
Permite reconfigurar espaços urbanos em transição, utilizar terrenos expectantes, activar o solo urbano com inteligência.
Permite construir com menos desperdício, menos emissões, menos tempo. E mais controlo.
O tempo de apostar é agora
Se continuarmos à espera do “momento certo”, perderemos mais uma década a construir lentamente cidades que não respondem às necessidades dos seus habitantes.A crise exige ferramentas novas. O modular pode não ser a única. Mas é, sem dúvida, uma das mais promissoras. Ignorá-la é um erro. Assumir que não é viável, uma desculpa. Integrá-la nas políticas públicas, uma urgência democrática.