O rosto de Lina e o cemitério dos números: o que falta na cobertura portuguesa de Gaza - Sociedade Civil
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Resumo

  • A 22 de outubro de 2025, o Observador, o DNotícias, o SAPO, o Notícias ao Minuto e a DNotícias deram conta do enterro de 54 corpos não identificados em valas comuns no mesmo cemitério, todos em peças curtas via agência EFE.
  • A NPR enviou o repórter Anas Baba a Beit Lahia, no norte de Gaza, para documentar a recuperação dos corpos de uma família alargada — 132 pessoas mortas num único ataque israelita em finais de 2024, sob um prédio de cinco andares.
  • Não sobra para a viúva no cemitério, para o especialista forense da Cruz Vermelha que admite não haver onde analisar uma amostra, para a mãe que percorre o ecrã do hospital à procura de uma marca no corpo do filho, para os mais de 770 corpos de palestinianos que Israel mantém detidos no chamado “cemitério dos números”.

Lina al-Assi tem 26 anos e duas filhas pequenas, Hanaa de cinco e Jouri de quatro. Visita regularmente uma sepultura sem nome em Deir el-Balah, no centro de Gaza. Acredita, sem certeza, que ali está enterrado o marido. Jihad Tafesh tinha 28 anos quando desapareceu, no segundo dia da guerra, a 8 de outubro de 2023, no bairro de Shujayea. Lina passou semanas a percorrer ecrãs no hospital, a olhar para corpos em decomposição avançada, à procura de uma marca, de uma roupa. Reconheceu um. Quando voltou para o confirmar, já estava enterrado, sob um código numérico em vez de uma lápide.

A história foi publicada pela Al Jazeera a 26 de maio. Em Portugal, dois dias depois, nenhum meio a reproduziu.

Convém dizer já que não se trata de silêncio puro. A 22 de outubro de 2025, o Observador, o DNotícias, o SAPO, o Notícias ao Minuto e a DNotícias deram conta do enterro de 54 corpos não identificados em valas comuns no mesmo cemitério, todos em peças curtas via agência EFE. O Público acompanhou, dois dias depois, as devoluções de corpos pelo Hamas. A 13 de fevereiro de 2026, a SÁBADO publicou um vídeo sobre outros 53 corpos e 68 órgãos enterrados em Deir al-Balah. Em maio de 2026, a Renascença explica o pedido de Luís Montenegro para suspender parcialmente o Acordo de Associação entre a União Europeia e Israel. Portugal reconheceu o Estado palestiniano a 21 de setembro de 2025.

Há cobertura. Há posição política. Há números.

Falta o rosto. Falta o que a Al Jazeera fez nesta peça: sentar-se ao lado de Lina e perguntar pelo nome do marido. Falta também o sistema por detrás do número. Gaza não tem laboratórios capazes de processar ADN. Os códigos genéticos que Israel ocasionalmente envia com os corpos chegam, por isso, inutilizáveis. Os corpos são expostos seis a dez dias em salas de hospital para tentativa de identificação visual antes de serem enterrados sob um número. O cemitério de Deir el-Balah, criado em outubro de 2025, tem cerca de 1.400 sepulturas e ainda 350 por usar.

O contraste com outros media ocidentais é cortante. A NPR enviou o repórter Anas Baba a Beit Lahia, no norte de Gaza, para documentar a recuperação dos corpos de uma família alargada — 132 pessoas mortas num único ataque israelita em finais de 2024, sob um prédio de cinco andares. A Al Jazeera produz peças de fundo com regularidade, com fixers e repórteres no terreno. Em Portugal, replica-se a EFE. A explicação económica é compreensível — redações magras, sem correspondentes no Médio Oriente, dependência estrutural das agências internacionais. Mas não esgota a explicação editorial.

O registo que a imprensa portuguesa escolheu para Gaza é o registo político-institucional. Conselho Europeu, condicionantes do primeiro-ministro, votações na Assembleia da República, debates sobre o reconhecimento. É um registo legítimo e necessário. Mas absorve quase todo o oxigénio. Não sobra para a viúva no cemitério, para o especialista forense da Cruz Vermelha que admite não haver onde analisar uma amostra, para a mãe que percorre o ecrã do hospital à procura de uma marca no corpo do filho, para os mais de 770 corpos de palestinianos que Israel mantém detidos no chamado “cemitério dos números”.

O resultado é uma forma específica de invisibilidade. Não é negação: é distância.

Esta distância tem consequências cívicas. O reconhecimento do Estado palestiniano em setembro de 2025 foi um ato de política externa, e foi um ato corajoso no contexto europeu. Mas, se a opinião pública portuguesa nunca conhecer Lina al-Assi, nunca souber que existe um cemitério de sepulturas numeradas a poucas horas de avião de Lisboa, nunca ler que faltam laboratórios de ADN para devolver nomes aos mortos, o ato fica sem espessura democrática. Indignação durável precisa de cara. Sem cara, a posição diplomática vacila à próxima legislatura, à próxima oscilação parlamentar, ao próximo lobby industrial.

Em Deir el-Balah, os corpos têm números. Em Portugal, têm também ausência. E uma democracia que não vê os corpos com nomes do outro lado do Mediterrâneo defende-se pior dos seus próprios.


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